sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Voz



Som emitido pelos seres humanos. Uma característica pessoal e intransferível que nos permite, por exemplo, reconhecer instantaneamente alguém ao telefone ou saber quem está cantando uma música. Não entendo muito das propriedades da voz, então não me arriscarei a tratar disso. O que me interessa a escrever sobre o tema é pensar sobre o poder que a memória de uma voz tem dentro da gente.

É quase impossível lembrar de uma pessoa e não "ouvir" a sua voz. Desenrolando os fatos, os momentos, as risadas e as conversas do baú, lá estão as vozes trocando uma ideia. Sabemos identificar a voz nasalada de quem chorou há pouco ou está gripado, a voz tensa de quem está irritado, a voz nervosa de quem está ansioso, a voz entusiasmada de quem está alegre e a voz mansa de quem está em paz. A mesma voz que nos soa tão doce e meiga, às vezes se revela tão seca e áspera. Um suspiro, uma embargada, uma ou duas palavras bastam para que tudo se revele.

Quantos de nós não se entregaram aos sonhos (ou aos prantos...) ao ouvir uma voz. Nem sempre importa muito o que a pessoa disse. Aliás, provavelmente nós nem prestamos atenção. Ficamos hipnotizados pela voz, pela sensação que ela nos provocou.

Ao ler uma carta, um e-mail, ouvimos a voz do remetente. Podemos supor o tom, a modulação que usou para nos contar cada frase, em especial se conhecemos o autor. Quando não sabemos quem é o dono de uma voz, rapidamente criamos uma imagem para ele. Julgamos se é confiável, se é infantil, bobinho, sério, velho, jovem, bonito etc. Basta conferir o número de correspondências apaixonadas que os radialistas recebem.

A voz data também uma época. Ouvir o Cid Moreira me remete aos anos 80, quando eu criança odiava o Jornal Nacional. Meu pai me dizia: "xiiiiiii!", pra escutar o noticiário. Cresci detestando a hora do jornal. As vozes da minha infância são hilárias, todas mais poderosas do que a minha. Ao menos nas minhas lembranças.  

É, temos a nossa própria voz, de um jeito que só a gente escuta. É tão estranho ouví-la gravada; nem nos reconhecemos. Sei de gente que não grava um recado na secretária eletrônica nem por acaso, porque acha o resultado horrível. Fica ruim mesmo, mas não é culpa da voz. É que fica artificial, não sei explicar. A voz contempla tudo o que diz respeito a alguém, o que esse ser significa pra gente. Talvez por isso o medo de passar uma impressão errada.

Em meus atendimentos, as pessoas muitas vezes me revelaram que, em momentos de angústia, de incerteza, de remorso, de sofrimento, enfim, quando começavam a se consumir sozinhas em seus pensamentos, ouviam a minha voz e que isso as ajudava a considerar melhor o problema, estabelecendo um diálogo interno. Faziam até com a mão um movimento de abrir e fechar os dedos perto do ouvido, pra demonstrar a "vozinha" chegando. Não que eu tivesse dito palavras mágicas. Não raro era só a lembrança de uma voz que havia sido gentil, no meio de tantas outras vozes. 

Sei bem como é. Anos depois, ainda ouço a voz da minha querida terapeuta. Em situações de crise (sim, eu também tenho, né), logo começa a nossa conversa imaginária. Tanto aprendi com ela. De todas as suas sábias e bem encaixadas frases, sempre fico com a mais simples e determinante: "... E?". Aquele "E?" era mortal. Passava eu lá quase quarenta minutos falando alguma história que me parecia muito séria e sem solução e ela me desmontava assim. "...E?". Putz. "E" nada! Ora. Foi assim que aprendi a me livrar das preocupações inúteis.

Eis o poder da voz.
A voz nos consola, traz conforto e nos tira da solidão. A voz nos atormenta, inferniza e nos enche de culpa. Integramos à consciência as vozes de todos os nossos falantes. Tornamos as nossas vozes os nossos demônios e a nossa salvação. 

     

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Pobre



Pessoa que vive desprovida do necessário. Os números da pobreza são assustadores, tanto quanto seus efeitos. Eu, que me qualifico na massa falida da classe média brasileira, trabalhei nos extremos da riqueza e da miserabilidade.

Nesses anos todos, o que mais me incomodou com relação à pobreza foi a maneira como vi os pobres sendo tratados. Costumo resumir dizendo que o pobre não tem direito à vida privada. A vida do pobre é pública.

Na casa do pobre qualquer um que se diga profissional de qualquer setor se sente autorizado a entrar na hora em que sua agenda de funcionário público considerar favorável, fazer cara de nojo/recusa para o cafezinho gentil e humildemente oferecido em uma xícara lascada e scannear o ambiente, fazendo anotações indiscretas e apontamentos intromeditos. 

