domingo, 3 de novembro de 2013

Amizade

''Amigo é coisa pra se guardar
debaixo de sete chaves''
Milton Nascimento
 
 
Amizade é uma dessas palavras cujo significado não cabe em si. Quem tem um amigo sabe disso, sabe que não está sozinho, não importa o que aconteça. Amigo é aquele que não é perfeito - ele ama e odeia, sente orgulho e inveja, inclusive de você. Mas o que faz dele seu amigo é que todas as humanidades às quais ele também está sujeito não se colocam à frente da amizade que ele tem por você. Ele doma os seus piores impulsos para estar ao seu lado e não lhe prejudicar. Isso é essencial. Ele se policia, engole o sapo, supera o insuperável. Ele sabe quando algo não vai prestar. Ele avisa, mas não arreda o pé diante da sua insistência burra. Ele fica ali, esperando, pronto para lhe ajudar. Isso... eu disse pronto pra lhe ajudar. Ele nunca dará de ombros e dirá 'bem-feito', sorrindo por ver você se ferrar.
Amigo que é amigo passa a régua, zera, releva, esquece. De verdade. Não só por um tempo, até precisar puxar as cartas na manga pra jogar na sua cara. Ele desconsidera tudo o que mina os melhores sentimentos que nutre por você. Ele não se importa, não se ofende por qualquer coisa. Ele confia em você e se sente seguro, porque amizade é troca. Ele pode lhe dizer qualquer coisa (eu disse dizer, não fazer) e ter a certeza de que isso não irá destruir a relação que existe entre vocês. 
O duro é que a amizade, como tudo na vida, só se revela diante da necessidade. É ali, no seu pior momento. E é nessa hora que as máscaras caem. Ali escoam os interesseiros, os eventuais, os que só pensam em si, os que não estão comprometidos com você, os que estão só pra bisbilhotar. Descobrir que um 'amigo' não é um amigo é triste, mas validar um amigo não tem explicação.


segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

2012 - Sem olhar pra trás

        Depois de um 2011 que entrou para a minha história como o pior ano da minha vida, seria difícil 2012 ou qualquer outro ano vindouro concorrer ao título. De fato, o ano passado foi um divisor de águas. Saí em cinzas, morta, cremada e jogada ao vento. Das minhas certezas acerca da vida, restara apenas uma incerta constatação: era hora de renascer.
        Comecei 2012 sem nenhuma expectativa. Desisti e recomecei, sorri e chorei todos os dias. Pedi para partir todas as noites, mas amanheci. Não teve jeito, tive de viver. E a vida me foi generosa. 2012 foi um ano de ganhos. Surgiram oportunidades, aprendi muitas coisas, conquistei clientes, desenvolvi trabalhos, convivi com pessoas que me fizeram bem. Dentre tantos, o maior de todos os ganhos, sem dúvida, foi o de ter voltado a sonhar. 
        Sempre tive uma visão muito prática e objetiva de mundo, tinha opções e não me faltava nada. Nesse cenário, não havia muito espaço para sonhos - eu tinha mesmo tudo na mão. Que isso não soe mal ou arrogante, mas é um fato. Eu consegui tudo o que eu quis e sem muito esforço. Talvez por isso 2011 tenha sido tão devastador. Quando o encanto se quebrou, a realidade não foi tão bem-vinda. Dei azar, pela primeira vez. Deu tudo errado, eu me perdi. E comecei a sonhar como uma criança que vê e deseja as infinitas e inimagináveis possibilidades. Acendi uma faísca empreendedora, otimista, disposta a enfrentar riscos. 2012 foi o ano em que me tornei adulta, em que me assumi. O saldo? Não tenho mais medo ou vergonha de perder, então me sinto capaz de qualquer coisa. Entendi que não é porque não deu certo uma vez que nunca dará certo - e ter internalizado essa percepção óbvia me deixou absolutamente tranquila para errar, refazer e me expor. Estou motivada e confiante. Eu me tornei solidária no sentido mais puro da palavra. Comemorei secretamente as conquistas alheias, chorei e sofri em silêncio pelas tristezas e perdas de outras pessoas. Torci pelos outros.  

Resumo do ano em uma conversa com o Felipe, na volta da escola:
- Mãe, podemos um dia visitar as montanhas do himalaia?
- Tomara, filho.

