quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Pobre



Pessoa que vive desprovida do necessário. Os números da pobreza são assustadores, tanto quanto seus efeitos. Eu, que me qualifico na massa falida da classe média brasileira, trabalhei nos extremos da riqueza e da miserabilidade.

Nesses anos todos, o que mais me incomodou com relação à pobreza foi a maneira como vi os pobres sendo tratados. Costumo resumir dizendo que o pobre não tem direito à vida privada. A vida do pobre é pública.

Na casa do pobre qualquer um que se diga profissional de qualquer setor se sente autorizado a entrar na hora em que sua agenda de funcionário público considerar favorável, fazer cara de nojo/recusa para o cafezinho gentil e humildemente oferecido em uma xícara lascada e scannear o ambiente, fazendo anotações indiscretas e apontamentos intromeditos. 

O pobre, resignado, aceita. Permite que obtenham todas as informações sobre seus hábitos, seu passado, sua saúde, sua situação financeira, seus sonhos, seu CPF, seu RG, seus bens, sua relação familiar, seus vícios, seus antecedentes criminais, seus empregos, as notas escolares de seus filhos, enfim, sentem-se na obrigação de expor tudo aquilo que nas demais classes sociais consideramos assuntos particulares e só revelamos mediante ordem judicial. Ai do pobre se resolver bancar o esperto e mentir ou não abrir a porta, fica registrado, marcado no caderninho. O profissional, depois da inspeção, faz um cadastro, um laudo e põe a ficha do sujeito na gaveta (quebrada) da sua repartição, com acesso livre. Informações que seriam por natureza sigilosas ficam ali, tratadas sem restrição, sem dignidade. 

Claro que simplifiquei. Na verdade, não só qualquer profissional da rede pública faz isso: um profissional de cada setor da rede pública faz isso. A casa do pobre é um entra e sai. Vai um da saúde, um da educação, um da secretaria de obras, um da assistência social... De vez em quando troca o pessoal e começa o ciclo de novo, não sei pra que servem e pra onde vão os arquivos. Sério. Pergunto: se é necessário fazer o controle social (e sim, sabemos, é necessário) por que não fazem um cadastramento único, por profissional capacitado, com acesso informatizado e protegido pelo uso de senha?

Cada um olha para a casa do pobre com os olhos do seu universo, faz a sua análise e emite o seu parecer. Muitos já aproveitam a visita, ficam quinze minutos ali, não sentam nem no sofá, e se sentem capazes de orientar o dono da casa, pra não precisar voltar. Não faltam conselhos e "opiniões especializadas". Querem ensinar ao pobre como é o certo. Ora. Venham na minha casa às 15h de uma quarta-feira sem avisar e encontrarão cachorro solto, alguma louça suja em cima da pia, a sala desarrumada, o lixo por descer, um filho pulando no sofá, outro chorando no carrinho, uma pilha de roupas para lavar, outra para passar e outros tantos detalhes da vida cotidiana comum. Por sorte, descolo até um suco no copo de requeijão pra oferecer no meio do caos. Desafio não encontrarem problemas na casa de qualquer pessoa e não me refiro somente ao número de banheiros.

Cansados de tanta invasão, os chamados "pobres" ficam desconfiados, irritados com a chegada de estranhos. E quando então é essencial realizar uma intervenção profissional, as portas estão fechadas. Eles desistiram de acreditar em falsas promessas. Dizem, num misto de decepção e raiva: "não sei pra que tanta gente vem aqui, pergunta toda vez a mesma coisa e não nos ajuda a resolver nada". 

Entrar na casa dos outros não deve ser assim. Nossa casa é o nosso templo sagrado. Invadir a intimidade alheia só para coletar dados e dar uns pitacos é uma violência. E o pior, dados que não são usados pra muita coisa e orientações que não são fundamentadas e nem acompanhadas em seu processo de evolução. Se ao menos os tais relatórios servissem para subsidiar políticas públicas respeitáveis ao invés de apenas discussões isoladas para fins de discriminação nas instituições, talvez a realidade social do Brasil fosse mais promissora.

Caros colegas, tenhamos mais respeito. Não estamos a serviço dos nossos preconceitos. Não fazemos nossas escolhas pessoais em poucos minutos de conversa com desconhecidos, então não podemos conduzir desse jeito o destino dos outros. Não somos melhores. Não somos "Jedi", não podemos sentir a força. Vamos bater menos nas portas das casas dos pobres e mais nas das nossas chefias. Façamos bom uso das informações que nos são confidenciadas. Nada se transforma sem participação e não se participa da vida de alguém sem o devido tempo. Os hábitos mudam com a convivência. Não só os dos que visitamos, mas os nossos também. Se for pra entrar na vida de alguém, que seja para estar lá.

2 comentários:

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  2. É... o problema de ser pobre é a dependência excessiva do público... do paternalismo. Ao receber os "auxílio-assitência" da vida, o camarada parece estar entrado no BBB Pobreza, para o deleite dos servidores públicos de baixo escalão, que ganham uma merreca a mais que o famigerado investigado, mas que se sentem no direito de ali entrar e sair para "dar uma espiadinha". Fazer o que... o pay-per-view é caro! E não reclama senão vai todo mundo para o paredão!

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