O pobre, resignado, aceita. Permite que obtenham todas as informações sobre seus hábitos, seu passado, sua saúde, sua situação financeira, seus sonhos, seu CPF, seu RG, seus bens, sua relação familiar, seus vícios, seus antecedentes criminais, seus empregos, as notas escolares de seus filhos, enfim, sentem-se na obrigação de expor tudo aquilo que nas demais classes sociais consideramos assuntos particulares e só revelamos mediante ordem judicial. Ai do pobre se resolver bancar o esperto e mentir ou não abrir a porta, fica registrado, marcado no caderninho. O profissional, depois da inspeção, faz um cadastro, um laudo e põe a ficha do sujeito na gaveta (quebrada) da sua repartição, com acesso livre. Informações que seriam por natureza sigilosas ficam ali, tratadas sem restrição, sem dignidade. 

Claro que simplifiquei. Na verdade, não só qualquer profissional da rede pública faz isso: um profissional de cada setor da rede pública faz isso. A casa do pobre é um entra e sai. Vai um da saúde, um da educação, um da secretaria de obras, um da assistência social... De vez em quando troca o pessoal e começa o ciclo de novo, não sei pra que servem e pra onde vão os arquivos. Sério. Pergunto: se é necessário fazer o controle social (e sim, sabemos, é necessário) por que não fazem um cadastramento único, por profissional capacitado, com acesso informatizado e protegido pelo uso de senha?

Cada um olha para a casa do pobre com os olhos do seu universo, faz a sua análise e emite o seu parecer. Muitos já aproveitam a visita, ficam quinze minutos ali, não sentam nem no sofá, e se sentem capazes de orientar o dono da casa, pra não precisar voltar. Não faltam conselhos e "opiniões especializadas". Querem ensinar ao pobre como é o certo. Ora. Venham na minha casa às 15h de uma quarta-feira sem avisar e encontrarão cachorro solto, alguma louça suja em cima da pia, a sala desarrumada, o lixo por descer, um filho pulando no sofá, outro chorando no carrinho, uma pilha de roupas para lavar, outra para passar e outros tantos detalhes da vida cotidiana comum. Por sorte, descolo até um suco no copo de requeijão pra oferecer no meio do caos. Desafio não encontrarem problemas na casa de qualquer pessoa e não me refiro somente ao número de banheiros.

Cansados de tanta invasão, os chamados "pobres" ficam desconfiados, irritados com a chegada de estranhos. E quando então é essencial realizar uma intervenção profissional, as portas estão fechadas. Eles desistiram de acreditar em falsas promessas. Dizem, num misto de decepção e raiva: "não sei pra que tanta gente vem aqui, pergunta toda vez a mesma coisa e não nos ajuda a resolver nada". 

Entrar na casa dos outros não deve ser assim. Nossa casa é o nosso templo sagrado. Invadir a intimidade alheia só para coletar dados e dar uns pitacos é uma violência. E o pior, dados que não são usados pra muita coisa e orientações que não são fundamentadas e nem acompanhadas em seu processo de evolução. Se ao menos os tais relatórios servissem para subsidiar políticas públicas respeitáveis ao invés de apenas discussões isoladas para fins de discriminação nas instituições, talvez a realidade social do Brasil fosse mais promissora.

Caros colegas, tenhamos mais respeito. Não estamos a serviço dos nossos preconceitos. Não fazemos nossas escolhas pessoais em poucos minutos de conversa com desconhecidos, então não podemos conduzir desse jeito o destino dos outros. Não somos melhores. Não somos "Jedi", não podemos sentir a força. Vamos bater menos nas portas das casas dos pobres e mais nas das nossas chefias. Façamos bom uso das informações que nos são confidenciadas. Nada se transforma sem participação e não se participa da vida de alguém sem o devido tempo. Os hábitos mudam com a convivência. Não só os dos que visitamos, mas os nossos também. Se for pra entrar na vida de alguém, que seja para estar lá.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Amor



Sentimento de afeição sem definição consistente. Encontrei significados como: ternura, carinho, dedicação, atração. Não me convenceram. São desdobramentos possíveis do amor, não o seu conceito. A ausência de uma descrição precisa me faz pensar que o amor deve ser uma daquelas questões que a gente simplesmente não sabe explicar sem poesia, sem comparações (que costumeiramente se referem ao coração).

O amor pode se mostrar como um estado de graça, de contemplação. Um singelo bem querer, uma vontade de estar perto. É espontâneo, chega sem aviso prévio e tem sempre a chave da porta. O amor pode entrar em qualquer relação. Não há limite de pessoas, de idade, de intensidade. Faz par com o ódio, com a raiva, com a paixão, com quase todo mundo; só não combina com duas pequenas tragédias: a necessidade e o desamor.

A necessidade habilmente se disfarça de amor. Tem quem não consiga desmascará-la nunca. Pode ser identificada quando temos a sensação de que não suportaremos viver sem o suposto objeto de amor. Não escolhemos estar com ele, precisamos estar com ele. É como se o ser amado fosse parte da nossa vida, não da nossa história de vida.

Essa é uma forma de relacionamento repleta de cobrança, de insegurança e de instabilidade. Não raro as pessoas acreditam ter encontrado sua alma gêmea e usam esse argumento pra justificar a manutenção de um vínculo unilateral, solitário, frágil e torto como uma borboleta voando com a asa quebrada. Assim, sinceramente, ninguém se completa. Um suga o pouco que o outro tem e nunca é o bastante. Tá que a gente não sabe direito dizer o que é o amor, mas nossa imaginação nos permite pensar que deve ser mais do que isso. 