          2013 começa com uma nova vida, literalmente. Estamos à espera do nosso terceiro filho, que em breve estará em casa. Na sequência, termino o doutorado. Nisso já se foi o primeiro semestre. A partir de julho, dedicação exclusiva aos negócios. Talvez uma mudança - de morada ou de cidade. Uma viagem importante. Novos investimentos. Haja dinheiro! Muita lentilha hoje, calcinha amarela (hahahahaha), trabalho e economia o ano todo. Que sejam muitos os pequenos momentos de felicidade, que toda a dor seja suportada e que as pessoas que cruzarem o meu caminho tenham o coração repleto de amor. Que nos dias de sol eu possa estar na piscina, que nos dias de chuva eu possa tomar café com bolinhos, que todos os dias sejam bons, independente de qualquer coisa. Desejo que 2013 seja um ano próspero para todos nós.


quinta-feira, 10 de maio de 2012

Nascer é para sempre

As pessoas dizem que morrer é para sempre, mas nascer também é. Todos os anos, o  nascimento é um evento que completa aniversário. No dia 13 de maio será o aniversário do nascimento do meu pai. Apesar da imensa dor pela sua ausência, continuo entendendo que essa deve ser uma data feliz e comemorativa. Com orgulho, meu pai merece o seu parabéns pela vida que teve, pela pessoa que foi, pela sua história que não deixará nunca de existir.
 A morte não me caiu bem, confesso com imenso pesar. É uma experiência surreal, que não consigo processar; vai além do que posso compreender. Antes de perder o meu pai eu achava que era capaz de imaginar a dor de perder uma pessoa amada, mas eu estava enganada. É muito mais difícil do que eu poderia supor. Tornei-me muito mais solidária à dor dos outros. Vejo agora que a dor da perda é vivida em silêncio - é um sofrimento eterno e solitário.
 Hoje olho para as pessoas que sei que perderam seus familiares com a compaixão de quem compartilha um segredo. Por fora, a vida parece igual: voltamos ao trabalho, cuidamos dos filhos, vamos ao cinema, fazemos as nossas atividades de rotina, falamos trivialidades. Voltamos até a sorrir. Mas guardamos intimamente a maior de todas as dores. A saudade se tornou uma companheira, que se esforça para preencher a falta. Entendo agora o quanto é bom estar por perto. Meu pai (como quase todos os pais...) sempre queria nos ter por perto. Ligava pra confirmar a nossa presença no tradicional churrasco de final de semana, ficava chateado se por qualquer razão não pudéssemos ir. E eu ficava brava. Afinal, às vezes eu (como quase todos os filhos...) queria fazer outras coisas. Nesse próximo domingo, juro que eu trocaria tudo para estar em casa com o meu pai. Certas experiências exercem sobre nós uma força transformadora.      

sábado, 31 de dezembro de 2011

2011 O ano que quero esquecer


2011 foi O ano... entra para a história como o pior ano da minha vida. Se você não me conhece ou ao menos não o suficiente, não prossiga. As palavras que seguem expressam toda a minha rabugice e depressão, atributos que me pertencem mas que definitivamente não me resumem. Seria injusto que ficassem somente com esse extrato da minha personalidade.
Injustiça é, de fato, a palavra que marca o ano de 2011 para mim. Foi um ano difícil. Foi o ano em que tudo deu errado, em que todos os esforços não foram o bastante para reverter as tais voltas que o mundo dá. Passei por baixo.
Perdi muito do que era realmente importante, especialmente as minhas ilusões, os meus medos e os meus sonhos. Perdi a confiança que tinha em mim. Perdi o receio da crítica alheia. Perdi a vergonha de não ser aquilo que eu gostaria de ser. Passei vexame, humilhação pública, agressões diversas. Meus planos não saíram como era desejado. Não dei conta do recado e tive de aprender a suportar isso. Fiquei esgotada, estressada, em pane. Desisti de mim todos os dias. Infernizei as pessoas que me amam. Mudei de cidade, tive problemas de toda ordem. Perdi o meu pai.
Como diz às avessas o ditado e eu hoje bem sei, não há nada tão ruim que não possa piorar... mas não tenho mais medo de nada. Passei pelos mais dolorosos momentos. Vivi os meus piores pesadelos. Sobrou pouco de mim, ou do que eu era. Não vou me refazer, não. Não tenho o menor interesse nisso. De tudo, eu desejaria apenas driblar a morte, o que não é possível.  Ao lado da morte, sobre suas mãos duras e frias, entendi em um instante toda a história da minha vida. Compreendi o que é saudade, arrependimento, impotência.
2011 se foi e levou mais um pouco da minha infantilidade. Aprendi a perder e devo reconhecer que foi uma lição horrorosa. Aprendi na marra, porque não queria ficar em recuperação ou ter de repetir a série por ora. Começo 2012 sem expectativas, com uma certa leveza de espírito. Tornei-me imortal, indestrutível. Sinto-me forte e estranhamente segura. Que seja como for. Desejo um 2012 a todos.   

