sábado, 31 de dezembro de 2011

2011 O ano que quero esquecer


2011 foi O ano... entra para a história como o pior ano da minha vida. Se você não me conhece ou ao menos não o suficiente, não prossiga. As palavras que seguem expressam toda a minha rabugice e depressão, atributos que me pertencem mas que definitivamente não me resumem. Seria injusto que ficassem somente com esse extrato da minha personalidade.
Injustiça é, de fato, a palavra que marca o ano de 2011 para mim. Foi um ano difícil. Foi o ano em que tudo deu errado, em que todos os esforços não foram o bastante para reverter as tais voltas que o mundo dá. Passei por baixo.
Perdi muito do que era realmente importante, especialmente as minhas ilusões, os meus medos e os meus sonhos. Perdi a confiança que tinha em mim. Perdi o receio da crítica alheia. Perdi a vergonha de não ser aquilo que eu gostaria de ser. Passei vexame, humilhação pública, agressões diversas. Meus planos não saíram como era desejado. Não dei conta do recado e tive de aprender a suportar isso. Fiquei esgotada, estressada, em pane. Desisti de mim todos os dias. Infernizei as pessoas que me amam. Mudei de cidade, tive problemas de toda ordem. Perdi o meu pai.
Como diz às avessas o ditado e eu hoje bem sei, não há nada tão ruim que não possa piorar... mas não tenho mais medo de nada. Passei pelos mais dolorosos momentos. Vivi os meus piores pesadelos. Sobrou pouco de mim, ou do que eu era. Não vou me refazer, não. Não tenho o menor interesse nisso. De tudo, eu desejaria apenas driblar a morte, o que não é possível.  Ao lado da morte, sobre suas mãos duras e frias, entendi em um instante toda a história da minha vida. Compreendi o que é saudade, arrependimento, impotência.
2011 se foi e levou mais um pouco da minha infantilidade. Aprendi a perder e devo reconhecer que foi uma lição horrorosa. Aprendi na marra, porque não queria ficar em recuperação ou ter de repetir a série por ora. Começo 2012 sem expectativas, com uma certa leveza de espírito. Tornei-me imortal, indestrutível. Sinto-me forte e estranhamente segura. Que seja como for. Desejo um 2012 a todos.   

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Deus Salve a Bahia

Destino: Porto Seguro
Terra do descobrimento, de infinitas histórias, de índios, negros e brancos. Estive por alguns dias em Porto Seguro, minha primeira passagem pela Bahia. Terra de muitos contrastes. Segue uma lista de considerações sobre a viagem:
1. Porto Seguro é uma cidade naturalmente linda, mas a estrutura e os serviços parecem muito improvisados. A população é muito receptiva (e ávida pelo dinheiro que o turismo faz circular por lá).
2. Em Porto Seguro as pessoas trabalham até a exaustão, o que para mim derrubou o estereótipo do baiano que não trabalha. Criança, jovem, adulto, idoso - está todo mundo tentando sobreviver. Aliás, não sei quando é que os baianos dormem, porque já estavam trabalhando antes de eu acordar e continuavam a trabalhar depois de eu me recolher.
3. Os empreendimentos de maior porte pertencem a um pequeno grupo de pessoas, o regime de trabalho para os funcionários é árduo. Os funcionários às vezes dormem na rua...
4. A praia do espelho é espetacular. Os corais formam piscinas naturais de águas quentes, cheias de peixes. O acesso é difícil, mas compensa. Pouca gente, praia limpa, ótimo atendimento nos restaurantes locais.
5. Realmente, estava faltando um pouco de álcool na minha vida. Nada como umas cervejas geladas à beira da piscina, uma isca de peixe, um calorzinho...
6. Melhores passeios: praia do espelho, recife de fora, centro histórico de Porto Seguro, Trancoso.
7. Pior momento: banheiro da embarcação que leva até o recife de fora. Sem água, imaginem um único banheiro para atender a mais de cinquenta pessoas por 4 horas... Quer piorar? Imagine se você for surpreendido por um terrível mal estar intestinal. Pois é... Desci, vi o banheiro e pensei: não vai dar, vou esperar. Subi. Vinte minutos depois, com a embarcação ainda no mar, muita dor de barriga e longe de voltar para o hotel, pensei: esse banheiro está ótimo... Nada que algumas garrafas de água mineral não ajudem... hahahahaha
8. Não foi o acarajé. Outro mito derrubado: nem todo acarajé faz mal. No centro histórico, indico a tia Neusa. Bolinho feito na hora, uma delícia.
9. A cocada da Bahia é demais. E o feijão também!
10. Não fiquem nos hotéis do centro. Ficamos inicialmente no que é tido como o melhor deles, mas não indico. Sujinho, cheiro de mofo nos quartos, baratas, água fria, e outras tantas coisas desagradáveis. Pra piorar, mega constrangimento na hora de trocar de hotel..
11. Super achado: O Seu Bidé, taxista. Preço bom, pessoa ótima, conhece tudo na região. Recomendadíssimo! Tenho o telefone dele, pra quem se interessar.
12. Os baianos são lindos. Negão, não requebra desse jeito... pelo amor de Deus! (Abana!! Ops, quer dizer, abafa!!). Hehehehe!
13. Não vejo a hora de voltar pra Bahia. Queria era ter ficado por lá.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

A mulher do fantasma

Dona Maria era uma pessoa de bem. Acordava cedo, cuidava da casa, da família, mantinha tudo organizado, não incomodava os vizinhos, fazia tudo pelo melhor e nunca reclamava de nada. Era muito discreta. Poucos sabiam da sua vida. Na verdade, só uma pessoa sabia de fato o que acontecia na sua vida: a prima Carolina. Era essa prima emprestada, de parentesco muito distante, porém com quem Dona Maria mantinha laços afetivos muito estreitos, que transitava na ponte entre a rua e a casa daquela adorável senhora. É que o marido da Dona Maria não gostava de visitas, mas simpatizava muito com a tal Carolina. Duas vezes por mês, a prima viajava trezentos quilômetros para estar lá. Levava disfarçadamente umas sacolas de compras e pegava as contas a pagar no canto da cristaleira, sem que Dona Maria visse. Sentava-se na sala e as duas aproveitavam a tarde para tomar chá e conversar, já que o Sr. Wilson estava no trabalho e o Guto, filho da Dona Maria, estava na escola.

Todos os dias, desde que eles se casaram (e isso já tinha os seus vinte anos), Dona Maria acordava antes das seis horas, arrumava-se e preparava o café para o Sr. Wilson. Os dois sempre foram muito apaixonados e companheiros. Saíam juntos para o trabalho, ele a deixava no escritório e seguia para a sua oficina. Almoçavam juntos e voltavam juntos no fim do dia. Depois que o Guto nasceu, viviam os três pra lá e pra cá. Era Senhor Wilson quem levava e buscava o filho na escola.

Foi assim até o dia em que o marido e o filho morreram. Depois disso, Dona Maria preferiu sair do trabalho e ficar em casa para ter mais tempo para cuidar da família. Continuava a acordar antes das seis, arrumava-se, preparava o café. Despedia-se do marido, acompanhava-o até a porta. Organizava as coisas, preparava o almoço, acordava o filho e o ajeitava para a aula. Almoçavam juntos e ela os acompanhava até a porta. No final da tarde, esperava por eles arrumada - que a vovó lhe ensinara a esperar o marido sempre perfumada e bem vestida - e juntos aproveitavam o tempo antes de dormir. Dona Maria nunca se preocupou com o fato de eles terem morrido. Para ela, isso não era importante.

Havia oito anos que as janelas daquela casa não se abriam. Dona Maria era vista rapidamente poucas vezes ao dia: bem cedinho - quando estendia as roupas dela, do marido e do filho no varal e abria e fechava a porta; ao meio-dia - quando abria e fechava a porta (em dois momentos, com o intervalo de uma hora e meia entre eles); e no final da tarde - ao recolher as roupas e ao abrir e fechar a porta novamente. Parecia sempre muito tranquila. Era educada e, se acaso alguém a cumprimentasse, sempre tinha uma palavra doce e um sorriso no rosto. Apesar de ser receptiva, os contatos externos eram muito raros. Ninguém, exceto o marido, o filho e a prima Carolina, ultrapassava o limite do portão. Ninguém, pra ser sincera, nem notava que ali havia uma casa e uma mulher tão invisível quanto o marido e o filho.

A prima Carolina gostava mesmo de visitar a Dona Maria, não era um favor não. Eram amigas. Ela também não se importava com aquela história de morte. Claro que ela não via e não ouvia o Sr. Wilson, mas se ela, que era viva, também não era vista nem ouvida pelo próprio marido que era vivo, então parecia não fazer a menor diferença estar vivo ou morto. Carolina tinha um situação financeira favorável, por isso decidira ajudar a prima. Não que ela não preferisse que a Dona Maria saísse um pouco de casa, fizesse outras amizades, voltasse a trabalhar; inclusive insistia muito para isso. Tentou alguns tratamentos psiquiátricos, espirituais, enfim, tentou. Sem sucesso, passou a conviver com as manias da prima, como fazia com as manias de todas as outras pessoas que ela conhecia. Cada um com as suas maluquices, pensava.

Certa manhã, ao abrir a porta como de costume, um gato pulou pra dentro da casa - e sabe como são ágeis os gatos. Dona Maria assustou-se. Ficou com um pouco de medo do bicho, não estava muito acostumada a ter animais. Começou a pensar em um jeito para tirá-lo dali antes que o marido chegasse. Bom, não teria como sair com a casa fechada, foi a ideia mais óbvia e imediata que lhe ocorreu. Temerosa, abriu uma fresta na porta. Tentou tocar o bicho para a cozinha, mas não deu certo.Teve de abrir a porta um pouco mais e um pouco mais e um pouco mais. Escancarou a porta e nada do gato sair.