Somos completos, inteiros. Às vezes, somos totais idiotas. Não precisamos de outra metade e nem devemos confiar em alguém que venha ao meio, que não assumiu a sua integridade. Sabe lá o que está do escondido outro lado. Quem não se aceita não se reconhece na sua complexidade, não tem consciência das suas fraquezas. Omite de si o que considera "pior" e busca incessantemente apenas o melhor dos outros para tentar preencher esse "vazio".

O tão cultuado individualismo da nossa época não favorece, por incrível que pareça, o desenvolvimento do amor próprio. Apenas autoriza que as pessoas pensem em si. É um racional jogo de interesses. Muitos, em nome de Deus, da caridade, do outro - conhecidos como "laranjas" -, sacrificam-se. Pensam que o fazem por amor. Tem gente que não consegue ser a propria prioridade, que precisa se sentir essencial  e para isso estabelece relações de dependência. Então pergunto: que qualidade de amor aquele que não ama a si pode oferecer ao próximo?

A necessidade faz o seu papel para encobrir o desamor. A falta de amor é o não sentir. É um solo infértil. Resta o nada, o vazio, a indiferença. Quando sentimos ódio, por exemplo, movimentamos os nossos afetos. Há um campo afetivo, há o reconhecimento de alguém/algo. Odiamos aqueles que amamos e vice-versa. No desamor não.

Na sua forma mais grave, o desamor torna a pessoa uma desconhecida para si. E pra quem cresceu na nossa cultura, ouvindo que não devia falar com estranhos... 

   

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Pressão



Força exercida sobre um ponto; influência ou ação sobre alguém. Mais um termo importado da física para o universo social. Somos constantemente pressionados por muitas razões. Temos uma espécie de protocolo social, um passo-a-passo de ações socialmente desejáveis - nascer, crescer comportado, namorar, noivar, ter estabilidade financeira, casar, ter filhos etc. O estranho é que ninguém segue esta ordem à risca desde o século passado, mas os outros insistem em fiscalizar e julgar a vida alheia. Adoro esta entidade: os outros.

"Os outros" se sentem no direito de dominar o mundo. Emitem suas opiniões, seus conselhos, suas cobranças. Têm uma língua afiada e vivem do prazer de criar situações constrangedoras. Estava eu pensando sobre a chatice da "pressão" porque estou numa idade em que grande parte dos meus amigos e colegas estão casados  (entre um a cinco anos). Comecei a perceber que muitos dos que não tiveram filhos passaram a expressar uma irritação pública diante de perguntas e comentários impertinentes acerca da chegada de rebentos.

Não é só porque o novo casal está feliz, já curtiu um tempinho de lua-de-mel, fez uma viagem ao exterior, comprou um apartamento e tem um trabalho rentável que precisa ter filhos! É tão óbvio que chega a ser ridículo escrever isso. Não passei por esse tipo de inconveniência porque engravidei pela primeira vez bem antes do tempo que os outros costumam considerar adequado, afinal não estava nem pensando em casamento e namorava havia apenas seis meses. Entretanto, como podem imaginar pelo meu breve relato, de constrangimento e pressão eu entendo.

Tenho visto por aí pessoas dando pontapés nos "outros". São respostas diretas, em tom bem grosseiro: "vai demorar muito ainda", "não estamos com a mínima pressa", "por que todos acham que qualquer novidade nossa tem que ser a vinda de um bebê?". Compreendo. Irrita mesmo ter que dizer mil vezes com educação. Chega uma hora que a pessoa cansa de fazer social - por volta de uns dois anos depois de explicar repetidamente e distribuir sorrisos amarelos sobre o assunto em festas, encontros, clubes, supermercados e afins. Até porque, em geral, entra na conta o tanto de gracinha a respeito da data do casamento que o casal aguentou na época de namoro. Saturados, em qualquer saia justa, um dos dois já dá logo uma tesourada nos dedos do enxerido e pronto.

Não sei qual é o prazer em infernizar. É como se as pessoas tivessem a obrigação de ter filhos; ou pelo menos a vontade de ter, pra ser aceitável. Os que não querem - por enquanto ou pra sempre - são vistos com demérito. São acusados de egoístas (no significado mais senso comum da palavra), dizem que as mulheres não querem estragar (sim, eu já ouvi essa palavra!) seus corpos, que vão se arrepender e blá, blá, blá. Grande bobagem.

Não é preciso gerar filhos pra ganhar maturidade. Aliás, é bem recomendável amadurecer antes de investir no aumento familiar. E conheço muita gente que teve filhos pelos motivos mais egoístas desse mundo: pra ter uma companhia, pra presentear o marido, pra manter ou salvar um casamento, pra ter alguém com quem possa contar na velhice, pra preencher um vazio, pra realizar um sonho. São inúmeros os argumentos que em nada demonstram o desejo de conceber a vida simplesmente pela vida, que não representam entrega, compaixão, amor pelo próximo. Falam somente de necessidades próprias.

