sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Pedido



Um pedido é algo que a gente faz a alguém quando deseja ou precisa de alguma coisa. Parece muito simples. Não é. Pense em como é pedir dinheiro emprestado, por exemplo. Tente talvez pedir um aumento, pra ver que embaraço. Dependendo do caso, até pedir uma informação pode ser complicado. Pedir é difícil porque nos coloca na mão do outro. 

O que dizer então de um dos mais temidos pedidos de todos os tempos: o de casamento. Como se deve pedir alguém em casamento? O ritual costuma variar de acordo com a cultura dos povos, mas sofre alterações também com o passar de gerações.

Na época da vovó, pra não precisar ir tão longe, o vovô (depois de mais ou menos um ano e pouco de namoro no sofá, às quarta-feiras, com a tia da vovó no meio) precisava pedir que seu pai marcasse com o pai da futura esposa a data do noivado. Promoviam um evento familiar, uma festa em casa, onde o jovem vovozinho, nervoso, pedia ao temido sogrão a famosa mão da senhorita vovó em casamento, na presença de toda a parentada dos dois lados. O pretendente oferecia a ela um anel de noivado - quanto mais precioso melhor - e eles marcavam um dia para o casório, que deveria ter no mínimo uns seis meses de prazo, para evitar comentários de uma possível gravidez oculta. Os pais do vovô bancavam o imóvel para os pombinhos (na falta dessa possibilidade, recebiam a nora na casa deles). Os da vovó arcavam com as despesas do enlace. Eram meses de preparativos. Detalhes da festa, enxoval bordado, vestido... 

Tem quem use esse método. Ainda é válido, mas não está tão em voga. O must agora é o casal viajar sozinho para uma temporada no Quênia. O namorado carrega na mochila um supermegahiperanel de noivado que pertenceu a sua mãe princesa e faz um surpresa (previsível) encantadora para a amada, depois de dez anos de relacionamento (com direito a 2 bodas de PVC - é, bodas de tomar o cano, comemoradas após 5 anos de enrolação).

Que nada. Reconheço que para um membro da tradicional monarquia britânica o rapazinho se superou. Enfim. Na vida (não) real, os recursos atuais não permitem tanta pompa. Os casais namoram, moram juntos, moram sozinhos, ficam um pouco pra cá, outro pra lá. Tem de tudo. Na prática não tem mais regra, apesar de ainda haver certos preconceitos na mentalidade das pessoas. 

Ninguém mais tem dinheiro nem tempo nem saco pra tanta história. O anel de noivado foi suprimido, está quase extinto. Os casais escolhem direto as alianças. Raramente os pais se envolvem nesse processo do "acerto" (é claro que depois brigam durante os preparativos para o grande dia). O noivado, se comemorado, fica restrito aos membros mais próximos da família.

Em muitas situações, não se tem propriamente um pedido. Certo dia um olha pro outro, conversam sobre o assunto e decidem se casar. Marcam a data e convidam os seus. Pronto. Contratam uma agência especializada e só precisam aparecer no altar. Prático como comprar comida congelada.

Aos que preferem formalizar um pedido, é impossível que não seja um momento único. Pode ser engraçado, romântico, patético, sei lá. Não é obrigatório pedir em casamento (muito menos se casar), mas quando se quer fazê-lo, convém caprichar. Não é necessário comprar uma jóia cara, programar um jantar requintado ou estar a brindar em Paris (se puder, ótimo, lógico). O que vale de fato é a intenção, é ser coerente. O fundamental é investir em um bocado de ousadia, fazer uma declaração de amor sincera. Despir-se (uau!). Um pouco de criatividade sempre cai bem, mas só um pouco. E é essencial estar convicto - ou convicta, se a mulher resolver arriscar. Ex-noivo (a) é o ó.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Detalhe

Foto: Marcos Finotti 

Minúscia. Algo em sua mínima parcela, exposta ao máximo. Um requinte. Um desastre. Só um detalhe. Uma coisinha que pode arruinar um grande feito ou valorizar uma obra singela. Poderoso mimo. Precioso. Tanto que exige parcimônia. Quem, por exemplo, fala todos os detalhes, fica prolixo. E aí o discurso vai pro lixo, junto com o relator.