Dedicou algumas horas a observar o gato. Estava se agradando com aquela presença, mas lembrou-se de que o marido era alérgico a gatos. Decidiu que o melhor seria tirar logo o felino dali. Vendo o apreço do animal pelas cortinas, abriu repentinamente as janelas. As pessoas na rua pararam, surpresas. Começaram a se aglomerar na frente da casa, a espiar aquela mulher falando e gesticulando dentro de casa sozinha. Não viam o gato, mas ele estava mesmo lá. Confirmavam e cochichavam a teoria da loucura, justo no maior ato de sanidade da Dona Maria. 

Quando a Dona Maria viu o agito, discreta que era, fechou tudo bem rápido. Ficou com o gato. Lembrou-se de que o marido havia morrido e teve esperança de que talvez isso o tivesse curado da alergia. E não é que era? Dona Maria voltou à rotina, envergonhada porque todo mundo achou que ela fosse louca. Fechou a janela e até hoje nunca mais abriu. 

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Ainda ontem

"Mãe, diz que eu não tô!". Saudade da minha vida de filha...

Maldito galo

Três da manhã. Pedro virava-se de um lado para o outro, atravessado na cama. O corpo não se ajsutava ao colchão macio.

- Maldito galo! Repetia.

Embora possa parecer estranho o cantar de um galo na madrugada da cidade, Pedro já havia se acostumado com as excentricidades do vizinho bigodudo da casa amarela. O Sr. Rotterford era um homem forte, por volta dos cinquenta anos. Gostava de fingir que viva no campo. Morava sozinho, era viúvo e tinha uma única filha que nunca vinha visitá-lo. Ele sempre estava a esperar por ela, acordava e preparava o café para recebê-la. Fazia bolos, geléia de morango - a preferida dela - pães caseiros. Comia quase tudo sozinho, às vezes dava um pouco para um menino que vendia picolés na rua. Ocupava-se com os reparos da casa. Ele queria estar pronto para a hora em que ela chegasse.

Na verdade, o canto do galo nunca incomodara propriamente Pedro. Nunca até aquela noite.

- Maldito galo! Não me deixa dormir! Perturbou-me o sono! Desgraçado! Que morra o galo! E também o Sr. Rotterford. Por que diabos esse vizinho tem de ter um galo?

Era de fato uma madrugada difícil. Pedro precisava tomar uma decisão, não havia mais tempo. Se tudo não fosse resolvido ali e naquele instante, então nada mais faria sentido - nem o que havia passado, nem o que estaria por vir. Todo o desenrolar de uma vida parecia misteriosamente restrito a uma única decisão a ser tomada de rompante em uma noite mal-dormida. 

Em três dias, Pedro estaria casado com Letícia. E é preciso reconhecer que Letícia era uma mulher de muitas virtudes: zelosa, honesta, educada, fiel, obediente, casta e cozinheira de mão cheia. Aos olhos de Pedro - e aos olhos da cidade inteira - a noiva era uma mulher para casar.

- Maldito galo! Se pego, mato! Arranco-lhe todas as penas! Quebro-lhe o bico! Continuava ele a esbravejar enquanto socava o travesseiro e o apertava sobre a cabeça até não suportar a falta de ar.

Pedro fora apaixonado por Letícia desde a adolescência. Como era bela e encantadora aquela jovem! As famílias aprovavam o compromisso. Tanto que, logo após o noivado, Pedro passou a assumir os negócios do sogro. Além disso, sua mãe e sua sogra haviam dedicado as tardes do último ano para bordar e crochetar o enxoval junto com a noiva. Estava envolvido dos pés à cabeça e isso sempre lhe havia sido motivo de felicidade.

Foi assim, de repente, às véspera do grande dia, que Pedro viu-se dominado pela cólera. Não havia um motivo, o que tornava tudo ainda mais desesperador. Ele era um homem sério, trabalhador, não era dado a vícios ou a noitadas. Definitivamente, não era um cafajeste ordináro. Ela era adorável, amável, desejável. Não havia um problema, nem por lá e nem por cá. 

A questão é que ele não queria mais se casar - e esse também não era o problema, visto que estava resolvido. O que o perturbava era como dizer isso. Como arruinar a vida daquela tão venerável mulher? Como despachar todos os convidados? Como devolver todos os presentes e explicar para as tias já cheias de rolos na cabeça que não haveria casamento? Como dormir com esses pensamentos todos se aquele maldito galo não parava de cantar e essas situações todas precisavam ser decididas até o amanhecer?

Irritado, Pedro levantou-se. Andou de cueca pela sala, de um lado para o outro. Abriu uma garrafa de whisky, encheu o copo e virou num só gole. Repetiu a sequência algumas vezes. Depois, por sorte, o galo silenciou. Pedro deitou e dormiu tão profundamente que se levantou quando já passava das seis da tarde. Não havia como dizer mais nada. Não havia, portanto, mais problema algum. Bebeu de novo. Dormiu.

O telefone tocou uma centena de vezes, mas Pedro decidira abdicar das palavras. Não atendeu. Como morava sozinho, ficou à vontade. Por culpa do galo que o Sr Rotterford criava para ter ovos frescos no galinheiro e fazer delícias caseiras para a filha que nunca vinha, Pedro tornou-se um canalha. E uma vez convertido, não havia volta.

Na hora do casamento, o sino da igreja tocou. Pedro saiu arrumado, deu algumas voltas e sentou-se tranquilamente num boteco. Pediu uma dose e bebeu em paz. Passou um tempo entre mulheres e bares, depois foi para casa e dormiu. Acordou-se às três da manhã, de ressaca.

- Maldito galo! Repetia, a revirar-se pela cama.   

Identidade

Depois de quase trinta anos olhando para aquela mesma cara, cheguei bem perto - olho no olho, nariz com nariz - e disparei implacável na frente do espelho: 'afinal, quem é você?' Sem resposta, tornei-me um alvo fácil da ansiedade que consome os seres no silêncio. Reformulei a pergunta: 'se não sabe dizer quem é, então me diga ao menos, por favor, quem você pensa que é?'.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

(Des)aparecida

Ando meio sumida... e não adianta pressionar porque não tenho nada a dizer. Eu realmente não sei onde estou e desisti de tentar informações.

sábado, 16 de julho de 2011

O filho que ainda não tive

O filho que ainda não tive
Há tempos habita o meu universo.
Cresce em meus pensamentos
Ora por mim em preces de dor.

Ouço a sua voz fina e delicada
E vejo os seus receosos olhinhos
Toda vez que fecho os meus -
São os meus olhos de dentro
Que anunciam a sua presença.

O filho que ainda não tive
Que ainda não confortei e amei
É um filho da terra, um pequeno Deus
É uma doce e não pequena criança
Que já está entre os meus.

Categorias humanas pela expressão oral.

As pessoas se dividem em quatro grupos: os que gritam; os que falam; os que sussurram; e os que calam.

domingo, 10 de julho de 2011

Crianças e seus sentimentos

Acho engraçado como às vezes ligo o modo mãe automático e não observo com atenção o contexto das coisas. Claro que se não houvesse esse dispositivo eu não poderia fazer mais nada da vida, mas de vez em quando me surpreendo ao observar. Na última noite, madrugada, na verdade, meu filho pulava e corria e fazia muito barulho. No modo automático, chamei sua atenção umas quantas vezes porque já era muito tarde. Foi então que eu olhei para ele. Vi que ele estava radiante, eufórico, animado. Peguei-o no colo, olhei bem para aqueles olhinhos pulsantes e perguntei: você está feliz? Ele abriu um sorrisão e respondeu: sim! porque eu fui no aniversário! De fato, ele havia participado da festa de um coleguinha e havia se divertido muito. Aquela fora a primeira festa de aniversário de um amigo dele em que ele havia estado. Só etnão me dei conta do quanto aquilo tinha sido importante. O sentimento era tão intenso que ele não sabia o que fazer, estava explodindo de alegria. De todas as tarefas de educar que tenho como mãe, penso que a mais difícil é o educar para sentir. Nem sempre é fácil reconhecer o sentimento que mobiliza uma ação. Se é complicado pra gente perceber, imagina para a criança. Nomeado o sentimento avassalador que dominava aquele corpinho, somado a um abraço apertado e uma breve conversa sobre o quão legal havia sido a festa, acalmou-se e dormiu com aquele calorzinho no coração que só a felicidade deixa.    

Música para meus ouvidos!

Eu já vinha me sentindo leve e bem nas últimas semanas, mas, estranhamente, parecia faltar alguma coisa... Pensei: será que estou sentindo falta de estresse e de gente chata? Que nada! Ontem descobri. Estava com as crianças no escritório, o Felipe pulando e correndo, o João sentadinho no chão brincando em cima do edredom. Percebi que faltava uma música naquela cena. Foi só ligar o som, colocar um cd dos Beatles e, de repente, o João começou a dançar pela primeira vez! O Felipe parou, como se o mundo tivesse parado para esperar que a música entrasse por seus ouvidos e se espalhasse por cada célula. Os olhos brilharam, o corpo balançou, o sorriso abriu. E ficamos os três, fazendo o que estávamos fazendo antes, mas com uma dose adicional de emoção. Que poder de vibração tem a música! Lembrei-me de que um dos primeiros posts que publiquei neste blog tratava sobre esse assunto e tinha, inclusive, uma lista com a trilha sonora da minha vida. Incrível a sensação de voltar a funcionar no meu nível padrão. Dias coloridos, vontade de fazer as coisas, de estar perto das pessoas. Realmente, querida Fabi, a vida é feita de fases e tudo (os maus e os bons momentos) passa. Agora quero curtir. =]   

segunda-feira, 4 de julho de 2011

As forças que movem a humanidade

Publiquei uma frase no facebook e vi que rapidamente ela se espalhou pela rede. Disse eu:

Algumas pessoas são movidas pelo amor, outras pela revolta, e outras ainda - desconfio que em grande número - pela inércia.