Penso que quem decide não ter filhos e está consciente de suas razões é muito menos egoísta e mais responsável com o filho que não tem do que aqueles que produzem descendentes somente para não correr o risco de se arrepender mais tarde. Ter filho pra cumprir o protocolo não deveria servir de exemplo.

Infelizmente, a intromissão dos outros não para por aí. É um engano acreditar que só o fato de ter ou não filhos seja alvo das inquirições alheias. Quando os temos, o foco muda, mas o comportamento invasivo não. Querem nos ensinar como devemos exercer o novo ofício. Querem saber se já vai à escolinha, se foi batizado, quantas horas de TV ele assiste por dia, o que ele come, com quem aprendeu a falar palavrão, como fazemos para corrigir os erros, se tem babá, em que quarto dorme. Nenhuma dessas questões fica livre da atribuição de valor, é evidente.

Li uma matéria publicada hoje na internet revelando um resultado de pesquisa surpreendente: que as mães mentem sobre a criação dos filhos, por vergonha ou medo de comparação negativa. Criamos uma imagem de pais perfeitos e nos esforçamos para fingir socialmente que estamos bem perto de a atingir. Vivemos escravos da culpa e do fracasso. 

Sabemos que os outros não pagam as nossas contas, que não resolvem os nossos problemas, que não conhecem e não vivenciaram a nossa história. Sabemos que somos adultos, vacinados e que não devemos explicações. Sabemos que ninguém é tudo aquilo que tenta parecer que é. Sabemos que nossos heróis são seres idealizados, portanto não servem de referência. Sabemos o que queremos, o que podemos ter ou fazer, onde queremos chegar. Sabemos que vamos errar e que vamos nos arrepender em algum momento, independente das nossas escolhas. Sabemos que nunca agradaremos a todos ao mesmo tempo. Sabemos que as nossas cobranças internas são suficientes para nos roubar o sono. Não precisamos do crivo dos outros.

Por favor, entendam isso enquanto estamos sendo educados.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Erro





Um erro é, basicamente, algo que não saiu como desejado. Falhou, desandou, faltou, trocou. Tudo o que pode dar certo, em tese, está suscetível ao erro.

Apesar de comum, o erro não costuma ser bem tolerado. Claro. Se pode dar certo, tem que dar certo. Pena que não funciona assim. 

Pra cada erro, no mínimo uma consequência desagradável. Um erro de português invalida um autor diante do leitor crítico. Uma questão errada elimina o jovem que prestou vestibular. Uma palavra equivocada acaba com as chances de um pretendente. Uma roupa errada gera um enorme constrangimento. Um ingrediente errado detona o jantar especial. Uma falha médica pode custar uma vida. Um cálculo mal feito derruba um prédio. Uma escolha errada traz um intenso arrependimento.

O erro serve para atrapalhar a vida da gente. Tem quem o defenda, argumentando que é errando que se aprende. Conta outra. Eu poderia ter aprendido sem errar e não teria passado vergonha. Poderia simplesmente ter feito certo, como era pra ser. Do que adianta aprender depois? Já era. E tem quem não aprenda nem errando, comete um erro atrás do outro.

Deveria existir um bloqueio automático do sistema, capaz de detectar um possível erro e impedir a ação. Em condições não favoráveis, receberíamos um alerta semelhante ao "este programa executou uma operação ilegal e será fechado". Quanto nos seria poupado. Aprenderíamos, certamente. Ao menos tentaríamos de outro jeito, sem grandes estragos, até acertar. Teríamos a possibilidade de perguntar ao revendedor uma alternativa apropriada.

Poderíamos receber uma mensagem de confirmação. "Você tem certeza de que deseja enviar essa mensagem?", perguntaria o sistema, oferencendo-nos a oportunidade de não apertar o "enter" impulsivamente. Sim, seria um procedimento moroso, mas às vezes esperamos tanto por qualquer coisa. Ao menos seria seguro. Pra quem não tivesse paciência, bastaria desativar a configuração (não recomendado pelo servidor).

Nunca me esqueço de uma pessoa que foi a um velório e disse para a viúva "meus parabéns!" ao invés de "meus pesâmes". O que fazer? Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa! Aproveita e morre, né...

Não adianta recorrer ao consolo do "todo mundo erra". É verdade, todo mundo erra. Talvez por isso todo mundo tenha também o prazer sádico de condenar o erro dos outros. Alguns erros são imperdoáveis, irremediáveis, incompatíveis com a sobrevivência. Nossa imperfeição nos desmoraliza. 

O único meio de defesa é a distância. Quanto menos sabemos sobre uma pessoa, mais a admiramos. Julgamos os próximos, carregamos nas tintas. Valorizamos em demasia os fracassos e consideramos os acertos nada mais do que a obrigação. Salvo estejamos apaixonados, o que também é uma forma de distanciamento da realidade, passamos o nosso crivo com a rigidez de uma governanta alemã.