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Deus Salve a Bahia

Destino: Porto Seguro
Terra do descobrimento, de infinitas histórias, de índios, negros e brancos. Estive por alguns dias em Porto Seguro, minha primeira passagem pela Bahia. Terra de muitos contrastes. Segue uma lista de considerações sobre a viagem:
1. Porto Seguro é uma cidade naturalmente linda, mas a estrutura e os serviços parecem muito improvisados. A população é muito receptiva (e ávida pelo dinheiro que o turismo faz circular por lá).
2. Em Porto Seguro as pessoas trabalham até a exaustão, o que para mim derrubou o estereótipo do baiano que não trabalha. Criança, jovem, adulto, idoso - está todo mundo tentando sobreviver. Aliás, não sei quando é que os baianos dormem, porque já estavam trabalhando antes de eu acordar e continuavam a trabalhar depois de eu me recolher.
3. Os empreendimentos de maior porte pertencem a um pequeno grupo de pessoas, o regime de trabalho para os funcionários é árduo. Os funcionários às vezes dormem na rua...
4. A praia do espelho é espetacular. Os corais formam piscinas naturais de águas quentes, cheias de peixes. O acesso é difícil, mas compensa. Pouca gente, praia limpa, ótimo atendimento nos restaurantes locais.
5. Realmente, estava faltando um pouco de álcool na minha vida. Nada como umas cervejas geladas à beira da piscina, uma isca de peixe, um calorzinho...
6. Melhores passeios: praia do espelho, recife de fora, centro histórico de Porto Seguro, Trancoso.
7. Pior momento: banheiro da embarcação que leva até o recife de fora. Sem água, imaginem um único banheiro para atender a mais de cinquenta pessoas por 4 horas... Quer piorar? Imagine se você for surpreendido por um terrível mal estar intestinal. Pois é... Desci, vi o banheiro e pensei: não vai dar, vou esperar. Subi. Vinte minutos depois, com a embarcação ainda no mar, muita dor de barriga e longe de voltar para o hotel, pensei: esse banheiro está ótimo... Nada que algumas garrafas de água mineral não ajudem... hahahahaha
8. Não foi o acarajé. Outro mito derrubado: nem todo acarajé faz mal. No centro histórico, indico a tia Neusa. Bolinho feito na hora, uma delícia.
9. A cocada da Bahia é demais. E o feijão também!
10. Não fiquem nos hotéis do centro. Ficamos inicialmente no que é tido como o melhor deles, mas não indico. Sujinho, cheiro de mofo nos quartos, baratas, água fria, e outras tantas coisas desagradáveis. Pra piorar, mega constrangimento na hora de trocar de hotel..
11. Super achado: O Seu Bidé, taxista. Preço bom, pessoa ótima, conhece tudo na região. Recomendadíssimo! Tenho o telefone dele, pra quem se interessar.
12. Os baianos são lindos. Negão, não requebra desse jeito... pelo amor de Deus! (Abana!! Ops, quer dizer, abafa!!). Hehehehe!
13. Não vejo a hora de voltar pra Bahia. Queria era ter ficado por lá.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

A mulher do fantasma

Dona Maria era uma pessoa de bem. Acordava cedo, cuidava da casa, da família, mantinha tudo organizado, não incomodava os vizinhos, fazia tudo pelo melhor e nunca reclamava de nada. Era muito discreta. Poucos sabiam da sua vida. Na verdade, só uma pessoa sabia de fato o que acontecia na sua vida: a prima Carolina. Era essa prima emprestada, de parentesco muito distante, porém com quem Dona Maria mantinha laços afetivos muito estreitos, que transitava na ponte entre a rua e a casa daquela adorável senhora. É que o marido da Dona Maria não gostava de visitas, mas simpatizava muito com a tal Carolina. Duas vezes por mês, a prima viajava trezentos quilômetros para estar lá. Levava disfarçadamente umas sacolas de compras e pegava as contas a pagar no canto da cristaleira, sem que Dona Maria visse. Sentava-se na sala e as duas aproveitavam a tarde para tomar chá e conversar, já que o Sr. Wilson estava no trabalho e o Guto, filho da Dona Maria, estava na escola.