Obviamente não tive a pretensão de tipificar os humanos e nem tampouco de criar uma nova teoria psicológica. Mas a ideia parece fazer algum sentido. A quantidade de gente que se manifestou em favor da inércia reforça parte da minha hipótese. =]

Pensei sobre as forças que movem as pessoas depois de assistir ao filme Invictus, que conta uma parte da história de Nelson Mandela. Fiquei admirada com aquele homem. Mais ainda, com o amor que o moveu. O amor por si, por sua nação, pelo próximo. Ao grupo de mandela pertencem outros poucos expoentes na humanidade. Consigo agora pensar em mais dois: Madre Tereza de Calcutá e Gandhi. Constatei que, em alguns momentos, também sou movida pelo amor.

Então, após enaltecer a grandeza e o poder dos seres iluminados que nos inspiram para a paz, pensei na minha revolta. Lembrei-me de pessoas expoentes movidas por essa força e aí a lista foi aumentando... muitos dos nossos célebres personagens históricos ganharam destaque, de Che Guevara a Hitler. Pensei nos riscos e nos resultados, na angústia e na dor que acompanham esse movimento. 

Por fim, pensei nos momentos em que fico inerte, em que sou empurrada, jogada pelas forças alheias. Suspeito que isso acontece a maior parte do tempo. Muitas vezes sinto como se estivesse sozinha em um barco à deriva, com os remos recolhidos, seguindo a maré e os ventos. Fico sem objetivo, sem planejamento, mas não parada. Não podemos parar.

Não tem a ver com bom e mau, nem com vida e morte ou melhor e pior, mas com circunstâncias. Parece-me, portanto, que temos não apenas uma força para a propulsão, mas três. E elas, por sua natureza, são dinâmicas e não estáticas. Oscilamos em diferentes níveis e entre os tipos de força, mas talvez tenhamos uma tendência a funcionar mais em um determinado intervalo da escala e em um determinado tipo: amor, revolta ou inércia. Será?    

terça-feira, 21 de junho de 2011

Pose

Eu queria ser uma dessas pessoas que mordem, cuja simples presença inspira autoridade. Eu queria sim. Queria não fraquejar, não tremer diante do medo. Queria impor a voz sem precisar dizer nada. Queria ter na testa o adesivo: "Cuidado! Cão bravo", mas com aquela cara de cachorro bozinho que causa alguma dúvida. E queria mesmo ser assim. Queria não me descabelar, não gritar nunca mais. Queria ser daqueles que matam no olhar, que causam pavor com o mínimo gesto. Queria ter a postura firme, o corpo forte. Não apenas. Queria tudo isso para surpreender. Para guardar um sorriso doce, palavras de gentileza e um abraço acolhedor. Preciso de um muro para agregar valor.    

quinta-feira, 2 de junho de 2011

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Elementais


Sobre gnomos e fadas.
Primeiro: odeio fadas;
Segundo: mastigo gnomos;
Terceiro: sou uma bruxa (verde, má, fedorenta e cheia de verrugas) e moro no pote de ouro do fim do arco-íris.

Tempo

Foto: Marrie Bot, 2004


Ouço pessoas que dizem: "no meu tempo...". Fico pensando: quando é que acaba o tempo da gente?

Criancices


Em alguns momentos do dia sou violentamente tentada por impulsos infantis, sabe, do tipo criancice. Emergem das entranhas umas mesquinharias, umas picuinhas, umas coisinhas assim-assim. Ainda bem que a gente pode controlar a boca fechada, ao menos às vezes.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Uia Maria


- Volta. Por favor, volta. Não era nada disso que eu queria dizer. Eu sempre faço tudo errado...
Maria repetia sozinha, pela quinta vez, encolhida na cadeira da cozinha. Era um mar de lágrimas. Culpada, torturava-se por ter comentado qualquer coisa tola... que gerou uma briga... que resultou no fim de um relacionamento.
Bem que aquele namoro já estava aos pedaços, até a Maria sabia disso. Mas agora, depois que ele partiu, tudo parecia ter sido sempre tão perfeito... ao menos até que ela dissesse aquela bobagem-catástrofe. Uia Maria!

Um dia desses


Um dia desses vou fugir de casa
Comer até explodir
Dizer um palavrão no trabalho
Pular até não aguentar

Vou gastar todo o meu dinheiro
Falar sem censura
Usar um cabelo moderno
Não vou me importar

Vou viajar para um lugar diferente
Curtir um momento sem culpa
Fazer uma maldade com gosto
Vou me encorajar

Um dia desses, mas um dia assim
Vou fazer uma loucura qualquer
Sem ter hora marcada
Não vou nem pensar

Vou encher os olhos
Deitar e rolar
Não vou seguir regras
Só e só continuar

Um dia, quem sabe
Um dia desses chegue
Pra que eu enfim possa
Parar de escrever
E de me atormentar.

(bloguecídio').

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Imperativo

Impressionante como os imperativos incomodam as pessoas, ainda que sejam só desabafos inofensivos e despretensiosos.

Tão ruim ser mal interpretada. Tão ruim ser criticada por escrever e discutir pequenos desejos, revoltas, dúvidas, fatos e modos de ser. Tão ruim passar a bola ao outro e levar um chute.

Escrever pode ser o próprio caminho trilhado para a felicidade. É uma forma de sentir, de vivenciar a realidade. É uma atividade íntima, particular, que não se destina a moldar o outro. E é exatamente por isso que não interfere na vida alheia e não impede ninguém de nada.

Adoro gente de opinião. Eu os respeito. Vá lá! Não me ofendo, eu me divirto com os rolos que arrumo. Na real, gosto é de toda a gente. Não sou pregadora. Aliás, tenho o telhado de vidro. Sejam todos muito bem-vindos. Às vezes posso soar pedante, arrogante, fútil, autoritária. Sou mesmo um pouco de tudo isso. Não me orgulho, mas admito. Pra quem não me conhece, pode parecer que sou só isso. Não se deixem intimidar por uma primeira má impressão. Sou legal, mas confesso que irrito. E quem não, afinal?

Estamos na paz. Uso meu blog para o (meu) bem. Não ganho dinheiro com ele, não quero ser famosa, não tenho e não invisto em muitos seguidores, não espero divulgação, não peço comentários. Escrevo para mim e para meus poucos amigos que visitam minha página, que conhecem as minhas histórias e sabem do que é e para quem é que estou falando. Só isso. Bem simples assim.

Não quero confusão. Se o que digo não lhe serve, espero que tampouco lhe incomode. São apenas pensamentos "em voz alta", não são conselhos. Não me levem tão a sério. Aqui tudo não passa de conversa fiada.  

Estranhamento




Odeio a palavra estranhamento. É o puro e simples sinal de que a pessoa não gostou e não foi capaz de assumir. Aí ela diz, como se isso amenizasse: 'causou-me um certo estranhamento', em geral torcendo o nariz ou fazendo qualquer tipo de careta. Por que é tão difícil dizer, educadamente, que não gostou? O gosto é tão particular que, sinceramente, toda coisa causará estranhamento. Não é errado ou ofensivo não gostar, mas é claro que o modo como se diz isso pode ser mais ou menos gentil. Já é o bastante que o sujeito não tenha gostado, não precisa dizer que além de ruim ficou estranho. 

Estava em aula, assistindo ao massacre de uma colega, quando um professor avaliador referiu-se ao trabalho dela com esse argumento nada científico, devidamente acompanhado de retorções faciais de toda ordem. Impressionante como a expressão do rosto diz tudo. Marca o conflito da cara de quem não gostou com a cara de quem quer disfarçar isso. Ficou ali se contorcendo para falar de um jeito muito arrastaaaaaado que o trabalho da guria tinha causado um estranhameeeeento. 

Fazemos muitos rodeios com a linguagem, deixamos a explicitude como se fosse vulgar, grosseira. Se somos diretos, acabamos mal-entendidos. Fim.

Resposta errada


- Filho: Mãe, por que o pai e a mãe do Juquinha bateram nele de cinta?
- Mãe: É filho... Sabe, algumas pessoas acham que esse é um método adequado para educar crianças, elas acreditam que bater de cinta ensina os filhos para que eles não façam mais coisas erradas. Antigamente muitos pais acreditavam nisso, mas hoje em dia já não é mais assim. Eu e o seu pai achamos muito errado machucar você, por isso nós nunca faremos isso. Bater de cinta dói muito, filho, não é certo...
- Ow mãe, tá, mas por que os pais do Juquinha bateram nele de cinta?
- Eu estava justamente explicando que... ai filho, não sei dizer. Acho que ele fez alguma coisa que eles não gostaram, mas não sei.
- Ahmmm... então vai ver que ele disse 'cala a boca', né mãe?
- É, filho, pode ser... 

Criança Macho


Fui uma dessas crianças destemidas, curiosas e prontas para a ação. Lá do meu jeito, era capaz de resolver qualquer problema. Tirava bicho-de-pé dos cachorros, tratava feridas, ficava no escuro, matava baratas, corria perigos, quase nada me causava nojo, medo ou horror. Saía no braço, não importava o tamanho ou o que fosse. Tinha sempre uma resposta e não receava em dizer. À noite, deitava e dormia o bom e tranquilo sono dos justos. Eu era mesmo uma criança 'macho', com todas as qualificações que essa palavra desperta no nosso senso social estereotipado.

Não sei o que aconteceu. Todas essas práticas agora me exigem um desgaste enorme. Não me parecem mais tão naturais. Tenho tantos medos, preocupações, dúvidas, nojos, horrores. Acho que levei muito a sério o que os adultos me diziam, tanto que me tornei um deles. Que pena.

domingo, 29 de maio de 2011

Cara de um...