O medo de errar nos paralisa. Deixamos de fazer, de sonhar, de amar, de investir. Deixamos de viver por medo da reprovação social ou do prejuízo pessoal. Trocamos um erro por outro. 

 

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Pessoas



Eis uma grande questão ética e filosófica. Tornar-se pessoa. Em consideração aos atributos mínimos defendidos pelos mais diversos e divergentes pensadores, é consenso que a condição de pessoa só pode ser atingida pelos seres humanos. Podemos ter consciência, noção temporal e outros quesitos. Detalhe: podemos.

Pra não aprofundar o mérito da discussão, que não é o meu interesse no momento, usarei aqui o termo pessoa de modo bem mais humilde. Refiro-me aos seres afins, nossos colegas de espécie. Não importa se a criatura passou ou não na prova para ser pessoa. Quero falar de gente. Mais precisamente, do quanto gosto de gente.

Há anos, desde quando ainda morava em Porto Alegre, um dos meus prazeres é caminhar pela Rua dos Andradas - a chamada Rua da Praia. Fica no centro e é uma das ruas mais movimentadas da cidade, ao menos durante o dia. Passam por ali centenas de pedestres, lotações e carros. Vista de cima, do alto das ruas transversais, parece um formigueiro caótico.

Antiga, sujinha, repleta de comércios - regulares e irregulares, ao longo de sua via estão algumas das principais construções históricas e culturais locais. É de uma beleza singular, pouco reconhecida. É popular, democrática. Não faz cara feia pra ninguém, recebe todo o tipo de pessoa, pelos mais diferentes motivos. Tem um cheiro característico, uma mistura de sândalo (ambulantes insistem em vender isso), pipoca doce, incenso, monóxido de carbono do lotação, sujeira, cafezinho, churrasquinho de gato. Difícil dizer com precisão. E só pelo som também é possível saber que se está lá. É um tal de pipipipi, pipipipi, dos despertadores de camelô, de vendedores abordando na beira da calçada, de divulgadores que gritam (nunca entendi a relação): "compro ouro e corto cabelo", de barulho de conversas múltiplas com fortes interferências, de captadores oferecendo dinheiro fácil no crédito pessoal sem consulta... 

Sinto saudade desse caminho, das gentes que por ali circulam, que se esbarram, empurram, distraídas. Quer ver em dia de chuva! É obrigatório sair de sombrinha, não propriamente pela água, mas para preservar os olhos das pontiagudas proteções alheias, apinhadas sob as marquises.

É ali, no meio do fervo, entre iguais (absolutamente distintos), que me sinto muito pessoa, justamente quando deixo a cosnciência de lado e perco a noção do tempo. É uma estranha sensação de fazer parte - e uma parte ínfima, como um presépio de shopping center.

No passado, incomodada com qualquer coisa, a Rua dos Andradas era o meu refúgio. Passava horas pra lá e pra cá. Só de chegar, esquecia da vida. Circulava olhando as fachadas, as vitrines, a movimentação. Visitava meus lugares preferidos, todos por ali. A praça da Alfândega, com seus espaços de arte, a Casa de Cultura Mário Quintana, algumas lojas que adoro. Comprava um sorvete no "Mc", umas flores frescas na barraquinha, espiava a livraria do Globo. Passava a tarde assim. Passava. Saía leve, sorrindo até. Era como se cada passante tivesse levado consigo um pouco das minhas dores. 

Sinto falta de pertencer a um lugar, a uma gente. Desterrada, fui bem acolhida em Santa Catarina. Criei raízes e frutos que me impedem de voltar ao meu rancho, mas não me aquerenciei. Estou feliz, mas longe de me sentir em casa.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Segredo



O não dito, o velado, o omitido. Um segredo é um pequeno silêncio. Conhecido, porém escondido. Pode ser uma coisa boa, pode ser temporário. Ou talvez não. Pode ser desastroso, cruel. Existem segredos eternos, segredos de família, segredos de casamento, segredos de todo tipo. Isso não significa também que sejam importantes.

Nossos segredinhos são tantos ao longo dos dias! Pensamos, agimos, vemos. Há tanto nesse mundo que não pode, por qualquer razão, ser dito! Somos habilmente treinados para saber calar - e esperam desesperadamente que a gente aprenda a manter o bico fechado. É feio ser "dedo duro". 

Entretanto - vejam que contradição -, exigem que as pessoas sejam sinceras. Rá. Como? Se não devo dedurar os outros, por que o faria contra mim? Seria sensato declarar publicamente, a todo instante, aquilo que penso, faço, vejo ou sinto? Não, certamente. Seria um suicídio social. Ser transparente não compensa, gera muita confusão.

Não que a gente deva viver um faz-de-conta, mas tem certas coisas que convém ignorar. São quase sempre bobagens efêmeras, informações irrelevantes ou, se relevantes, não pertinentes (podem não ser da nossa conta ou não ser da conta alheia). Já diria o ditado popular: "se nada tem a acrescentar, abstenha-se". A sabedoria do povo prospera. Quem não conhece o famoso "minha vida é um livro aberto, com páginas grampeadas"?