Tudo parecia bem, mas faltava um detalhe. Sabe-se lá o que estava por vir. Você não me contou que era casado! Disse ela, decepcionada, ao o flagrar desprevenido de aliança no dedo. O que importava para ele é que estavam se divertindo juntos, mas ela queria uma relação exclusiva. Como cantaria Roberto: "detalhes tão pequenos de nós dois...".

O detalhe é o acabamento, é o que diferencia o bruto do polido, o que data os períodos da nossa história, distigue o pinico da panela. Pode ser essencial ou não ter importância. Depende de quem avalia e do contexto. Tem horas em que a gente simplesmente precisa se apegar a ele. Tá, e aí? Ele estava com outra no restaurante? O que eles estavam comendo? Quanto tempo ficaram lá? O cabelo dela era comprido? Não sei se é pra sofrer detalhadamente ou se é pra poupar o principal. 

Assim seguimos, compondo a vida em detalhes. Trançamos as alegrias, os prazeres e as gotículas de felicidade, entremeados com as pedras, as gafes e as dores. Uma aparada aqui e ali. Leva-se anos. A cada tanto, atamos um nó na corda, pra não desfiar tudo de repente. 

São esses detalhes que nos revelam. Entregam deslizes, paixões, mentiras, preferências, hábitos. Contam nossos segredos todos. Escancaram ao olhar atento. São pequenas bolas de cristal, mostram precisamente o passado e o presente. Com um pouco de treino e de habilidade, dá até pra arriscar um futuro.

E a gente se ilude, pensando que um detalhe é apenas detalhe.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Falta


Faltei. Eu estava indo bem. Tive um dia de atraso, nada que alguém tivesse notado. Na sequência, faltei. É difícil uma falta passar despercebida, mas a cobrança de falta é uma oportunidade. Era o que eu precisava. Uma chance. Não posso prometer não faltar mais. Posso enfrentar futuros imprevistos. Não vou me comprometer. Não por falta de vontade. Falta é possibilidade.

Faltam palavras, falta dinheiro, falta tranquilidade, falta tempo, falta de tudo. Palavrinha sem-vergonha. Pode faltar coisa boa, pode faltar coisa ruim. A falta é versátil, ao menos no português e no futebol.

Como o que falta faz falta! Até quando se está muito bem, falta assim uma emoção, um probleminha pra resolver. Quando está demais, falta selecionar melhor, reduzir. Sempre fica faltando algo. É por isso que eu digo: a falta é inimiga da perfeição.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Etiqueta


Em nome das boas maneiras, da moral e da ética, pessoas investem seu tempo para escrever desaforos em qualquer espaço virtual que encontram. Fiquei surpresa ao ler defesas agressivas em prol da etiqueta on-line pela suspensão do Caps Lock, tema da vez. No Blog da Redação de UOL há uma matéria sobre o assunto, seguida de umas 30 opiniões de leitores. Consta lá que o novo sistema operacional do Google para notebooks, o Chrome OS, teria abolido a dita tecla com a justificativa de melhorar a qualidade da comunicação na web. Diante da crítica do autor do texto, que questionou a explicação vaga da empresa, vários manifestos surgiram.

É muito interessante acompanhar o raciocínio alheio. Quanta volta! Bah. A palavra que me ocorre é "exagero". As pessoas parecem puxar um discurso pronto acerca da vida, desgastado de tanto que já foi requentado. Tentam desesperadamente enquadrar tudo ali. Só conseguem ver a sua verdade, a única verdadeira.

De um lado os que defendem o fim da gritaria na internet. Esses são os mais contraditórios. Não é preciso gritar para ser estúpido, desagradável, inconveniente. Sério... Não consigo acreditar que tem gente que se incomoda com tão pouco. Pelo palavreado que usam em seus argumentos, não soam educados. Não parecem embaixadores das boas relações pelas quais tanto clamam. Podem se comuniar até por desenhos, continuam ogros. Se ainda não existe sequer uma legislação consolidada para as questões virtuais, quem se acha no direito de julgar um novato que sem pretensão nenhuma usa o Caps Lock? Quanta bobagem.

De outro lado, os que se dizem "de esquerda" e nem sabem que essa divisão ficou lá no passado. Acreditam que estamos sendo dominados, que retirar uma tecla é um boicote à democracia, que cada um pode gritar quando quiser. E fazem previsões catastróficas. Viajam nas teorias da cosnspiração, fazem drama, pregam o terror. Vira comédia.