Você era apenas um pequeno filhote. Abandonado com poucas semanas de vida, nem bem os olhos ainda abria. Tinha as patas rosadas, fofinhas. Os pelos eram curtos e macios, branquinhos com machas pretas. Era sim um vira-lata sem raça definida, um 'guaipeca', o filho de uma tal de Chiquinha e de um pai desconhecido. Dei-lhe o nome de Chico. É, amigo, isso foi há oito anos.

Tantas coisas aconteceram nesse tempo. Eu, se me visse de longe, nem me reconheceria. Mas você, ah... você nunca me esquece. Você me encontra, não importa em quem ou em quê eu me torne. Você pinça o melhor de mim. Fiel, sempre me recebe com a mesma alegria, posso ter saído há cinco minutos ou há três meses. E, estranho, não tenho sido uma boa dona. Não tenho retribuído o seu carinho, a sua devoção. Digo, num tom ríspido: sai, Chico! Não pula! Vai sujar a minha roupa! Vai me arranhar! Acho que você não entende o significado dessas palavras, porque não importa o que eu diga ou faça, você está lá. Tenho agora, portanto, a certeza de que quem perde sou eu.

De repente, notei que você ficou velhinho. Anda cansado, não tem mais tanta disposição. Esses dias alguém falou: 'nossa, pra tirar o Chico da cama agora é um trabalho, ele fica com muita preguiça de levantar'. Foi por isso, querido, que hoje eu não tentei espantar você. Quando saí e vi você levantar para me receber, pensei no esforço que você fez para deixar a sua cama quentinha e correr até mim. Pensei, aliás, em todo o esforço que você fez nesses últimos anos e no quanto fui dura com você. Notei que você não pula mais.

Afaguei a sua cabeça, afofei as suas orelhas e você se inclinou como se não quisesse perder nem um mínimo pedaço da minha mão. Abanou com a cauda, olhou-me com doçura. Você, ao contrário de mim, não mudou. Sabe, recentemente, passei para o seu lado. Tornei-me, assim, um ser mais sensível e um tantinho melhor. Foi também por isso que, dessa vez, como nos velhos tempos, eu olhei para você com doçura. Tem certas coisas que acontencem na nossa vida que só passam a fazer sentido quando, em uma cena cotidiana qualquer, exercem um efeito transformador.    

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Pro dia nascer feliz

Hoje acordei cedo, ao som de gargalhadas de bebê. Dia lindo lá fora, filho cantando um reggae aqui dentro, astral lá em cima. Amo muito tudo isso. Bora pra vida.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Bruxarias



Receita infalível para neutralizar inimigos.

Ingredientes da poção:
Asa de morcego, pata de formiga, língua de sapo, unha de gato, rabo de rato, coco de passarinho, antena de barata, teia de aranha, olho de carneiro, boldo, pé de meia suja, quatro gotas de sangue de galinha, lagartixa seca.

Preparo:
Coloque todos os ingredientes no caldeirão e adicione dois litros de água. Deixe ferver, mexendo sempre. Depois é só fazer o sujeito beber. Basta um golinho. Obs: em caso de eliminação em massa, pode ser diluída nos pratos do buffet. A-ha-ha-ha-ha!

Gente que faz



Algumas pessoas são agraciadas com o poderoso dom da ação. Eu as invejo. Vejo gente que parte do zero e, de repente, com trabalho, carisma, perspicácia, boas relações e um tantinho de sorte, constrói um império. Eu ainda não sou assim. Em uma rápida análise, parece que me faltam alguns desses atributos. O resultado é que morro no tédio, na angustiante frustração diante do tempo que passa.  Julgo que eu deveria parar de pensar e começar a fazer algo, mas o quê? Como resolver os vários problemas que me circundam? Fico no aguardo de uma iluminação, que não chega. Esse é o erro inicial, esperar a oportunidade. Pessoas que fazem criam oportundades, ao contrário de mim. O segundo erro é o medo de dar errado. Noto que a persistência é essencial, porque em geral as pessoas passam por muitos investimentos errados até conseguirem o sucesso. O terceiro entrave é a total falta de ideia. Não consigo ter uma grande sacada. E, finalmente, não sou boa de vendas. Conheço amigos que são capazes de vender até um celular quebrado em apenas dois telefonemas. Agora eu posso ter o melhor produto nas mãos que morrerei abraçada com ele. Não tenho o tal tino pro negócio. Sempre admirei aquela gente determinada, que desde pequena sabia o que faria da vida. Alguns nasceram com um talento bem definido, pronto para ser explorado. Outros despertaram cedo para alguma atividade, cresceram em busca de um sonho. E eu? Bem, eu faço um pouco de tudo, porém não tenho assim uma vocação nata. Fico aqui me superespecializando em teorias, mas na prática não tenho essa paixão que move um ser humano em razão da sua profissão. Gosto do meu trabalho, entretanto seria igualmente feliz em um montão de outras funções. No fundo acabo vivendo pra tentar ganhar algum dinheiro e sobreviver, o que limita muito as opções e faz de mim alguém absolutamente medíocre.  

Relações Difíceis



Poucas tarefas são tão complicadas como a de manter relações interpessoais saudáveis em circunstâncias profissionais ou que não inspiram intimidade. Se no âmbito pessoal, que, em tese, temos mais abertura para expressar nossos sentimentos e pensamentos - principalmente porque temos mais liberdade para escolher as pessoas com quem convivemos - o esforço já é enorme, o que dizer dos relacionamentos que nos são impostos em ambientes formais.
Se conhecemos socialmente uma pessoa cuja companhia não nos agrada, simplesmente podemos evitá-la. Entretanto, o problema toma outra dimensão quando essa pessoa é alguém com quem você divide a sala de trabalho ou, pior, o seu chefe. Existem seres humanos intragáveis, instáveis, grosseiros, cruéis, confusos e não confiáveis. Somadas essas características, temos uma pessoa âncora, daquelas que não nos permitem evoluir, seguir em frente. Ao contrário, são uma trava, tornam tudo mais difícil, penoso, sem perspectiva. 
E não há escape. Não adianta trocar de trabalho, de cidade, de casa, de escola. Sempre haverá um vizinho insuportável, um colega com postura eticamente reprovável, um professor vaidoso, um chefe que não sabe o que quer. Tem horas em que a única pergunta que nos passa pela cabeça é: 'por que diabos estou aqui?'.

Infelizmente, contrariando os preceitos psicanalíticos das relações que escolhemos manter, dentro da nossa realidade política, social e econômica, as respostas costumam ser bem mais objetivas - porém não menos dolorosas. O fato é que às vezes não precisamos passar por certas relações desastrosas por nossas necessidades subjetivas, mas por dinheiro e falta de oportunidade mesmo, o que sinceramente parece ser muito pior.       

Provas da verdade



Infelizmente não posso me gabar de nunca contar mentira, se é que alguém o pode. Confesso que lá de vez em quando, muito eventualmente, dou uma amenizada na história. O fato é que pago a maior parte do meu tempo o caríssimo custo de ser uma mulher honesta. Chego a ser dura, cortante, maldosa, tamanho o meu apreço pela sinceridade. Fomento mágoas, inimizades, problemas de toda sorte, para mim e para os outros. Sou à moda antiga, dou valor à palavra. É exatamente por essas razões, declaradas abertamente, que afirmo não poder ser proferida contra mim pior ofensa do que a insinuação de que não estou cumprindo com a verdade. Isso me irrita profundamente. Quem me conhece sabe que prefiro uma 'omissão' a uma 'nova versão'. Se fosse pra mentir, em dadas circunstâncias, sério, eu nem me manifestaria. Eu tenho vergonha na cara. Se digo que não posso, é porque não posso. Não tenho receio de dizer que não quero, se é o caso. Ou simplesmente não digo nada. Detesto explicação, é algo que em geral nos inspira a mentir, porque nem sempre queremos nos expor. Não peço, não gosto de prestar, não me vale ouvir. Não interessa o por quê. Tudo tem a sua razão, umas mais nobres, outras nem tanto. São os resultados das escolhas que as pessoas fazem ou, talvez, das circuntâncias da própria vida. Não importa. Enfim, irritada, ofendida, de má vontade, encaminhei um documento oficial para provar o que eu havia dito em minhas desculpas esfarrapadas. Que triste isso.  

sábado, 14 de maio de 2011

A lógica das coisas

Não há nada como resolver um grande problema. Lembro-me de quando bati o carro pela primeira vez, na garagem. Eu estava sozinha e não sabia estacionar direito, o resultado foi que enrosquei a porta lateral na coluna do prédio. Fiquei nervosa, apavorada. O carro não ia nem pra frente nem pra trás. Não havia a quem recorrer, eu teria de dar um jeito por mim. Após alguns minutos de desespero, comecei a me acalmar. Desci, olhei o ângulo da batida, pensei em estratégias para mover o veículo. Voltei ao volante, respirei fundo e encarei. Pensei: 'batido, por batido, preciso é tirar o carro daqui'. Com um pouco de esforço, consegui. Fiquei muito orgulhosa. Por incrível que pareça, fiquei realmente feliz. Importei-me mais com o fato de ter resolvido do que de ter estragado antes. Ao mudar a perspectiva, muda-se tudo. Salve a lógica da razão.

Hoje estou me sentindo assim. Não, não bati o carro, ainda bem, mas resolvi outro baita problema.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

De tão pequena


Desapareci sob a pata de uma formiga, que por azar carregava oito vezes o próprio peso.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O lugar do outro



Era tarde da noite quando abriram a última garrafa de champanha. Estavam todos muito alegres. Carlos Eduardo, sua noiva Lili, seu pai orgulhoso, alguns de seus amigos e até a sua sogra. Fartos de um jantar festivo, brindavam o novo emprego do rapaz, que, radiante e um tanto embriagado, fazia discursos e promessas. Fim da comemoração, Carlos tomou um longo banho para curar os efeitos do álcool, tomou um café bem forte e passou algumas horas ainda acordado, pensando no primeiro dia de trabalho como diretor executivo de uma importante empresa multinacional. Estava, de fato, feliz e entusiasmado com a promissora carreira que o aguardava.