Nossa velha e companheira bagagem guarda muitas histórias. Da nossa vida, ninguém realmente sabe. Nem a gente. Ainda bem. Tem segredo que é difícil de manter, então é melhor que o destino nos revele apenas o essencial. Guardar segredo é muito arriscado, especialmente se ele for dos outros.

Podemos dividí-los em três grandes grupos: o segredo ruim, o bom e o neutro. Os principais inimigos do segredo ruim são a revelação, a fofoca e a humilhação - com frequência os três atacam juntos. Às vezes trepudiam sobre algo ridículo, mas quem quer ver suas fraquezas expostas? Na melhor das hipóteses, uma revelação envolve duas pessoas (na pior, como podem imaginar, a fofoca faz questão de espalhar para um sem fim de seres). Não há como alguém não sair humilhado.

Já o segredo bom costuma ser traído pelo conhecido "sangue-de-barata", um sujeito ansioso que não aguenta esperar. Acaba com a galera. Revela com antecedência os amigos-secretos, entrega a festa surpresa, dá o presente antes do aniversário ou do natal, conta a notícia em primeira mão. Todo mundo conhece um.

O segredo neutro não faz mal a ninguém. Costma ser encontrado no meio acadêmico ou no culinário. Ocorre, por exemplo, quando um pesquisador encontra informações científicas que não podem ser divulgadas em sua totalidade ou quando um professor não ensina tudo o que sabe aos alunos. E inclui ainda aquele temperinho mágico da sua sogra. Por mais que ela lhe conte a receita, misteriosamente, nunca fica igual.  

Em comum, todos apresentam como efeito colateral o peso na consciência. É difícil suportar. Se o segredo não fosse nos preservar de algum dano, sofrimento ou desconforto, poderia ser extinto. Não estamos preparados para toda a verdade, por mais que nossos esforços tentem incessantemte obtê-la. Portanto, acolho os meus pequenos silêncios e aceito com gratidão os silêncios que me cercam.

Aqui jaz um segredo e ele descansa em paz.          

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Organização



Organização pode ser descrita como a capacidade de colocar cada coisa em seu lugar, seguindo uma certa lógica, para que haja ordem. É uma forma de exercer o controle, de conhecer e de dominar o mundo - ao menos o seu pequeno mundo.

Desde que comecei a escrever meus posts, percebi em mim um novo modo de organização mental operando sistematicamente. Passei a "pensar" em forma de textos elaborados de acordo com o propósito do blog. Boa parte das ideias que me ocorrem ao longo do dia manifestam-se espontaneamente, como sempre; mas em seguida se ajustam ao modelo. Parece um fichamento automático. São tantos os posts mentais que eu não teria a menor possibilidade de registrar tudo. Fico então uma parte do tempo de luto pelos posts que não são redigidos.

Por outro lado, fico contente por povoar minha mente. Confesso que andava um tanto repetitiva e isso estava me preocupando. Pra ser bem sincera, eu muitas vezes pensei em sair correndo, como se pudesse abandonar os limites do corpo e correr, correr, correr. Estava fugindo de mim, como costumo fugir de alguns chatos que conheço. Ui... lá vem aquela mala, com aquele seu blá, blá, blá. 

Aos poucos, voltei a me interessar por meus assuntos. Parei para me ouvir. Sinto-me mais produtiva. Não que seja de grande relevância publicar meus devaneios nesse espaço virtual. O que ocorre é que me obrigo a ler o que escrevo, a elaborar o que vou escrever e assim aprendo mais sobre mim. Com a vida tão atarefada, há meses não sentia vontade de produzir nada. Estranhamente, escrever no blog é algo que tenho feito livremente, com prazer. Escolho o tema no exato momento em que abro a página. As frases fluem com naturalidade. Não faço esforço. Cheguei a pensar em escrever uns trabalhos atrasados por aqui, pra ver se funcionaria. Depois desisti. Não quis correr o risco. Vai que entope esse escape também...

Enquanto posso fazer uso dele, aproveito com diversão. Escrevo para mim, para os que gostam de mim. Sei que esse é um pensamento infantil, considerando que a internet permite o acesso público. Não tenho pensado muito nisso. Talvez esse seja o segredo. Sem expectativas, sem cobranças, sem pressão. Essa leveza é o que preciso. O desprendimento tem sido a minha libertação.       

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Dúvida




Dúvida é um tipo de pensamento que ocorre quando você não sabe algo ou quando não tem certeza. Costuma se manifestar em forma de pergunta, especialmente se você estiver interessado em esclarecer a questão. Pode soar um tanto óbvio, mas pense um pouco e verá que não é. Temos todos uma infinidade de dúvidas. Há muito para se conhecer nesse mundo, mas o curioso é que muitas dessas dúvidas nunca serão investigadas. Simplesmente não sabemos, sabemos que não sabemos e não nos esforçamos para saber. Ficamos com a dúvida, por isso não obrigatoriamente ela seja uma interrogação. É uma incógnita.

