quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Detalhe

Foto: Marcos Finotti 

Minúscia. Algo em sua mínima parcela, exposta ao máximo. Um requinte. Um desastre. Só um detalhe. Uma coisinha que pode arruinar um grande feito ou valorizar uma obra singela. Poderoso mimo. Precioso. Tanto que exige parcimônia. Quem, por exemplo, fala todos os detalhes, fica prolixo. E aí o discurso vai pro lixo, junto com o relator.

Tudo parecia bem, mas faltava um detalhe. Sabe-se lá o que estava por vir. Você não me contou que era casado! Disse ela, decepcionada, ao o flagrar desprevenido de aliança no dedo. O que importava para ele é que estavam se divertindo juntos, mas ela queria uma relação exclusiva. Como cantaria Roberto: "detalhes tão pequenos de nós dois...".

O detalhe é o acabamento, é o que diferencia o bruto do polido, o que data os períodos da nossa história, distigue o pinico da panela. Pode ser essencial ou não ter importância. Depende de quem avalia e do contexto. Tem horas em que a gente simplesmente precisa se apegar a ele. Tá, e aí? Ele estava com outra no restaurante? O que eles estavam comendo? Quanto tempo ficaram lá? O cabelo dela era comprido? Não sei se é pra sofrer detalhadamente ou se é pra poupar o principal. 

Assim seguimos, compondo a vida em detalhes. Trançamos as alegrias, os prazeres e as gotículas de felicidade, entremeados com as pedras, as gafes e as dores. Uma aparada aqui e ali. Leva-se anos. A cada tanto, atamos um nó na corda, pra não desfiar tudo de repente. 

São esses detalhes que nos revelam. Entregam deslizes, paixões, mentiras, preferências, hábitos. Contam nossos segredos todos. Escancaram ao olhar atento. São pequenas bolas de cristal, mostram precisamente o passado e o presente. Com um pouco de treino e de habilidade, dá até pra arriscar um futuro.

E a gente se ilude, pensando que um detalhe é apenas detalhe.

Um comentário:

  1. E é nos pequenos detalhes da ca dia, que se escreve o livro da vida.

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