O sol ainda não tinha raiado, mas Carlos já estava a postos. Nem sentia o cansaço da noite mal-dormida, tamanha a ansiedade. Queria tomar posse do seu lugar. Tinha planos, estratégias empresariais, não via a hora de começar. Saiu cedo de casa, foi o primeiro a chegar no escritório. Entrou na agora sua sala, sentou-se na imponente cadeira, reclinou-se, sentiu-se o dono do mundo. Fechado ali, no silêncio, pôs-se a observar o entorno, projetando as mudanças necessárias para a adequação do espaço, avaliando os móveis e pensando na nova decoração. Percebeu então as primeiras marcas de alguém que havia habitado aquele local.

Havia pregos na parede, um lascadinho imperceptível no canto esquerdo da mesa, um copo descartável amassado na lata de lixo. Sentiu um leve desconforto. Sabia que o antigo ocupante do cargo era um homem de negócios respeitável, sério e honesto,  mas que estava há muito tempo na empresa e fora demitido porque, após a reestruturação, os acionistas desejavam uma renovação no setor. Balançou a cabeça, como se tentasse afastar qualquer pensamento. 'Vamos ver, vamos ver', dizia para si em voz alta. Movimentou-se pela ampla sala, abrindo e fechando portas e gavetas.

Estava envolvido com alguns balancetes quando acabou por abrir uma última gaveta, no fundo de um armário. Encontrou um porta-retrato, emoldurando uma foto do Sr. Luis Antônio Borba e família. Era um homem por volta dos cinquenta anos, ao lado de uma bela esposa e de três adolescentes, dois rapazes e uma mocinha. Os olhos de Carlos Eduardo cruzaram com os do Sr. Borba, que parecia fitá-lo. Carlos Eduardo imaginou ele próprio naquela foto, com sua Lili e seus futuros filhos, alguns anos mais tarde. Sentiu um profundo mal-estar. Pôs-se a pensar no que teria sido da vida daquele homem, nas pilhas de contas atrasadas a pagar, na demissão da empregada que os ajudara a criar os filhos e que estava há mais de dez anos com a família. Imaginou os dois filhos mais novos mudando de escola e o mais velho preocupado por ter de trancar a faculdade. Pensou na Sr.ª Borba, aflita.

Por um instante, lamentou estar ali. O prazer lhe escapou. Sentiu um nó na garganta, desanimou. Guardou a foto no armário, não teve coragem de se desfazer daquele objeto. Pensou no Sr. Borba tomando o último gole de água naquela sala, amassando e jogando fora o copo na lixeira. Imaginou-o retirando os quadros e os pertences pessoais, encaixotando tudo e saindo pelo corredor, de cabeça baixa, despedindo-se da equipe.
'Bom dia, Dr. Carlos!', disse a secretaria que acabara de chegar, num tom de absoluta neutralidade, demonstrando profissionalismo. 'Seja bem-vindo!', continuou. 'Estou à sua disposição', encerrou, saindo e fechando a porta. Carlos estava perdido. Não tinha mais certeza sobre o que estava a fazer naquele local. Sentiu-se estranho, voltou a sentar na cadeira imponente e seguiu com a leitura dos balancetes. Parou. Fez um telefonema: 'Dona Janete, por favor, peça ao pessoal da manutenção para pintar a sala com urgência. Obrigado'.   

Dicas de beleza



Cá entre nós, esse papo de que a beleza vem de dentro não é a pura verdade. Não estou falando dos outros atributos belos que um ser humano pode e deve desenvolver, estou me referindo objetivamente à aparência. A mulher moderna dorme mal, come qualquer coisa rápida na rua, fica estressada, só bebe refrigerante zero, enfim, contraria todas as regras da beleza, mas quer estar bonita. Sendo assim, a beleza vem de fora. E de fora mesmo, porque, na minha opinião, muitos dos produtos importados ainda estão mais avançados do que os nossos, o que é uma pena.  
Nos últimos anos tenho descoberto algumas maravilhas que contribuem para a manutenção da imagem de um modo geral. Como a mulherada sempre pergunta, vou dividir as pérolas que têm salvado, literalmente, a minha pele. Segue a lista dos testados e aprovados.

Rosto
- A linha de cremes 'Dr. Perricone' é imbatível. Plástica imediata. Dá firmeza e ilumina instantaneamente a pele, sem deixar oleosa.
- Adoro a limpeza de pele da Anna Pegova. Maravilhosa, a pele do rosto fica uma seda, sem marcas, sem cravos e quase sem dor. Os cremes são muito bons também.
- Em casa, mais econômico, dá pra fazer uma esfoliação com mel de boa qualidade, açúcar e umas gotinhas de limão. Basta aplicar no rosto em movimentos suaves, deixar agir por uns vinte minutos e lavar bem. Pele nova!
- Filtro solar: hidrafil gel (vende em farmácia). Sem perfume, hipoalergênico, rápida absorção, não oleoso e deixa a pele com aspecto 'mate'.

Cabelos
- A linha de shampoo e condicionador John Frieda. Uso há anos e não há custo benefício melhor no mercado. Ainda é um pouco caro, mas vale cada centavo. O cabelo fica macio, brilhante e soltinho.
- SH-RD Protein Cream. Ótimo para proteger os cabelos. Restaura, amacia e é incrível para pentear sem danificar os fios. Faz milagre mesmo se você não usar condicionador.

Corpo
Não tenho o hábito de usar hidratantes todos os dias, mas quando a pele está ressecada uso o Iso-Urea creme da La Roche-Posay. É hipoalergênico, sem perfume, não oleoso, seca rápido e recupera a pele instantaneamente.
Amo o óleo corporal de amêndoas da L´Occitane, que deve ser usado no banho. Não é pegajoso e, principalmente, não gruda no piso do banheiro. Deixa a pele muito macia.
Os sabonetes da L´Occitane e da Natura são ótimos, adoro banho perfumado. 

Mãos e Unhas
Imbatível o cold cream da Àvene para hidratar as mãos. Para as unhas, esmaltes da Revlon. Uso o 161 e todas as mulheres me perguntam qual é a cor. Seca ultra-rápido. Aplico extra-brilho.

Perfume
É uma escolha absolutamente particular, mas adoro o Angel de Thierry Mugler. Os do Jean-Paul também estão entre os meus preferidos.

Maquiagem
No dia a dia uso somente corretivo da Lancôme (excelente), rímel preto que não borre e, eventualmente, blush rosadinho. Odeio batom, uso no máximo um brilho.   

Por fim, o principal entre nós brasileiros: o sorriso!

Nunca me esqueço de uma pessoa que eu detesto e que me detesta mais ainda. Ele me disse, cheio de rancor: "para você os caminhos se abrem, porque você fala sorrindo". 

É verdade.   

Inveja boa



Passava das três da tarde de uma fria tarde de maio. A cadeira dura fazia com que o dia parecesse mais longo do que o natural. Havia uma centena de pessoas naquela sala, mas eu estava sozinha. Foi quando, furtivamente, invadi uma vida alheia. A moça da frente, ao celular, dizia: "Oi, Maria! Nós vamos sair de Porto Alegre às cinco, pode abrir a casa para arejar, arruma as camas, prepara a lareira e deixa a janta pronta. Umas sete estaremos aí em Gramado...". 

Comecei a imaginar o caminho entre Porto Alegre e Gramado, a estrada sinuosa da serra, com suas inúmeras árvores, o sol se pondo e a temperatura caindo. Veio uma pequena chuva, que trouxe o cheiro do mato molhado e deu um certo brilho ao asfalto. Tocava Chico Buarque no carro e os pés estavam começando a congelar. Quase não era possível mexer os dedos. Dava pra ver lá de longe a fumaça das chaminés nas casinhas pelos campos. Não via a hora de chegar, depois de um exaustivo dia de treinamento. Ahhhh. De vez em quando me espreguiçava. Segui cantarolando em dueto com o Chico até a garagem. Adoro esse cantinho. É uma casa de pedra, antiga, pequena, construída no meio do terreno, cercada pelo jardim. Tem um muro baixo na frente, escondido entre as lavandas. Atrás há um bosque e um gazebo branco, onde gosto de passar as tardes de sol. Abri rápido a porta, porque as chaves ficam especialmente frias nesses dias. Maria tinha saído há pouco. A sala estava quentinha e senti o cheiro amadeirado vindo da lareira. Era noite e a iluminação estava amarelada pela chama. Cheguei bem perto do fogo, para esquentar as mãos. Fiquei ali por alguns minutos, a admirar aquela dança alaranjada e a ouvir os estalinhos da madeira. Uma cigarra cantava no bosque. Acendi as luzes e dei uma olhada em tudo. A mesa estava posta com a minha louça preferida, havia um arranjo de azaléias frescas trazidas do jardim e a sopa estava servida em uma sopeira de porcelada herdada da minha bisavó. É uma preciosidade familiar. Hummm. Sopa de capeletti. Que maravilha! Estava tão quente e eu com tanta fome que cheguei a queimar a língua, apressada. Maria fez um pão caseiro, acabara de sair do forno. Depois do jantar, fui para o banho. Liguei a ducha e esperei um pouco até o banheiro se encher de vapor. Adoro aquele sabonete de leite. Fiquei uns bons mitunos sob a força da água morna, relaxando a cabeça e as costas. Revigorada, enrolei-me correndo na toalha, naquele gelo que dá ao sair do banho. Coloquei o pijama de flanela, escovei os dentes e pulei para baixo das cobertas. Que delícia de cama, aconchegante, estilo provençal, tem a peseira alta, fiquei apaixonada desde a primeira vez em que a vi. Estava mesmo com saudades daquele lugar. Sentei perto da cabeceira, recostada em uma pilha de travesseiros fofos. Deslizava as pernas pelo lençol, pra esquentar. A cama estava perfumada, os lençóis brancos de puro algodão egípcio, com toque acetinado, exibiam um delicado bordado inglês. Fiquei ali encolhida, agarrada ao edredom macio e volumoso. Nossa. Tinha passado a semana toda sonhando com aquele momento. Maria deixou um chá preparado na mesinha. Tenho dúvidas se essa mulher não é um anjo. Servi meu chazinho de cidreira, feito com erva recém-colhida do quintal. A xícara era aquela de porcelana fina portuguesa, comprada anos atrás em um antiquário em Buenos Aires. Tem um motivo floral estampado, com a borda dourada. Entre um gole de chá e outro, folheava um livro de contos. Foi quando, de repente...