Todos os dias, desde que eles se casaram (e isso já tinha os seus vinte anos), Dona Maria acordava antes das seis horas, arrumava-se e preparava o café para o Sr. Wilson. Os dois sempre foram muito apaixonados e companheiros. Saíam juntos para o trabalho, ele a deixava no escritório e seguia para a sua oficina. Almoçavam juntos e voltavam juntos no fim do dia. Depois que o Guto nasceu, viviam os três pra lá e pra cá. Era Senhor Wilson quem levava e buscava o filho na escola.

Foi assim até o dia em que o marido e o filho morreram. Depois disso, Dona Maria preferiu sair do trabalho e ficar em casa para ter mais tempo para cuidar da família. Continuava a acordar antes das seis, arrumava-se, preparava o café. Despedia-se do marido, acompanhava-o até a porta. Organizava as coisas, preparava o almoço, acordava o filho e o ajeitava para a aula. Almoçavam juntos e ela os acompanhava até a porta. No final da tarde, esperava por eles arrumada - que a vovó lhe ensinara a esperar o marido sempre perfumada e bem vestida - e juntos aproveitavam o tempo antes de dormir. Dona Maria nunca se preocupou com o fato de eles terem morrido. Para ela, isso não era importante.

Havia oito anos que as janelas daquela casa não se abriam. Dona Maria era vista rapidamente poucas vezes ao dia: bem cedinho - quando estendia as roupas dela, do marido e do filho no varal e abria e fechava a porta; ao meio-dia - quando abria e fechava a porta (em dois momentos, com o intervalo de uma hora e meia entre eles); e no final da tarde - ao recolher as roupas e ao abrir e fechar a porta novamente. Parecia sempre muito tranquila. Era educada e, se acaso alguém a cumprimentasse, sempre tinha uma palavra doce e um sorriso no rosto. Apesar de ser receptiva, os contatos externos eram muito raros. Ninguém, exceto o marido, o filho e a prima Carolina, ultrapassava o limite do portão. Ninguém, pra ser sincera, nem notava que ali havia uma casa e uma mulher tão invisível quanto o marido e o filho.

A prima Carolina gostava mesmo de visitar a Dona Maria, não era um favor não. Eram amigas. Ela também não se importava com aquela história de morte. Claro que ela não via e não ouvia o Sr. Wilson, mas se ela, que era viva, também não era vista nem ouvida pelo próprio marido que era vivo, então parecia não fazer a menor diferença estar vivo ou morto. Carolina tinha um situação financeira favorável, por isso decidira ajudar a prima. Não que ela não preferisse que a Dona Maria saísse um pouco de casa, fizesse outras amizades, voltasse a trabalhar; inclusive insistia muito para isso. Tentou alguns tratamentos psiquiátricos, espirituais, enfim, tentou. Sem sucesso, passou a conviver com as manias da prima, como fazia com as manias de todas as outras pessoas que ela conhecia. Cada um com as suas maluquices, pensava.

Certa manhã, ao abrir a porta como de costume, um gato pulou pra dentro da casa - e sabe como são ágeis os gatos. Dona Maria assustou-se. Ficou com um pouco de medo do bicho, não estava muito acostumada a ter animais. Começou a pensar em um jeito para tirá-lo dali antes que o marido chegasse. Bom, não teria como sair com a casa fechada, foi a ideia mais óbvia e imediata que lhe ocorreu. Temerosa, abriu uma fresta na porta. Tentou tocar o bicho para a cozinha, mas não deu certo.Teve de abrir a porta um pouco mais e um pouco mais e um pouco mais. Escancarou a porta e nada do gato sair.

Dedicou algumas horas a observar o gato. Estava se agradando com aquela presença, mas lembrou-se de que o marido era alérgico a gatos. Decidiu que o melhor seria tirar logo o felino dali. Vendo o apreço do animal pelas cortinas, abriu repentinamente as janelas. As pessoas na rua pararam, surpresas. Começaram a se aglomerar na frente da casa, a espiar aquela mulher falando e gesticulando dentro de casa sozinha. Não viam o gato, mas ele estava mesmo lá. Confirmavam e cochichavam a teoria da loucura, justo no maior ato de sanidade da Dona Maria. 

Quando a Dona Maria viu o agito, discreta que era, fechou tudo bem rápido. Ficou com o gato. Lembrou-se de que o marido havia morrido e teve esperança de que talvez isso o tivesse curado da alergia. E não é que era? Dona Maria voltou à rotina, envergonhada porque todo mundo achou que ela fosse louca. Fechou a janela e até hoje nunca mais abriu. 

quinta-feira, 21 de julho de 2011