Ali no meio, entretanto, entram alguns que escapam dos extremos. Uns que aproveitam pra fazer uma piadinha pra quebrar o gelo, outros que tentam explicar os mecanismos de programação para ativar a tecla, demonstrando que a função não foi extinta, mas substituída por outra considerada mais útil para a navegação. Tem um ou dois muito preocupados, que não sabem como farão a árdua tarefa de digitar o cabeçalho dos trabalhos apertando o Shift. São a minoria.

Infelizmente, depois de ler tantos desses fóruns, observo que pessoas preocupadas em gerenciar somente as suas vidas, que conseguem manter o senso de humor na hora do caos e que usam os espaços coletivos para contribuir com informações relevantes são muitas vezes a minoria.

Opções de sistema de navegação não faltam no mercado. Cada um escolhe o que quer, o que sabe usar, o que pode pagar. O ponto não é o tema. Sempre rola um esqueleto parecido nas polêmicas, virtuais ou não. Quem dera fosse culpa do Caps Lock. Estaríamos prestes a revolucionar a comunicação humana.     

     


Pra quem quiser a matéria:

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Palhaço


Hoje é comemorado o dia do palhaço. Veja só. Engraçado. Penso no percurso dessa palavra - que  ultrapassou os limites do picadeiro para se transformar em adjetivo - e me pergunto: será então que a comemoração se estende a todo tipo de palhaço? Se a resposta for afirmativa, talvez devesse ser feriado. Quanta gente seria honrada com a data! Todo sujeito já foi palhaço.  Porém, parece-me que o de ofício está em extinção.

Foi-se o tempo de Carequinha, Arrelia e cia. No passado, ver o palhaço era um evento, um show. Um encanto/espanto aos olhos arregalados das crianças. No mínimo era curioso. Fora dos palcos, eram pessoas simples. De palhaços tinham somente o domínio da arte de fazer rir. Não eram sinônimos de idiotas. Não eram bobos. Não eram ridículos. Não eram astros de filme de terror. Alguns até ganharam fama em programas infantis, mas foram substituídos aos poucos por novos quadros. Perderam espaço. Morreram sem fazer fortuna, muitos no anonimato.

Podemos ainda encontrar pessoas vestidas de palhaço, salvo uma ou outra exceção, sem graça nenhuma, tentando chamar clientes na porta das lojas de rede, distribuindo pipoca. Com talento, alguns artistas persistem. Trabalham em circos, gravam dvds, animam festas. Recentemente descobri um muito bom. É argentino. Chama-se Piñon. Canta, diverte, envolve os pequenos e os grandes em um universo mágico. Trabalha para alegrar e atrair a família. Integra pais e filhos em brincadeiras pra lá de engraçadas. 

Palhaço deveria ser isso: aquele que irradia alegria. Talvez por terem sido tão maltratados, deixados de lado, passados pra trás, os palhaços ganharam esse ar pejorativo. É uma pena. Palhaçada não é mais uma brincadeira típica, é uma pilantragem. E nessa cena, o palhaço é o espectador. 

  



 

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

The Mirror



Não conheço uma pessoa igual a outra. Alguns até se parecem, mas fica nisso. Então, se somos diferentes, ou melhor, únicos, como podemos estabelecer julgamentos de valor sobre os outros? Em quais critérios pautamos nossas avaliações? 

Tenho a impressão de que ilusoriamente agrupamos os outros por características afins. Sim. Escolhemos um aspecto que pensamos saber sobre cada um e assim organizamos as pessoas em nosso universo cognitivo. Classificamos os grupos e os membros dentro dos seus grupos, a partir do protótipo.  Até aí tudo bem. Esse é um dos mecanismos que naturalmente usamos para conhecer o mundo.

O problema começa quando nos autorizamos a atribuir valor. O feio e o bonito. O chato e o legal. O certo e o errado. Nada demais, não é? Afinal, temos as nossas preferências. Só que preferir implica em preterir. E ser preterido não é lá muito agradável.