'Pedimos a todos que retornem aos seus lugares para que possamos reiniciar as atividades'. Ahn? Ah, tá. A aula. Acho que a moça do celular foi embora. Aiiii, que inveja boa. Inveja pode fazer bem. Deixou para mim um calorzinho no peito e para ela, a invejada, não exerceu nenhum efeito. Não desejei o seu mal, não desejei o que era dela. Eu só queria ter também e do meu jeito. Não fico com raiva de quem me inveja. Espero que as pessoas sejam igualmente solidárias comigo.             

terça-feira, 3 de maio de 2011

Todas as brasileiras são piranhas?


"A maioria das mulheres brasileiras são piranhas e marias-chuteira", disse a célebre e respeitável Sr.ª Adriana Aranguiz, chilena, modelo 'de sucesso', casada com o 'astro' do futebol Valdivia. Bem, se essa senhora mora no Brasil, imagino que ela tenha se referido ao círculo de mulheres com as quais ela convive, porque eu, minha irmã, minha mãe, minha vó, minha sogra e minhas amigas não somos galinhas e muito menos vivemos às custas de jogador de futebol.

Piranha, pra usar a expressão refinada da moça, tem em qualquer lugar, não é exclusividade brasileira. Sinceramente, não estou aqui pra emitir julgamentos, cada uma sabe o que quer da vida. O fato é que ela se referiu à maioria e isso, de certa forma, nos incluiu a todas. Sinto informar, Srª Aranguiz, mas a maioria das mulheres brasileiras é chefe de família. Nossas guerreiras sustentam seus lares com o próprio trabalho (amplie seus horizontes com um jornal). São mulheres que enfretam as dificuldades cotidianas da nossa dura realidade nacional, que não se curvam diante dos desafios da vida, que fazem acontecer e, melhor, não perdem a alegria e a esperança.

Desculpa dizer isso dessa forma, mas, francamente, a maioria das brasileiras, incluindo a mim, nem sabe quem é o seu marido. Só o que resta é desejar uma boa e breve viagem de retorno ao seu país, onde pelo que li você é muito bem vista.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Blogs das amigas



Adoro ler os blogs das amigas. Respiro um frescor, recupero uma parte de mim que é pura leveza, desprendimento, juventude e liberdade. Volto no tempo. Sinto como se nada tivesse mudado, como se tudo tivesse voltado a ser como era há dez anos. 

Tenho andado com uma nuvem carregada sobre a cabeça. Ui, credo. Estou quase um fantasma velho e cansado a arrastar suas pesadas correntes pela casa vazia à noite, sem a capacidade de assustar ninguém. Não posso me render. O fato é que temos certas fases difíceis na vida e o escape mais acessível é a fantasia. Por outro lado, se esse é um recurso para alívio imediato, traz também seus efeitos negativos, como toda poção mágica. Ocorre que a fantasia é tão poderosa e pode ser tão fantástica - por isso mesmo tão distante das possibilidades reais - que um abismo se abre e a gente cai no buraco.

Saber que o mundo é um lugar incrível e pensar que não posso desfrutar de muitas de suas ofertas, especialmente as que mais me interessam, é absolutamente desconfortante. Sou daquelas pessoas com espírito livre. Preciso de espaço. Preciso navegar. Quando estou presa, por qualquer razão, meus pulmões não inflam. Manter âncoras é sacrificante demais. Gosto de renovação. Troco os móveis de lugar, mudo de casa, de trabalho, de ambientes sociais. 

Nessa fase da vida, estou presa ao universo acadêmico. Não tenho a disposição que gostaria, nem pra seguir e nem pra interromper o curso. Já pelo final, não posso desistir. Tenho filhos pequenos, que dependem inteiramente de mim e de meu marido. É um imenso e gratificante prazer estar com eles, mas preciso admitir que exige a renúncia de ser, ainda que temporariamente, a prioridade da minha própria vida. Afastada do trabalho formal, fico isolada em minhas pesquisas. Quase não vejo amigos, não saio para festas, não faço mais faxina com som alto, cantando, dançando e tomando cerveja sozinha.

Vivo viajando. Não sei onde estão meus pertences, não posso carregar tudo pra todo lugar. Sinto como se eu estivesse 'rolando', meio jogada. De vez em quando encontro pessoas ótimas, acordo de ótimo humor, vou à praia, curto o meu dia. Outras vezes, principalmente quando os prazos estão no limite e começo a ficar sob pressão, fico irritada, cansada, um tédio só. Juro que se a mente não fosse presa ao corpo eu já teria abandonado a minha carcaça e saído por aí. Penso que é só uma fase. Que vai passar. Que valerá a pena. Mas aí penso que se a felicidade tem de estar no caminho, então está tudo errado.

A gente se cobra demais. Lembro-me de um tempo em que a minha filosofia de vida resumia-se a uma frase: 'Permita-se'. Infelizmente, hoje não posso me permitir muita coisa. É a desvantagem de se ter algo a perder.

Agradeço o carinho e as experiências de minhas colegas e amigas que (re)encontrei pelo blog. Mulheres de verdade, que transformam suas vidas e lutam por aquilo que querem, movimentando a vida de muitas outras pessoas, inclusive a minha.

Andréa! Fabi! Vocês são uma inspiração e um ombro amigo que conforta e mostra o lado humano, diverso e engraçado da nossa existência. Grande abraço para vocês!  

O que será de mim?


'Meus heróis fracassaram. O que será de mim?', pensava a menina, de mãos espalmadas, a olhar para o céu.

Complicações


Por que complico a vida? Tenho me debatido com essa pergunta. Participei ativamente de cada mínima parcela da construção do que sou, mas não me reconheço. Nada de essencial falta-me, exceto os sonhos infantis que aos poucos fui deixando pra trás. Fiz as minhas escolhas e não me arrependo, mas gostaria de viver paralelamente muitas outras coisas que são por natureza excludentes. O luto pelas vidas que não tive e que não posso ter é angustiante. Tento pensar no futuro, na possibilidade de vir a fazer algum dia, em alguma circunstância mais favorável, alguns dos tantos momentos que me escaparam, mas é claro que o consolo dura pouco porque logo começo a pensar, o meu grande Mal. Despejo rapidamente um caminhão de areia sobre o meu pequeno mar de ilusões. Afogo todos os peixinhos sem dó.

Que decepção. Sinto-me horrivelmente frustrada. A ambição é um veneno de ação lenta e dolorosa para quem não a sabe usar. Sinto-me fracassada, perdida e depois culpada por não dar o devido valor à vida que tenho. A pressa me consome, como se o tempo estivesse contra mim. Parece que toda decisão deve ser imediata, ainda que a única opção válida às 3h da madrugada seja apenas deitar e dormir. Preciso aceitar que certos desejos simplesmente não se realizam. Quer dizer, preciso é não sofrer tanto por isso. Não sou tão importante como gostaria. Não tenho um grande feito e acho muito piegas contar vantagem em cima de filho. Eu, por mim, não me orgulho. Vejo-me pequena nos olhos dos outros. Penso que eu deveria odiar mais a alguns outros do que a mim.

Percebo-me repetitiva. Isso me irrita. Queria ter o desprendimento de me reinventar. Reduzo há meses as minhas preocupações aos detalhes da decoração da festinha de aniversário das crianças. Que criatura minúscula eu me tornei. Olho em volta e vejo que as pessoas que me são caras estão a envelhecer. Penso que talvez em dez anos eu já não tenha mais algumas delas por perto. Sinto-me profundamente sozinha no mundo. É difícil perceber que ninguém, a não ser eu, deve ser responsável por mim. E é sofrível saber que muitas vezes o meu melhor não será suficiente.

Não guardo mágoas, mas tristezas. De vez em quando o baú de dores abre-se subitamente. Lança as piores cartas. É um jogo desleal. Aprendi a lidar com isso. Reconheço os pensamentos, reciclo e guardo. Depois eles se adaptam e voltam em outras ocasiões pra infernizar. É um esforço constante. Uma dialética interna. Promovo intensos debates mentais. No fim dou risada e faço logo o que deve ser feito. Tento ao menos ser prática.
      