Por outro lado, existem situações que nos fazem coçar a pulga atrás da orelha. Quando comecei esse blog, por exemplo, estava com vontade apenas de partilhar ideias, esgotar parte das palavras que atormentavam minha mente. Dadas as atuais circunstâncias da minha vida, não seria possível usar o tradicional e prazeroso método de encontrar os amigos para uma rodada de pizza, cerveja, histórias e risadas. Tampouco resolveria alugá-los ao telefone. Não é a mesma coisa e sai bem mais caro. Além disso, sair para encontrar os amigos é um evento marcado, combinado, em comum acordo de conveniência. Fazer um telefonema não.

O leitor pode bem questionar as minhas razões. Eu o faço às vezes. De qualquer modo, fico ainda com a dúvida. Hoje, porém, esse não é o objeto central da minha divagação. O fato é que sempre fiquei meio desconfiada desse sistema estatítisco do blog. Como funciona? Será que é confiável? Por que alguém da Croácia acessaria minha página? Muitas foram as minhas dúvidas desde a minha "iniciação". Por fim, a que me consome há alguns dias é: por que tenho recebido tantos acessos ao post "Afronta"? 

De todas as postagens, essa seja talvez a mais boba. É aquela que não gostei muito, mas foi assim mesmo. Não tem propriamente uma função. É o relato de um fato cotidiano, até meio sem graça. É superficial, vago. Bobo. A receita do final é ótima, essa eu garanto, mas só isso. Então fico pensando: por que diabos tanta gente entra pra ver esse post? Será que é somente por causa da foto de uma suculenta picanha, que aparece em qualquer busca simples no Google imagens (onde eu a encontrei, inclusive)? Seriam os advogados do dono da churrascaria ou do próprio fotógrafo, avaliando a possibilidade de exigir uma indenização pelo uso não autorizado da fotografia? Seria uma legião de vegans escandalizados por eu ser carnívora? Ou quem sabe o meu açougueiro, que finalmente descobriu o que faço com picanha moída e resolveu divulgar na rede? Devo retirar esse post, para que não pensem que sou tão pouco? Ou seria melhor fazer uma revisão? E volto ao problema inicial: será que esse sistema estatístico do blog presta?

Passo a tarde nesse processo e decido lançar a minha campanha para a salvação: uma dúvida puxa outra. E a humanidade se desenvolve. 

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Ilusão



A ilusão é um fenômeno decorrente de uma distorção perceptual acerca de um estímulo real. Um bom exemplo é a mágica, por isso chamada de ilusionismo. É, em geral, apenas uma falsa impressão da realidade, inofensiva, movida pelo cansaço, pela distração ou mesmo por uma bebedeira, quando no meio do pileque os objetos inanimados parecem criar vida, o chão ameaça sair do lugar, enfim.

Estamos tão habituados a confiar em nossos sentidos que quase não identificamos os efeitos potencialmente nocivos de uma ilusão.

Ana estava há mais de ano, dia sim, dia não, no psicanalista. Infeliz no casamento, bem-sucedida profissionalmente, dois cachorros, sem filhos. Na hora exata, tocava a campainha. Ao ser recebida pelo Dr. Teixeira, dava um pequeno passo à frente, séria, olhava-o e logo abaixava levemente a cabeça, para desviar o olhar - não sei se era respeito ou vergonha. Ele a cumprementava com um aperto de mão e um enigmático "como vai?". Ela respondia um tímido "bem" enquanto se apressava para se acomodar no divã. Claro. Cada minuto ali valia ouro, mas não era só isso. Ela não queria que ele reparasse nela.

Então começava a ladainha. Ana investia seu tempo e seu dinheiro na ânsia de entender o que havia acontecido com o seu marido. Ela reclamava daquele homem. O Dr. Teixeira disfarçava, mas ficava até exausto. Sempre a mesma história. "O senhor não sabe o que ele me falou ontem no jantar". Assim seguia por ininterruptos dez minutos de discurso. Foram várias e várias sessões. O Dr. Teixeira via-se obrigado a repetir pela milésima a sua pergunta: "Ana, se você está me dizendo que ele é grosseiro com você, que não lhe valoriza, que não lhe ajuda, que vocês não partilham mais a vida como casal, que ele não respeita os seus sentimentos, que o sexo com ele não lhe agrada, que ele lhe humilha na frente dos outros, que ele está lhe traindo, Ana, me diga, o que é que prende você nessa relação?".

Por incrível que pareça, a resposta também não variava: "É que eu amo o meu marido, Dr.". O sábio Dr. Teixeira questionava: "O que então você ama no seu marido, Ana?". Ela rapidamente saía em defesa: "Ele era tão carinhoso, tão responsável, tão dedicado. Ele me mandava flores, deixava bilhetinhos embaixo da xícara de café da manhã. Nós tinhamos tantos planos. Não sei o que aconteceu com ele, com aquele rapaz divertido, alegre, apaixonado que eu conheci. Não sei por que agora ele me trata assim, não sei o que se passa na cabeça dele". Aí estava o problema. Ana estava lá para tentar consertar o marido.