Não importa quantas pessoas nos amem. Ser rejeitado dói. Sei lá... A mim, dói. Posso não levar tanto em consideração, posso ignorar quem me deixa de lado. Posso suportar, não sem pesar. Receber o desprezo alheio nos expõe. Projeta os nossos pequenos defeitos em dimensões maiores, desproporcionais. Aos olhos dos outros, deixamos de ser QUEM somos para ser O QUE pensam que somos.

A primeira ideia que pode nos ocorrer é a de que não somos suficientemente bons. Todos temos as nossas inseguranças. Ficamos envergonhados, encolhidos. Sofremos. É duro não ser aceito. Tentamos entender por que diabos não gostam de nós, se não fizemos nada de mal. O que há? Refletimos.

Às vezes, acreditamos. Acabamos por nos convencer. Quanta tristeza. Quanta pobreza nos resumirmos a tão distorcido "pouco". Não dá pra ser assim. Mal paramos para observar que em determinados grupos não teria razão tentarmos nos incluir. Não precisamos ser unanimidade.

O fato é que também não gostamos de todo mundo. Nós nos reservamos esse direito. Não podemos nos obrigar a gostar, porém esse é um problema nosso. Não do outro. Somos ora espelhos, ora reflexos. Nós nos enxergamos no outro. Podemos atribuir a ele o que não queremos admitir em nós. Fica bem mais fácil, quando é o máximo que dá pra fazer.

 Lembre-se: tudo o que pensamos sobre os outros revela também algo sobre nós.

Deixo então um apelo: vamos primar pela delicadeza. Com todo o respeito.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Cala a boca!



Passei mais de uma semana sem dormir, sem comer direito, quase sem respirar. Sem pensar. Chorei. Chorei compulsivamente por muitos momentos. Sem comiseração de mim, por favor. Esse é o contexto. Não quero fazer drama. O fato é que depois de tanto, aliás, depois de anos dedicados a amar, educar, conviver e aprender com meus filhos, entro em uma merda duma sorveteria e escuto a única coisa desse mundo que não aceito: uma crítica cuel e injusta pelo meu papel de mãe. 

Meu filho, que aprontou todas hoje, derrubou o copo de bebida após várias advertências da mãe e do pai. Ele rapidamente pediu desculpas. Eu apenas disse: Tudo bem, filho, mas não adianta só pedir desculpas. Você precisa também mudar o seu comportamento. Não gritei, não ameacei. Não bati. Não fiz nada de errado. Sinceramente. Fui o que considero normal. Nem demais e nem de menos. 

Quando meu filho e o pai se levantaram para efetuar o pagamento, a "dona" da sorveteria veio até mim e me entregou um livro de autoajuda sobre como entender a linguagem dos filhos, onde dizia no verso algo sobre a importância de que eles se sentissem amados. Não só o sapo não desceu como por pouco o sorvete não voltou.

Contei até dez. Até cinquenta, pra falar a verdade. Foi o tempo que precisei para sair dali sem mandar que ela guardasse o livro num lugar especial. Cheguei em casa. Senti que não dava pra digerir aquilo. Ela tinha ido muito longe.

Pela primeira vez na vida, eu devolvi o sapo. Se isso tivesse acontecido em qualquer outra circunstância, teria sido apenas mais uma atitude inconveniente que eu deixaria passar. Eu teria relevado. Eu sou assim. Sou uma das pessoas mais abertas a críticas que conheço. Eu realmente aceito de coração aberto. Mas isso não era uma crítica, era uma ofensa.

Como uma pessoa que nunca me viu, que não sabe nada da minha vida, que não me conhece, não convive com a minha família, como pode se sentir no direito de me julgar dessa maneira? Arrogante, mal-educada, narcisista. Tem gente que se acha. A verdade é essa. Tem gente que se acha. Eu conheço um monte de gente que se acha melhor do que os outros como mãe. Tudo bem, cada um com seus problemas. A vida não é uma gincana, uma competição babaca. O que pensam a meu respeito não é da minha conta, mas o que falam pra mim é. E eu, no estado em que estou, não aceito mais.

