quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Ilusão



A ilusão é um fenômeno decorrente de uma distorção perceptual acerca de um estímulo real. Um bom exemplo é a mágica, por isso chamada de ilusionismo. É, em geral, apenas uma falsa impressão da realidade, inofensiva, movida pelo cansaço, pela distração ou mesmo por uma bebedeira, quando no meio do pileque os objetos inanimados parecem criar vida, o chão ameaça sair do lugar, enfim.

Estamos tão habituados a confiar em nossos sentidos que quase não identificamos os efeitos potencialmente nocivos de uma ilusão.

Ana estava há mais de ano, dia sim, dia não, no psicanalista. Infeliz no casamento, bem-sucedida profissionalmente, dois cachorros, sem filhos. Na hora exata, tocava a campainha. Ao ser recebida pelo Dr. Teixeira, dava um pequeno passo à frente, séria, olhava-o e logo abaixava levemente a cabeça, para desviar o olhar - não sei se era respeito ou vergonha. Ele a cumprementava com um aperto de mão e um enigmático "como vai?". Ela respondia um tímido "bem" enquanto se apressava para se acomodar no divã. Claro. Cada minuto ali valia ouro, mas não era só isso. Ela não queria que ele reparasse nela.

Então começava a ladainha. Ana investia seu tempo e seu dinheiro na ânsia de entender o que havia acontecido com o seu marido. Ela reclamava daquele homem. O Dr. Teixeira disfarçava, mas ficava até exausto. Sempre a mesma história. "O senhor não sabe o que ele me falou ontem no jantar". Assim seguia por ininterruptos dez minutos de discurso. Foram várias e várias sessões. O Dr. Teixeira via-se obrigado a repetir pela milésima a sua pergunta: "Ana, se você está me dizendo que ele é grosseiro com você, que não lhe valoriza, que não lhe ajuda, que vocês não partilham mais a vida como casal, que ele não respeita os seus sentimentos, que o sexo com ele não lhe agrada, que ele lhe humilha na frente dos outros, que ele está lhe traindo, Ana, me diga, o que é que prende você nessa relação?".

Por incrível que pareça, a resposta também não variava: "É que eu amo o meu marido, Dr.". O sábio Dr. Teixeira questionava: "O que então você ama no seu marido, Ana?". Ela rapidamente saía em defesa: "Ele era tão carinhoso, tão responsável, tão dedicado. Ele me mandava flores, deixava bilhetinhos embaixo da xícara de café da manhã. Nós tinhamos tantos planos. Não sei o que aconteceu com ele, com aquele rapaz divertido, alegre, apaixonado que eu conheci. Não sei por que agora ele me trata assim, não sei o que se passa na cabeça dele". Aí estava o problema. Ana estava lá para tentar consertar o marido.

O Dr, Teixeira não desanimava: "Ana, o que aconteceu com ele e o que ele pensa sobre as coisas nós não temos o poder de saber. Estamos aqui, juntos, pra pensar no que se passa na sua cabeça e pra entender o que acontece com você". Frustrada por não obter a resposta desejada, planejava secretamente suspender a porcaria da terapia (que não resolvia "nada"), mas apenas dizia embaraçada: "Eu sei. Está bem". Tocava o sinal. "Ok, Ana, continuamos depois de amanhã".

Nas sessões seguintes, tudo igual. Até que a ficha caiu. Sim, temos de reconhecer que o Dr. Teixeira resolveu ser mais direto, mas ela enfim entendeu. Ele disse: "Ana, há mais de cinco anos nos vemos todas as semanas. Você me procurou porque estava infeliz no seu casamento, pelos mesmos motivos que você me apresenta ainda hoje. O seu casamento dura seis anos. Isso quer dizer que você está insatisfeita com a sua relação desde o final do primeiro ano de casada. Pois, bem. Aquele homem gentil, alegre, companheiro que você defende como o amor da sua vida, bem, Ana, sei que é díficil ouvir isso... mas esse homem que você ama não existe mais. O seu marido "de verdade" é o homem que você me descreve três vezes por semana, há cinco anos. Não estou aqui para julgar ninguém. O fato é que, depois de ouvir deatalhadamente a sua história, penso que você mantém a sua relação porque ama uma imagem que criou sobre o seu marido. Não lembro de ter ouvido você dizer que estava satisfeita com o comportamento dele e temos de admitir que é isso que ele tem para lhe oferecer".

Chocada, Ana se deu conta de que estava casada com uma ilusão. Aquele homem que ela amava era somente uma visão distorcida que ela tinha do marido. Ana ficou apreensiva. O que deveria fazer agora? Sentia-se aliviada e simultaneamente atormentada. Queria ficar agarrada a sua ilusão, porém, não conseguia mais. Era tarde. Ao ajustar o foco, enxergou pela primeira vez o homem que estava ao seu lado. Não dava pra sustentar. Aliás, mal podia acreditar que esteve refém de seu engano por tanto tempo. Na prática, demorou um pouco para tomar suas providências, mas Ana mudou seu olhar sobre o mundo. Embora insegura, tornou-se consciente. Nunca se livrou das ilusões, mas aprendeu a lidar com elas.    

   


    

2 comentários:

  1. Adorei o caso. Claro que sempre tem aquela que não se dá conta de que faz parte do processo da "mudança". No entanto, tem muita gente aí que conheço e conheci comendo farofa e sonhando com um congrio greladinho com molho de camarão!

    ResponderExcluir
  2. Lia, adorei a tua crônica. beijos

    ResponderExcluir