segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

SUCESSO II


Passada a revolta, após uma noite de (quase) sono, resolvi recuperar na memória o substrato do texto do sucesso. Não ficou igual. Segue.

Sucesso

Agora só falta você. Todas as suas amigas se deram bem nos negócios, casaram há um ou dois anos (vivem em plena lua-de-mel), viajaram recentemente ao exterior, têm ou planejam ter em breve filhos, andam na moda, frequentam festas animadíssimas, estão sempre com as unhas feitas, o corpo invejável, enfim, parecem ter tudo sob controle.
Sinceramente, não sei como alguém pode fracassar com tantas receitas práticas para se conquistar o sucesso. “Faça isso!”. “Invista naquilo, depende só de você!”. “O sonho está ao seu alcance. Aconteça!”. “Mexa-se”. Falta apenas terminarem com “seu bosta”, “seu preguiçoso” ou “seu vagabundo”. Tenho dúvidas se esses imperativos têm mesmo o objetivo de ajudar.
Claro que cada um é responsável pela própria vida, mas será que o problema pode ser resumido a isso? As pessoas tentam. Entretanto, é necessário reconhecer que não tem lugar VIP para todos. Não simultaneamente. Aí é que está. Eis que de repente a roda da vida gira.
O superempresário quebra, o casamento perfeito naufraga, os filhos crescem e decepcionam. E aquele seu colega quarentão, que não emplacava uma, agora com a barriguinha saliente e notáveis cabelos brancos, não é que o cara surpreendeu! Quem diria? Guardou um dinheirinho, investiu bem, o mercado foi favorável, rendeu. Viajou de férias, conheceu uma pessoa incrível num cruzeiro no ano passado, comprou um apartamentão, trocou de carro. Até filho teve. Está curtindo com a sabedoria dos que aprenderam a viver um dia por vez.
Pois é. Ninguém escapa. Em algum momento, entre os 20 e os 40 anos, a crise do sucesso bate. Afinal, o que você fez? Quanto ganhou? O que tem a oferecer? As medidas do sucesso são rígidas. Não aceitam qualquer bobagem. Tampouco querem saber de desculpas. Prepare-se.
Pelos cálculos, o pico da crise deve ocorrer por volta dos 30 anos. Compreensível. Nessa fase você já teve tempo de estudar, ter uma profissão, alguma experiência profissional, um ou outro relacionamento sério. Antigamente, poderíamos dizer que você tinha atingido a meia idade. Sim, os padrões de longevidade mudaram. Os de estilo de vida também.
Aos trinta, muitas das pessoas que conheço hoje ainda não atingiram a plenitude do universo socialmente chamado “adulto”. A grana é curta, as relações efêmeras, nada de estabilidade. A pressão é grande. A essa altura, os seus “véios” estão loucos pra se aposentar e se mudar pra praia. Estão só esperando você engrenar. Sobraram somente você e mais dois no time dos solteiros da peladinha de quinta-feira. Sem dinheiro, não dá nem pra pensar em constituir família, o que faz parecer que você não quer compromisso. Isso espanta pretendentes. Não é fácil.
Será que terei uma iluminação? Uma sacada? Se você chegou aos trinta sem ter sido contemplado com o sonho do macarrão (vide Kung Fu Panda), bem-vindo ao clube. É bem possível que você passe os próximos dez anos vivendo de expectativa. Vá lá. Pode invejar os outros. Eles também invejam algo em você. Não se pode ter tudo, dizia a vovó. Numa dessas rola uma inspiração. Ou uma imitação. Por que não? A onda é reciclar, reaproveitar, reutilizar.
Não dá pra tentar conquistar o mundo. Talvez aquele vizinho. Numa conversa de corredor, quem sabe não surge uma sociedade. Uma boa pequena ideia. Não vamos desanimar. E quando conseguir passar para o outro lado, cuidado. A pressão lá também é forte. Volta e meia alguém desiste e puxa a cordinha. Por isso é que a roda gira.    

Um comentário:

  1. Lembrei-me de um clássico da "Auto-ajuda": EU MEXI NO SEU QUEIJO (favor não confundir com o "Quem mexeu no seu queijo". O primeiro é recomendado, enquanto o segundo é mais um "água com açucar" do mercado editorial

    ResponderExcluir