sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Pessoas



Eis uma grande questão ética e filosófica. Tornar-se pessoa. Em consideração aos atributos mínimos defendidos pelos mais diversos e divergentes pensadores, é consenso que a condição de pessoa só pode ser atingida pelos seres humanos. Podemos ter consciência, noção temporal e outros quesitos. Detalhe: podemos.

Pra não aprofundar o mérito da discussão, que não é o meu interesse no momento, usarei aqui o termo pessoa de modo bem mais humilde. Refiro-me aos seres afins, nossos colegas de espécie. Não importa se a criatura passou ou não na prova para ser pessoa. Quero falar de gente. Mais precisamente, do quanto gosto de gente.

Há anos, desde quando ainda morava em Porto Alegre, um dos meus prazeres é caminhar pela Rua dos Andradas - a chamada Rua da Praia. Fica no centro e é uma das ruas mais movimentadas da cidade, ao menos durante o dia. Passam por ali centenas de pedestres, lotações e carros. Vista de cima, do alto das ruas transversais, parece um formigueiro caótico.

Antiga, sujinha, repleta de comércios - regulares e irregulares, ao longo de sua via estão algumas das principais construções históricas e culturais locais. É de uma beleza singular, pouco reconhecida. É popular, democrática. Não faz cara feia pra ninguém, recebe todo o tipo de pessoa, pelos mais diferentes motivos. Tem um cheiro característico, uma mistura de sândalo (ambulantes insistem em vender isso), pipoca doce, incenso, monóxido de carbono do lotação, sujeira, cafezinho, churrasquinho de gato. Difícil dizer com precisão. E só pelo som também é possível saber que se está lá. É um tal de pipipipi, pipipipi, dos despertadores de camelô, de vendedores abordando na beira da calçada, de divulgadores que gritam (nunca entendi a relação): "compro ouro e corto cabelo", de barulho de conversas múltiplas com fortes interferências, de captadores oferecendo dinheiro fácil no crédito pessoal sem consulta... 

Sinto saudade desse caminho, das gentes que por ali circulam, que se esbarram, empurram, distraídas. Quer ver em dia de chuva! É obrigatório sair de sombrinha, não propriamente pela água, mas para preservar os olhos das pontiagudas proteções alheias, apinhadas sob as marquises.

É ali, no meio do fervo, entre iguais (absolutamente distintos), que me sinto muito pessoa, justamente quando deixo a cosnciência de lado e perco a noção do tempo. É uma estranha sensação de fazer parte - e uma parte ínfima, como um presépio de shopping center.

No passado, incomodada com qualquer coisa, a Rua dos Andradas era o meu refúgio. Passava horas pra lá e pra cá. Só de chegar, esquecia da vida. Circulava olhando as fachadas, as vitrines, a movimentação. Visitava meus lugares preferidos, todos por ali. A praça da Alfândega, com seus espaços de arte, a Casa de Cultura Mário Quintana, algumas lojas que adoro. Comprava um sorvete no "Mc", umas flores frescas na barraquinha, espiava a livraria do Globo. Passava a tarde assim. Passava. Saía leve, sorrindo até. Era como se cada passante tivesse levado consigo um pouco das minhas dores. 

Sinto falta de pertencer a um lugar, a uma gente. Desterrada, fui bem acolhida em Santa Catarina. Criei raízes e frutos que me impedem de voltar ao meu rancho, mas não me aquerenciei. Estou feliz, mas longe de me sentir em casa.

Um comentário:

  1. Tinha a mesma sensação quando ia trabalhar a pé pela manhã, passando pela Praça XV, aos pés da Catedral, que era meu refúgio de meditação. A praça, na época, era caminho de quem vinha do terminal para o centro e local de encontro de tudo que não presta. Era como se Deus e o Diabo sentassem sob a sombra faceira da centenária figueira, para uma partida de dominó...

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