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Despedidas


Enquanto insisto na ilusão de não perder o que não posso ter, a vida se despede discretamente todos os dias. De mim, de ti, de todos nós. Até que, simplesmente, ela se vai.

terça-feira, 19 de abril de 2011

A minha pequena história da fotografia: fragmentos de uma vida retratada

       

        A minha história com a fotografia não remonta, obviamente, ao daguerreótipo ou a qualquer outro mecanismo antigo de registrar imagens. Trato de um ponto de vista particular, em um texto não-científico, das relações e dos fatos que vivi e que foram – ou não – fotografados, em tese, não somente para garantir a irrevogabilidade do passado, mas principalmente para lhe permitir a vida eterna. Trinta anos de história do Brasil carregam o peso de acontecimentos marcantes, memoráveis. Entretanto, tal parcela de tempo não parece muita coisa quando se refere a uma vivência individual, afinal, o que poderia ter de tão grandioso na trajetória de uma jovem recém-chegada a casa dos trinta? Nada. Mas não estamos a falar de grandiosidades e sim de pequenos fragmentos retratados. Portanto, embora de partida soe presunçoso, o que proponho neste ensaio autobiográfico é apenas relatar o impacto da fotografia na construção da pessoa que sou.
        A marca inicial das objetivas me fora impressa antes do meu nascimento. Não há uma sequer foto de minha mãe grávida de mim. Tolice, poderiam pensar. Ocorre que tenho uma irmã muito cruel, ciumenta e possessiva e, dado o meu status equiparado de filha, seu ódio a fez atormentar-me pela infância. Ela se entusiasmava ao contar em detalhes o dia em que fui achada na lata de lixo, uma mentira inescrupulosa que por certo colocou a formação de minha identidade em crise. Despertou-me cedo para a vergonha, a desconfiança e a revolta, sentimentos dos quais nunca me desfiz. A meu favor não havia prova. Fui fotografada pela primeira vez na hora do meu batizado, sobre a pia batismal, no colo de meus padrinhos. Nem posso ter certeza de que sou eu ali. É o que dizem do bebê vestido de menina, com roupa branca engomada, enfeitada com lacinhos, envolto em uma manta amarela de modo que mal se pode ver o rosto franzido pelo choro.
        Tive depois outras tantas fotos, guardadas nos álbuns de família. Nenhuma, porém, permite garantir a minha origem. Apareço criança fazendo gracinhas, tomando banho, banguela, suja de comida, enfim, em uma série de cenas cotidianas que, por alguma razão, foram consideradas importantes e dignas de lembrança. Talvez tenha sido o ineditismo das minhas ações no que tange a minha própria existência o agente motivador dos flashes, pois com o passar dos anos a prática tornou-se mais restrita a eventos comemorativos, viagens, ocasiões especiais.
        Não sou fotogênica, não fico bem sem movimento. Não tenho um ângulo melhor, não fico natural diante da câmera. Não há luz que resolva. Isso não me preocupa. Aos nove anos descobri que a fotografia não pode – e nem deve – registrar a realidade. As pessoas não desejam uma cópia do real, ao contrário, desejam atingir uma espécie de 'real ideal', que só pode ser obtido pela manipulação fotográfica. Veja-se. Eu, menina, gordinha, estava sentada em uma cadeira de praia, na praia, com os pés na areia, de biquíni vermelho, comendo uma espiga de milho verde debaixo do guarda-sol, quando minha mãe resolveu tirar uma foto. Posicionou-se à minha frente, a uma distância de uns dois metros, inclinou-se, ajustando o aparelho ao olho, fez menção de apertar o botão e desistiu. Soltou a câmera sobre a mesinha improvisada, olhou-me em direção ao umbigo e disse: “melhor colocar uma camiseta para a barriga não aparecer na foto”. Olhei para baixo, de uma perspectiva que nunca me havia ocorrido, e vi três dobras de pele e gordura. Vi não mais pelo meu olhar, mas pelo olhar da minha mãe através da objetiva. E assim, pela segunda marca da fotografia, instalou-se em mim o crivo da aparência, alocando-me no mundo dos valores.
        Não importa que o sujeito seja feio, ele quer é parecer bonito. Se a foto ficou 'boa', então está tudo certo. A realidade é fugaz, não faz diferença. A foto ganha força de verdade não porque as pessoas não sabem que não se trata do real, mas porque preferem, dentre as duas formas de sua apresentação imagética, a que lhes parece mais conveniente. O homem conquistou o poder de criação divino: a foto pode ser, fantasiosamente, uma expressão concreta da vida em uma dimensão paralela, moldada nos limites do gosto e da habilidade humana.
        Aos onze anos mudei, finalmente, de lado em relação à câmera. Morávamos no Paraná e estávamos em uma expedição familiar pelo pantanal, no Mato Grosso do Sul. Instalamo-nos em uma ilha fluvial localizada no Paraguai, a três horas de barco do solo brasileiro, sua divisa territorial mais próxima. Quando lá aportamos, constatamos que a câmera havia sido esquecida em casa. Cabe esclarecer que aquela câmera não era um mero aparelho de tirar fotografia. Era uma preciosidade japonesa capaz de duplicar o número de poses do negativo, de modo que, se inserido um filme de trinta e seis poses, teríamos setenta e duas fotos. Tinha também um flash externo, acoplado pela parte superior, e possuía várias regulagens diafragmáticas. Era uma câmera profissional, rara e cara, ao menos na visão da minha família. Por todos esses atributos, era um aparelho de uso exclusivo dos adultos e ficava escondido na prateleira bem de cima do roupeiro, dentro de um estojo, no quarto dos meus pais. Foi então, por ter sido deixada pra trás, que a câmera 'sagrada' não mais determinou o meu lugar na fotografia.
        Como sempre fui afeita às compras e não à pescaria, tratei logo de vasculhar a ilha em busca de uma loja. Havia um único mercadinho, um misto de farmácia, camelô, açougue, conveniência, papelaria e bar. Para minha surpresa, encontrei uma câmera fotográfica e dois rolos de filme de trinta e seis poses cada. Comprei o conjunto. A câmera custou pouquíssimos dólares e, evidentemente, nem de longe se parecia com a dos meus pais. Era extremamente simples, sem opcionais, sem flash, toda manual, de plástico. Chamava-se 'Vivitar'. Animada, voltei ao hotel de palafita para tentar desvendar os mistérios da colocação do filme. A partir dali, fui iniciada – aprendi a ver o mundo pelo meu olhar através da objetiva.
        Sem os recursos da tecnologia digital, que agora me permitem a visualização imediata do resultado captado e a tiragem de milhares de fotos que se armazenam em um minúsculo cartão de memória, naquela época e especialmente naquela circunstância as condições eram escassas. Eu dispunha de setenta e duas poses e não poderia desperdiçá-las, ao passo que também não poderia instantaneamente saber o que havia capturado. Cada foto foi, portanto, meticulosamente planejada, escolhida, pensada, aguardada. Algumas foram perdidas, porque todos esses artifícios mentais exigem consumo de tempo e a natureza não espera nem posa. Foi o caso do mergulho do jacaré gigante ao lado do nosso barco, cuja foto guardou apenas as ondas que sobraram na água após o sumiço da cauda.
        Fora isso, fotografei pássaros exóticos, plantas aquáticas, animais diversos, pessoas, lugares; e uma foto recebeu destaque. Ao final de uma das muitas tardes que passamos ali, saí pelo vilarejo a passeio. Havia uma igreja inimaginável no ponto mais alto daquela ilha, uma construção antiga semelhante às nossas igrejas barrocas mineiras. Nunca fui religiosa, mas apreciei a combinação de cores, formas e sombras daquele local. Ao pé do morro, montei três planos visuais, o primeiro composto por árvores e galhos, o segundo pela igreja e o terceiro pelo sol, que já se escondia parcialmente atrás da torre do sino. Fotografei. A revelação encheu meus pais de orgulho - como a câmera era ruim, os créditos foram todos oferecidos a mim. Constatei que as fotos eram capazes de exercer um fascínio sobre as pessoas, suficientemente intenso para despertar-lhes sentimentos, pensamentos e ações, que não necessariamente se relacionavam ao modelo. O orgulho parental é uma marca essencial para o desenvolvimento de um filho e eu a recebi por uma atitude fotográfica.
        Fui aos Estados Unidos na adolescência, em minha primeira viagem sem a família. Não posso dizer que sozinha porque estava numa dessas excursões com guias, que aos quinze anos os jovens gostam de fazer com os amigos. Sou a única pessoa que conheço que foi à Disney e não tem nenhuma foto sua lá. Alguns até duvidam que fui, porque não tenho fotos. Meus pais emprestaram-me a câmera profissional, que assumi com a responsabilidade de proteger uma jóia. Olhando de perto, estava meio velha, com desgastes e uns enferrujadinhos, mas ainda era a fabulosa câmera capaz de duplicar filmes. Como de praxe na história do uso daquele aparelho, que nós usualmente chamávamos de máquina, sem considerar o âmago das questões etimológicas e sociológicas da palavra, instalei um filme de trinta e seis poses. E preciso dizer que sempre me causou horror que usassem um filme tão grande, porque demorava muito para 'bater' setenta e duas fotos nos critérios usados pelos meus pais. A revelação, portanto, costumava ultrapassar seis meses do momento fotografado e, para uma criança ou um adolescente, esse era um prazo interminável.
        Nas minhas mãos, em New York, porém, setenta e duas fotos não levaram três dias. Ainda no embalo do meu anterior sucesso como fotógrafa, fiz o meu melhor. Andava com aquela câmera pra todo lado, como de posse de um instrumento mágico e valioso. Nem vi direito os lugares em que estive, preocupei-me, de fato, em guardar o máximo da cidade naquela 'caixa preta'. Para minha tristeza, eu, que imaginava satisfeita os resultados de cada 'clique', vi ao chegar no hotel aquela máquina cem por cento automática engasgada a trucidar o rolo do negativo, quando tentei rebobiná-lo para a retirada do filme. Tomada de ódio, joguei o rolo estragado fora e guardei a câmera no estojo, dentro do roupeiro, que era o lugar dela. Saí e comprei uma Polaroid, um investimento que me fora bastante caro, ainda mais se somado ao custo dos filmes específicos e difíceis de achar. Fiz alguns testes dentro do quarto e, em poucos minutos, como depois de todas as práticas movidas por impulso, fui contemplada com o arrependimento. Além da qualidade ruim, tratava-se de um trambolho chato de transportar. Dali pra frente, seguiram-se vinte e dois dias de viagem e cinco cidades americanas, sem nenhuma foto. Entendi que a fotografia deveria se prestar a outros fins que não substituir os nossos próprios olhos para a vida enquanto ela acontece, porque a câmera, tal qual a mente humana, não é confiável.
        Engraçado como na minha família a fotografia é vista como algo 'vivo'. Não é permitido rasgar uma foto em que apareça um ser humano, em nenhuma hipótese. Observei muitas vezes esse fenômeno ao tentar me desfazer de qualquer foto que não tivesse ficado legal. As expressões faciais indicavam o prenúncio de uma tragédia, como se ao eliminar a imagem do papel, estivesse premeditando a morte, ao menos simbólica, da pessoa. A mim, que não sou mística nem apegada a materialidades, parece curioso, mas confesso que não sou capaz de rasgar sem culpa uma fotografia de alguém que já morreu. Não por medo do morto, claro, mas pela impossibilidade de oferecer em sua memória um novo registro. Caio na mesma cilada, eu sei. Reconheço que minhas relações com a fotografia estão ditadas, em alguma medida, pelas referências familiares, independente de meus conhecimentos filosóficos. Se a foto não é a cópia do real, é algo que, a seu modo, pode nos remeter a ele pela nossa própria versão.
        Meus pais têm pouquíssimas fotografias de infância. Minha mãe tem duas ou três, em preto e branco. São fotos posadas, com cabelo arrumado, roupa impecável e cenário montado. Meu pai tem uma foto, tirada provavelmente aos dois anos de idade, posada ao lado do irmão ligeiramente mais velho. Ele nem tinha conhecimento dessa foto até pouco tempo atrás, quando alguma de suas irmãs a localizou em caixas antigas na casa da vó. Lembro que ele ficou feliz, mas decepcionado por não ter uma foto só dele. Levei então ao estúdio para que fizessem uma nova edição, sem o meu tio. Agora ele tem uma imagem plena de um passado 'real ideal'. Está lá o menino, sozinho, em pose, apoiando o braço em um aparador, perto do que parece ser uma bola no chão – mas que na verdade era uma laranja fazendo papel de bola, segundo ele mesmo conta e conforme pode ser comprovado em uma observação atenta. Não importa a foto em si, mas o efeito que ela exerce sobre ele.
        Tenho a impressão de que algumas pessoas pensam a fotografia como um tipo de 'vodu'. Sentem-se ameaçadas pela foto, pelo uso indevido da sua imagem/pessoa. Deve ser um resquício do pensamento mágico infantil. Uma foto minha não sou eu, é tão e somente uma foto minha. Nada do que seja feito diretamente ao papel poderá me atingir de nenhuma maneira, salvo a sua divulgação, que dependendo do caso e do conteúdo poderá influenciar a ideia dos outros sobre mim (se tomada como retrato fiel da verdade para fins de julgamento).
        Prova maior de que a foto da coisa não é a coisa e nem tampouco a cópia da coisa são as fotografias dos imóveis disponíveis em imobiliárias para venda ou locação. Quando tenho de fazer uma mudança de cidade – e o faço com certa frequência – constato essas máximas. Entro nos sites, escolho pela foto os imóveis para vistar e, após mais de cem ocorrências, não encontrei nenhum que tivesse emanado para a fotografia, o que, do ponto de vista prático, é uma pena. Parece-me que a fotografia muitas vezes se presta a retratar somente aquilo que pode ser visto, ou melhor, lembrado. Temos legitimidade social para fotografar todos os eventos da vida de uma pessoa, exceto a doença, a desgraça e a morte – essas só os jornalistas, os artistas e os de 'mau gosto' se aventuram a fazer.
        Embora tenha perdido um pouco o hábito de fotografar, é uma atividade que gosto de fazer. Ao contrário dos meus pais, que lançavam mão da câmera em momentos especiais, eu não a uso com essa finalidade. Se vou passear, quero passear. Não quero parar a todo instante para tirar fotos. Se, por outro lado, quero fotografar, então faço com dedicação a tarefa. Quando saio com o meu marido, que tem o vício da fotografia, por estratégia fico com a máquina. Digo para que fique tranquilo que estarei a registrar tudo, mas evidentemente não o faço. Sim, é desleal, mas ao menos o liberto para viver o momento, para estar ali sem a pretensão de controlar a realidade, sacrificando a espontaneidade e o fluxo natural das cenas da vida.
        A chegada da câmera digital roubou-me o prazer da revelação. As setenta e duas poses ficaram pra trás. Reconheço que tinha um respeito maior pela foto impressa, não sei por quê. Se antes as fotos ficavam acomodadas harmoniosamente em álbuns estruturados, decorados, catalogados e admirados, hoje sequer abro uma pasta nova nos arquivos do computador. Não há mais a expectativa pelo resultado, visualizo na máquina e fim. Nem costumo abrir as fotos 'salvas' para olhar. A fotografia analógica parece estar para fotografia digital como a lasanha da vovó para a lasanha congelada de supermercado, ao menos no que se refere ao modo como boa parte das pessoas que conheço, incluindo a mim, comportam-se diante da tecnologia fotográfica.