O Dr, Teixeira não desanimava: "Ana, o que aconteceu com ele e o que ele pensa sobre as coisas nós não temos o poder de saber. Estamos aqui, juntos, pra pensar no que se passa na sua cabeça e pra entender o que acontece com você". Frustrada por não obter a resposta desejada, planejava secretamente suspender a porcaria da terapia (que não resolvia "nada"), mas apenas dizia embaraçada: "Eu sei. Está bem". Tocava o sinal. "Ok, Ana, continuamos depois de amanhã".

Nas sessões seguintes, tudo igual. Até que a ficha caiu. Sim, temos de reconhecer que o Dr. Teixeira resolveu ser mais direto, mas ela enfim entendeu. Ele disse: "Ana, há mais de cinco anos nos vemos todas as semanas. Você me procurou porque estava infeliz no seu casamento, pelos mesmos motivos que você me apresenta ainda hoje. O seu casamento dura seis anos. Isso quer dizer que você está insatisfeita com a sua relação desde o final do primeiro ano de casada. Pois, bem. Aquele homem gentil, alegre, companheiro que você defende como o amor da sua vida, bem, Ana, sei que é díficil ouvir isso... mas esse homem que você ama não existe mais. O seu marido "de verdade" é o homem que você me descreve três vezes por semana, há cinco anos. Não estou aqui para julgar ninguém. O fato é que, depois de ouvir deatalhadamente a sua história, penso que você mantém a sua relação porque ama uma imagem que criou sobre o seu marido. Não lembro de ter ouvido você dizer que estava satisfeita com o comportamento dele e temos de admitir que é isso que ele tem para lhe oferecer".

Chocada, Ana se deu conta de que estava casada com uma ilusão. Aquele homem que ela amava era somente uma visão distorcida que ela tinha do marido. Ana ficou apreensiva. O que deveria fazer agora? Sentia-se aliviada e simultaneamente atormentada. Queria ficar agarrada a sua ilusão, porém, não conseguia mais. Era tarde. Ao ajustar o foco, enxergou pela primeira vez o homem que estava ao seu lado. Não dava pra sustentar. Aliás, mal podia acreditar que esteve refém de seu engano por tanto tempo. Na prática, demorou um pouco para tomar suas providências, mas Ana mudou seu olhar sobre o mundo. Embora insegura, tornou-se consciente. Nunca se livrou das ilusões, mas aprendeu a lidar com elas.    

   


    

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Férias



Período do ano em que as pessoas trocam seus compromissos habituais por outros. Sim. Tem gente que diz que até consegue não fazer nada. Não é o meu caso nem o da maioria que conheço. Quando chegam as tão sonhadas férias, sempre tem um trabalho atrasado, uma reforma, uma cirurgia, uma pendência que ficou ao longo do ano. O pior: você precisa resolver um monte de coisas e o mundo todo parece ter parado. Os fornecedores não entregam mercadorias no prazo, o trânsito não flui, o responsável nunca está, tudo leva o dobro de tempo. Sem contar que a filharada está de folga, cheia de energia. O que deixamos para fazer nas férias até estressa mais do que o trabalho. Não é por acaso que postergamos a tarefa.

Se você mora na praia, sinto muito. É a época em que os parentes "baixam" em peso. No mais puro espírito de não fazer nada. Afinal, eles estão de férias. Usam todas as suas toalhas, comem toda a sua comida, produzem muito lixo e barulho, espalham areia, sentem-se em casa, como você fez questão de estimular. Que maravilha.

Para aqueles que decidem viajar - primeiro passo para escapar da armadilha do mau uso das férias - os riscos também existem. Se o destino for o litoral brasileiro, bem, as encrencas todos os veranistas conhecem. Falta água, sobra incomodação. Principalmente para quem mantém imóvel e só frequenta uma vez por ano. Hahahaha. O cara sai todo faceiro da cidade, certo de que vai começar a diversão. O coitado não cansa de se iludir. Arruma o carro, carrega praticamente uma mudança. Chega lá, o mato tomou conta do pátio, os eletrodomésticos (se não tiverem sido furtados) não funcionam, os dois primeiros dias (que são de muito sol) são para cortar a grama e fazer a faxina. Depois só chove. Viva o baralho.

Vamos tentar então um pacote turístico. Não, não. Melhor não. Guia de excursão é mais chato do que chefe de cerimonial de casamento e ainda assim tem algum turista mala que atrasa todos os passeios. Você tem quinze minutos pra curtir os seus interesses e precisa esperar duas horas para acabar o resto dos programas. Fora as musiquinhas animadas do ônibus - "... ia, ia, ou...".

Quem sabe uns dias no campo, pra relaxar. Tudo muito rústico, primeira atividade - ordenha - às 5 da manhã, pescaria, insetos mil e aranhas gigantes no seu chalezinho. Difícil pra quem está naturalizado no ambiente tipicamente urbano.

No fim, sentimos falta da vida cotidiana, contamos os últimos dias para que as férias acabem. Engraçado como a gente esquece logo. Que contradição. Ao final do primeiro expediente no escritório, suspiramos com saudades de "não fazer nada". Acho que é porque a gente nunca descansa de verdade.