Voltei lá. Disse quase tudo o que eu queria dizer. Com muito embaraço, porque não sou barraqueira, mas disse boa parte do que precisava dizer. A vontade era de berrar: cala a boca sua idiota. Não. A vontade era de enfiar a mão na orelha. Achei que não valia a cesta básica. Claro que, pelo perfil de pessoa que faz o que ela fez, manteve a pinta e bancou a desentendida. Insistiu em tentar se vender como mãe de um superdotado. Como pessoa culta que leu mais de 500 livros. Sério? Sabe quantos eu li pra chegar até aqui? Não era o caso. Eu estava lá como mãe. Como pessoa. Como cliente.

Não estou orgulhosa. Estou envergonhada de ter passado por essa situação. Eu não merecia. Eu não precisava. Não sou perfeita. Já perdi o controle por vezes, disse coisas num tom que não era pra dizer. Não posso ser julgada só pelas minhas minhas fraquezas. Se tenho uma certeza nessa vida é de que meus filhos sabem que são amados. Porque são. Porque vivemos nossos afetos, demostramos nossos sentimentos. Vivemos em harmonia, respeitamos os outros. Nós não fingimos que o mundo é um faz-de-conta. Nossos filhos sabem que amamos e que também podemos sentir raiva, medo, enfim, sabem que somos de verdade e que eles também são. 

E sabem, principalmente, que o fato de podermos sentir e pensar qualquer coisa não nos dá o direito de fazer ou dizer qualquer coisa. Isso se chama EDUCAÇÃO e não se aprende em livro. 

Falei.   








   

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Preocupação


Esta noite, depois de muito sofrimento, enfim descansei. Não, não, não. Não morri, não. Só relaxei. Dormi de verdade como deve ser uma boa noite de sono. Nada dessas frescuras de deitar cedo e blá, blá, blá. Estou me referindo a apagar com a consciência tranquila. Antes que pensem que fiz algo de errado, o que também não foi o caso, esclareço que andei preocupada. Essa nem deve ser a palavra mais apropriada, tamanho o estresse que foi. Nem sei se temos um vocábulo que possa preencher devidamente a frase. 

Nascemos para ser saudáveis. Sabemos funcionar nessas condições. Qualquer adversidade gera um estresse intenso. Quando desenvolvemos uma doença crônica, por pior que seja, acabamos convivendo tanto com ela que aprendemos a enfrentá-la com mais naturalidade. A doença aguda não. Ela chega de sola. Ela pode acabar com você em poucas horas. E que horas. Intermináveis horas.

O corpo fala. Fala sim. Só que em 550 idomas. Na hora da doença, parece que mistura todos. Às vezes o corpo é linguarudo, fala demais. Faz fofoca, inventa. Mentira tem perna curta. Ainda bem. Em geral é possível descobrir a falácia em umas 48 horas. Rá. Enquanto você espera, imagina quantas pessoas morrem no mundo nesse tempinho.

É. A espera não é agradável. Além de se submeter a vários exames desconfortáveis, tem que ter nervos de aço para suportar o medo. O seu e o dos outros, que querem ajudar mas estão mais apavorados do que você. Parece um pesadelo. Pensa: um pesadelo de dois dias. Se dormir sonhando todo esse tempo já não é bom, imagina...

Acabou. Toda história tem um fim. Essa teve um final feliz. Que alívio. Muitos fios de cabelo perdidos depois, a tensão passou. O ar voltou a encher os pulmões. Como é reconfortante respirar. Soltar os ombros. Ahhh. Sempre brinco que ao invés de tensionar os músculos das costas e do rosto eu deveria começar a tensionar os dos glúteos. Seria uma troca justa. Ao menos pra dar veracidade ao dito popular: "o que não me mata me fortalece".  

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Afronta



Costumo comprar a carne. Explico porque, em muitas famílias, a tarefa de escolher a carne é do homem. Aqui em casa não é assim. 

Como toda pessoa que gosta de comprar carne, tenho o "meu" açougueiro. Ele já sabe as minhas preferências. Assustou-se comigo no início, depois se resignou. Tem gosto pra tudo, deve pensar.

Em uma das primeiras vezes que me atendeu, escolhi a picanha, pedi pra limpar toda a gordura e moer. O homem olhou, olhou, olhou de novo. Pela expressão, não sabia se ele não tinha entendido ou se não estava acreditando. Repetiu: "a senhora quer que tire toda a gordura e depois é pra moer?". "Sim", respondi. Vi, no fundo dos olhos dele, que a pergunta machista era: "Mulher! Você tem certeza de que está me pedindo pra estragar essa picanha? O seu marido sabe disso?". Achando muito esquisito, lá foi ele. Entregou-me o pacote. Tchau.

