segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Afronta



Costumo comprar a carne. Explico porque, em muitas famílias, a tarefa de escolher a carne é do homem. Aqui em casa não é assim. 

Como toda pessoa que gosta de comprar carne, tenho o "meu" açougueiro. Ele já sabe as minhas preferências. Assustou-se comigo no início, depois se resignou. Tem gosto pra tudo, deve pensar.

Em uma das primeiras vezes que me atendeu, escolhi a picanha, pedi pra limpar toda a gordura e moer. O homem olhou, olhou, olhou de novo. Pela expressão, não sabia se ele não tinha entendido ou se não estava acreditando. Repetiu: "a senhora quer que tire toda a gordura e depois é pra moer?". "Sim", respondi. Vi, no fundo dos olhos dele, que a pergunta machista era: "Mulher! Você tem certeza de que está me pedindo pra estragar essa picanha? O seu marido sabe disso?". Achando muito esquisito, lá foi ele. Entregou-me o pacote. Tchau.

Na vez seguinte, eu já era cliente, sentiu-se mais à vontade. Antes de entregar o pacote, insistiu: "moça, olha essa parte aqui da gordura. É boa, tem até um pouco de carne que não deu pra tirar. A senhora tem certeza de que não quer levar?". "Não, moço, obrigada. Não vou usar a gordura". "Mas moça, olha bem, dá pra aproveitar, a senhora vai pagar por isso mesmo sem levar", advertiu. "Eu sei, moço, mas não vou usar. É pra criança, não vou colocar a gordura". Até que, contrariado, se convenceu.

A defesa do moço não era em prol do dinheiro. Era pela gordura da picanha mesmo. Uma questão de princípio. Picanha e gordura, gordura e picanha. Para ele algo inseparável. Acredito que ele, como meu pai, deve adorar o tal granito. Aquele pedido era uma afronta. A peça de picanha é sagrada, eu acho.

Outro dia lá foi o maridão, devidamente instruído: "ó, escolhe a picanha, mais ou menos 1,5 kg, mais magrinha, vai ali no açougue e pede pra limpar toda a gordura e moer". Feito o procedimento, calhou de ser atendido por outro açougueiro. O rapaz olhou, incrédulo, e confirmou o pedido. Desta vez, a comunicação secreta era: "Homem! Você está bem? Não posso acreditar que está me pedindo pra estragar essa picanha!". Ele olhou para o outro açougueiro, que é o que me atende e que gerencia o setor e perguntou (segundo o relato): "E pode moer isso aqui?". O chefe respondeu: "Claro. Se o cliente pediu pra moer...". Acho que ele até já sabia que era pra mim. 

Deve pensar que eu não sei que poderia comprar patinho pra moer. O que ele ainda não sabe é que a picanha moída vira um hambúguer maravilhoso. Basta misturar 500g de carne com 1 pacote de creme/sopa de cebola em pó, moldar os hambúrgueres e assar. Eu coloco no forno.

Parafraseando a Fiat: "Está na hora de mudar seus conceitos!".

Fica a dica. 



  


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