Ali


Às vezes (muitas vezes), sou acometida inesperadamente por uma vontade louca de sair correndo.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Eu te conheço?


João estava parado em pé na fila do banco, com um bolo de contas, cheques e dinheiro na mão, aguardando a sua vez. Havia em sua frente umas quinze pessoas para atendimento, o que lhe rendia um cálculo aproximado de quarenta e cinco minutos de espera. Enquanto alternava o peso do corpo entre uma perna e outra, conferia o relógio de pulso e fazia umas caretas, dando os primeiros sinais de tédio. De repente, em uma daquelas suas olhadas de trezentos e sessenta graus pela sala, avistou um homem que lhe era vagamente familiar caminhando muito entusiasmado em sua direção. Pois o homem chegou perto com um grande sorriso no rosto, demonstrando uma alegria contagiante por encontrar, ao acaso, João naquele recinto. Deu-lhe uns dois tapas nas costas, cumprimentou-o e foi perguntando:
  • Daí, cara, nossa! Faz tempo que está aí na fila?
João, fazendo um enorme esforço mental para tentar lembrar de onde conhecia o sujeito, tentou retribuir o entusiasmo à altura, mas estava difícil esconder o embaraço. Respondeu com neutralidade.
  • Oi, que surpresa boa! Quanto tempo! É... faz uns vinte minutos que estou esperando. Banco é sempre assim né... Já tem que vir preparado.
  • E como é que está o seu pai, se recuperou da cirurgia de próstata?
Por saber dessa particularidade, João pensou inicialmente se tratar de alguém íntimo da família, mas depois lembrou-se de que sua mãe não tinha muita censura e falava abertamente das intimidades familiares pela cidade. Portanto, qualquer um poderia saber daquela informação, para desespero seu e desgosto de seu pai.
  • Ah, sim. Já está bem. Cem por cento. Essas cirurgias são meio chatas, mas agora já está tudo bem.
Enquanto o sujeito balançava a cabeça afirmativamente, concordando com o que havia sido dito, parecia esperar pela continuidade da conversa. João, com medo de dar um fora, optou por uma pergunta genérica sobre a 'família', afinal todo mundo tem ao menos um parente. Era uma maneira também encontrar alguma pista para descobrir a identidade do rapaz.
  • E a família, como vai?
  • Ah... o pai e a mãe você sabe né... com aqueles problemas de saúde de sempre. Até deixa eu aproveitar a oportunidade e te perguntar uma indicação de um especialista. Você, que é da área da saúde, sabe me indicar alguém?
Putz... E qual seria o problema especificamente? João teve de pensar rápido.
  • Quem estava acompanhando ele? O que ele está tomando?
  • Ele estava com o Dr Silveira, cardiologista, mas o Dr. Silveira pediu pra ele procurar um hemato.
Ufa...

  • Ah sim, lá na clínica temos um excelente, o Dr. Adalberto.
João olhava para a fila, contando os minutos pra escapar dali o quanto antes.
  • Pô, muito obrigado. Vou ligar essa semana pra marcar. E no mais, como estão a Luiza e as crianças?
  • Está tudo certo, Luiza está viajando, volta amanhã; e os meninos estão na escola.
Para ser educado, João viu-se obrigado a perguntar mais diretamente sobre esposa e filhos, sabendo que estava a correr um sério risco. Optou por um tom bem geral.
  • E vocês?
  • 'Vocês' nada... lembra que me separei no ano passado né...
  • Ah, sim, mas sabe como é, homem sempre tem alguém...
João riu nervoso, tentando consertar.
  • É cara, pior é que é. Tô saindo com umas garotas aí, mas agora não quero me envolver. Não quero saber de compromisso. Tá bom assim, tá bom assim.
Como o assunto estava ficando delicado, João preferiu mudar o rumo da conversa.

  • E o trabalho?
  • Tô lá na empresa ainda, entrou um pessoal novo, estamos fazendo umas adaptações nos setores e tal. Tá indo.
Angustiado, João, que havia desistido de reconhecer o sujeito, resolveu dar um xeque-mate para acabar com aquele sufoco. Vendo o homem de mãos abanando, teve uma ideia.
  • Você está esperando o atendimento do caixa também?
  • Não, não... Vou falar com o gerente, vim resolver umas coisas da empresa. Vou mesmo indo nessa, não posso me atrasar hoje. Bom te ver por aqui! Aparace lá em casa, dá uma ligada, vamos combinar uma hora dessas.
Funcionou!
  • Ah, sim. Com certeza. Passando essa correria de final de ano eu te ligo pra gente fazer alguma coisa.
  • Até mais!
  • Até!
João não conseguiu lembrar quem era e nem tampouco de onde conhecia o tal homem do banco, mas tratou de gravar as novas informações para um futuro encontro inesperado.