Na vez seguinte, eu já era cliente, sentiu-se mais à vontade. Antes de entregar o pacote, insistiu: "moça, olha essa parte aqui da gordura. É boa, tem até um pouco de carne que não deu pra tirar. A senhora tem certeza de que não quer levar?". "Não, moço, obrigada. Não vou usar a gordura". "Mas moça, olha bem, dá pra aproveitar, a senhora vai pagar por isso mesmo sem levar", advertiu. "Eu sei, moço, mas não vou usar. É pra criança, não vou colocar a gordura". Até que, contrariado, se convenceu.

A defesa do moço não era em prol do dinheiro. Era pela gordura da picanha mesmo. Uma questão de princípio. Picanha e gordura, gordura e picanha. Para ele algo inseparável. Acredito que ele, como meu pai, deve adorar o tal granito. Aquele pedido era uma afronta. A peça de picanha é sagrada, eu acho.

Outro dia lá foi o maridão, devidamente instruído: "ó, escolhe a picanha, mais ou menos 1,5 kg, mais magrinha, vai ali no açougue e pede pra limpar toda a gordura e moer". Feito o procedimento, calhou de ser atendido por outro açougueiro. O rapaz olhou, incrédulo, e confirmou o pedido. Desta vez, a comunicação secreta era: "Homem! Você está bem? Não posso acreditar que está me pedindo pra estragar essa picanha!". Ele olhou para o outro açougueiro, que é o que me atende e que gerencia o setor e perguntou (segundo o relato): "E pode moer isso aqui?". O chefe respondeu: "Claro. Se o cliente pediu pra moer...". Acho que ele até já sabia que era pra mim. 

Deve pensar que eu não sei que poderia comprar patinho pra moer. O que ele ainda não sabe é que a picanha moída vira um hambúguer maravilhoso. Basta misturar 500g de carne com 1 pacote de creme/sopa de cebola em pó, moldar os hambúrgueres e assar. Eu coloco no forno.

Parafraseando a Fiat: "Está na hora de mudar seus conceitos!".

Fica a dica. 



  


SUCESSO II


Passada a revolta, após uma noite de (quase) sono, resolvi recuperar na memória o substrato do texto do sucesso. Não ficou igual. Segue.

Sucesso

Agora só falta você. Todas as suas amigas se deram bem nos negócios, casaram há um ou dois anos (vivem em plena lua-de-mel), viajaram recentemente ao exterior, têm ou planejam ter em breve filhos, andam na moda, frequentam festas animadíssimas, estão sempre com as unhas feitas, o corpo invejável, enfim, parecem ter tudo sob controle.
Sinceramente, não sei como alguém pode fracassar com tantas receitas práticas para se conquistar o sucesso. “Faça isso!”. “Invista naquilo, depende só de você!”. “O sonho está ao seu alcance. Aconteça!”. “Mexa-se”. Falta apenas terminarem com “seu bosta”, “seu preguiçoso” ou “seu vagabundo”. Tenho dúvidas se esses imperativos têm mesmo o objetivo de ajudar.
Claro que cada um é responsável pela própria vida, mas será que o problema pode ser resumido a isso? As pessoas tentam. Entretanto, é necessário reconhecer que não tem lugar VIP para todos. Não simultaneamente. Aí é que está. Eis que de repente a roda da vida gira.
O superempresário quebra, o casamento perfeito naufraga, os filhos crescem e decepcionam. E aquele seu colega quarentão, que não emplacava uma, agora com a barriguinha saliente e notáveis cabelos brancos, não é que o cara surpreendeu! Quem diria? Guardou um dinheirinho, investiu bem, o mercado foi favorável, rendeu. Viajou de férias, conheceu uma pessoa incrível num cruzeiro no ano passado, comprou um apartamentão, trocou de carro. Até filho teve. Está curtindo com a sabedoria dos que aprenderam a viver um dia por vez.
Pois é. Ninguém escapa. Em algum momento, entre os 20 e os 40 anos, a crise do sucesso bate. Afinal, o que você fez? Quanto ganhou? O que tem a oferecer? As medidas do sucesso são rígidas. Não aceitam qualquer bobagem. Tampouco querem saber de desculpas. Prepare-se.
Pelos cálculos, o pico da crise deve ocorrer por volta dos 30 anos. Compreensível. Nessa fase você já teve tempo de estudar, ter uma profissão, alguma experiência profissional, um ou outro relacionamento sério. Antigamente, poderíamos dizer que você tinha atingido a meia idade. Sim, os padrões de longevidade mudaram. Os de estilo de vida também.
Aos trinta, muitas das pessoas que conheço hoje ainda não atingiram a plenitude do universo socialmente chamado “adulto”. A grana é curta, as relações efêmeras, nada de estabilidade. A pressão é grande. A essa altura, os seus “véios” estão loucos pra se aposentar e se mudar pra praia. Estão só esperando você engrenar. Sobraram somente você e mais dois no time dos solteiros da peladinha de quinta-feira. Sem dinheiro, não dá nem pra pensar em constituir família, o que faz parecer que você não quer compromisso. Isso espanta pretendentes. Não é fácil.
Será que terei uma iluminação? Uma sacada? Se você chegou aos trinta sem ter sido contemplado com o sonho do macarrão (vide Kung Fu Panda), bem-vindo ao clube. É bem possível que você passe os próximos dez anos vivendo de expectativa. Vá lá. Pode invejar os outros. Eles também invejam algo em você. Não se pode ter tudo, dizia a vovó. Numa dessas rola uma inspiração. Ou uma imitação. Por que não? A onda é reciclar, reaproveitar, reutilizar.
Não dá pra tentar conquistar o mundo. Talvez aquele vizinho. Numa conversa de corredor, quem sabe não surge uma sociedade. Uma boa pequena ideia. Não vamos desanimar. E quando conseguir passar para o outro lado, cuidado. A pressão lá também é forte. Volta e meia alguém desiste e puxa a cordinha. Por isso é que a roda gira.    

