domingo, 5 de dezembro de 2010

Consolo


Em consideração ao meu falecido texto do post anterior, lanço esse antigo lamento, escrito em circunstância similar.

Mensagens para a Terra do Nunca
Depois de dedicar um longo tempo a escrever um texto de e-mail para um novo amigo, quando pensei e por várias vezes me certifiquei de ter descrito uma completa síntese das principais atividades que desenvolvi nos últimos anos, das mudanças ocorridas na minha maneira de pensar, enfim, um apanhado das minhas características e de tudo aquilo que idealizo ou questiono na nossa sociedade, na minha vida e nas instituições, eis que o maior de todos os temores virtuais aconteceu: o e-mail expirou, devido a falhas na conexão local.
Tomada por imensa frustração, vasculhei a pasta dos enviados e dos rascunhos, sem sucesso. Pensei em recomeçar, mas concluí que a ideia era péssima. Primeiro porque eu não estava mais com a mesma disposição para me expor daquela forma (tem coisas que a gente só fala uma vez). Segundo porque não me lembrava mais nem da metade da organização do texto e não queria comparar mentalmente o que eu havia feito antes – e que havia me agradado bastante - com o que poderia produzir agora, visto que estou sem nenhuma paciência. Terceiro porque meu pensamento foi atraído por uma dúvida: para onde será que vão esses e-mails?
Nessa hora, fui surpreendida por uma resposta automática: de certo vão para a Terra do Nunca. Pode que estejam lá, cristalizados, num mundo inacessível, onde o tempo não passa. Deve haver um escaninho, um arquivo, um espaço para armazenar todos os escritos que não conseguem ser destinados e que não ficam guardados em nenhum esconderijo do nosso computador. Meu rico e-mailzinho possivelmente esteja ali, ao lado de todas aquelas teses, dissertações, planilhas, trabalhos, enfim, de todos os documentos do mundo que, sem mais nem menos, nos deixaram. E que, em geral, nos deixaram na mão, diga-se de passagem.
Essa sensação de impotência é terrível, mas preciso confessar que só há outra coisa que me incomoda mais: a lembrança insuportável da piadinha infame que termina como um sonoro “porque só Jesus salva”. Sinto-me mesmo como um diabo que digita rapidamente as memórias mais sagradas de uma existência. E o faz assim, impulsivamente.
Haveria um ser supremo, um editor, revisor ou algo dessa natureza que age obscuramente em nosso benefício? Aquele que tudo pode e tudo vê, que detecta uma comunicação potencialmente perigosa e trata de exterminá-la antes que as palavras se espalhem? Seria essa uma mensagem velada indicando que estamos nos excedendo, por mais contraditório que isso possa parecer quando faltam apenas dois dias para que você entregue um projeto que está praticamente concluído e, de repente, ele nem se despede e vai embora?
Ao reler o que acabo de escrever em busca de uma resposta, minhas divagações metafísicas foram violentamente atingidas por uma veia pragmática: não, as coisas são simplesmente como e porque são. Não existem essas explicações. Não fosse assim, essas bobagens que acabo de lançar teriam se autodestruído logo no primeiro parágrafo. Além do que não existiram também tantas outras bobagens, muitas até publicadas.
Por fim, volto ao que estava fazendo antes de me perder nessa história. Sem meu e-mail e, lamentavelmente ou não, sem ter mais nada a dizer.

Um comentário:

  1. Puxa... eu sempre achei que esses emails iam para o paraíso... hehehehe
    Na verdade, é tudo culpa dos Gnomos!!!

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