domingo, 5 de dezembro de 2010

Consolo


Em consideração ao meu falecido texto do post anterior, lanço esse antigo lamento, escrito em circunstância similar.

Mensagens para a Terra do Nunca
Depois de dedicar um longo tempo a escrever um texto de e-mail para um novo amigo, quando pensei e por várias vezes me certifiquei de ter descrito uma completa síntese das principais atividades que desenvolvi nos últimos anos, das mudanças ocorridas na minha maneira de pensar, enfim, um apanhado das minhas características e de tudo aquilo que idealizo ou questiono na nossa sociedade, na minha vida e nas instituições, eis que o maior de todos os temores virtuais aconteceu: o e-mail expirou, devido a falhas na conexão local.
Tomada por imensa frustração, vasculhei a pasta dos enviados e dos rascunhos, sem sucesso. Pensei em recomeçar, mas concluí que a ideia era péssima. Primeiro porque eu não estava mais com a mesma disposição para me expor daquela forma (tem coisas que a gente só fala uma vez). Segundo porque não me lembrava mais nem da metade da organização do texto e não queria comparar mentalmente o que eu havia feito antes – e que havia me agradado bastante - com o que poderia produzir agora, visto que estou sem nenhuma paciência. Terceiro porque meu pensamento foi atraído por uma dúvida: para onde será que vão esses e-mails?
Nessa hora, fui surpreendida por uma resposta automática: de certo vão para a Terra do Nunca. Pode que estejam lá, cristalizados, num mundo inacessível, onde o tempo não passa. Deve haver um escaninho, um arquivo, um espaço para armazenar todos os escritos que não conseguem ser destinados e que não ficam guardados em nenhum esconderijo do nosso computador. Meu rico e-mailzinho possivelmente esteja ali, ao lado de todas aquelas teses, dissertações, planilhas, trabalhos, enfim, de todos os documentos do mundo que, sem mais nem menos, nos deixaram. E que, em geral, nos deixaram na mão, diga-se de passagem.
Essa sensação de impotência é terrível, mas preciso confessar que só há outra coisa que me incomoda mais: a lembrança insuportável da piadinha infame que termina como um sonoro “porque só Jesus salva”. Sinto-me mesmo como um diabo que digita rapidamente as memórias mais sagradas de uma existência. E o faz assim, impulsivamente.
Haveria um ser supremo, um editor, revisor ou algo dessa natureza que age obscuramente em nosso benefício? Aquele que tudo pode e tudo vê, que detecta uma comunicação potencialmente perigosa e trata de exterminá-la antes que as palavras se espalhem? Seria essa uma mensagem velada indicando que estamos nos excedendo, por mais contraditório que isso possa parecer quando faltam apenas dois dias para que você entregue um projeto que está praticamente concluído e, de repente, ele nem se despede e vai embora?
Ao reler o que acabo de escrever em busca de uma resposta, minhas divagações metafísicas foram violentamente atingidas por uma veia pragmática: não, as coisas são simplesmente como e porque são. Não existem essas explicações. Não fosse assim, essas bobagens que acabo de lançar teriam se autodestruído logo no primeiro parágrafo. Além do que não existiram também tantas outras bobagens, muitas até publicadas.
Por fim, volto ao que estava fazendo antes de me perder nessa história. Sem meu e-mail e, lamentavelmente ou não, sem ter mais nada a dizer.

SUCESSO



Hahahaha... Fracasso total. Perdi todo o texto depois de uma hora.

sábado, 4 de dezembro de 2010

CICLO


Quando tudo que estava ao alcance
Dos olhos cansados se mostrou destruído,
As pernas ainda bambas e sem rumo
Seguiram o seu destino.

O corpo lentamente se refez.
Os pés tocaram o chão.
O dia amanheceu debaixo de um temporal.
Um vento forte passou.

E quando não era mais possível acreditar na vida,
Foi assim que ela surgiu
Num pequeno e frágil broto
Que parecia acordar sem saber de nada do que aconteceu.

Alimentou-se da chuva e do que restou.
Cresceu. Semeou.
Não estava mais só.
Protegeu os seus.
Viveu.

Tornou-se tão grande.
Vislumbrou além.
Pensou ter vivido tudo.
Até que padeceu.

A espera foi longa.
Aos poucos perdeu suas folhas.
Seus galhos. Sua esperança.
Descobriu da vida um tanto mais.
Quando morreu.

Cicatrizada, tempos depois, a terra reergueu
Um novo broto
Que despertou sem o mundo conhecer.
Alimentou-se da chuva e dos restos.
Que o passado para ele guardou.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Medo


Medo é aquilo que você sente quando está diante de algo que pensa não ser capaz de suportar.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Google


Google. Eu o amo e o odeio. Amo mais do que odeio. Mas quando odeio. Não sei por que ele faz isso comigo. Ele não tem piedade. É isso. O Google é cruel. Sem-vergonha. Dissimulado. Falso. Mentiroso. Exagerado. O google não tem pena de ninguém.

Se você está desconfiada que tem uma doença, experimenta dar um google nela. Melhor. Dá um google imagem, aí sim. Se você não estava doente, vai ficar. Talvez não consiga aquela mesma enfermidade, mas outra você vai arranjar: você ficará insana. Acordará o seu médico às 3h da manhã, desesperada. Tendo (quase) uma parada cardíaca. Quase porque isso é o que você acha que está acontecendo. Não satisfeita, por via das dúvidas, já que o seu médico não lhe viu de verdade, aproveita e dá uma passadinha na emergência. Afinal você não vai conseguir dormir mais mesmo. Ao menos você conversa com alguém, faz uma hora até morrer. Se é pra ter um treco, melhor já estar no hospital. Você se sente segura, fica tudo mais rápido.

Uns dias mais tarde, você vê que, por sorte, muita sorte, não tinha sido contemplada com o raríssimo mal. Foi só um susto. Não teve toda a febre que o google falou, nem as manchas se alastraram por todo o seu corpo. Não precisou amputar nada. De fato, você não morreu. Ufa. Não foi dessa vez. E nem precisou de remédio. Também nem sei se você tomaria depois de dar um google na bula. Claro. O Google não é médico. Nem você.

Recuperada, sozinha, decide voltar à rotina. Dá um google no "ex" e... pô Google! Assim não! Tá lá a foto do cara com outra, linda (linda, veja, linda! Em close! De biquini. E linda)!. Ah, tenha dó.

Sobre você? Hahahahaha. Deixe-me ver, deixe-me ver... está um pouco lento... pronto! Suplente no concurso público de arvorezinha. Ah, Google, vai se catar.