terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Pressão



Força exercida sobre um ponto; influência ou ação sobre alguém. Mais um termo importado da física para o universo social. Somos constantemente pressionados por muitas razões. Temos uma espécie de protocolo social, um passo-a-passo de ações socialmente desejáveis - nascer, crescer comportado, namorar, noivar, ter estabilidade financeira, casar, ter filhos etc. O estranho é que ninguém segue esta ordem à risca desde o século passado, mas os outros insistem em fiscalizar e julgar a vida alheia. Adoro esta entidade: os outros.

"Os outros" se sentem no direito de dominar o mundo. Emitem suas opiniões, seus conselhos, suas cobranças. Têm uma língua afiada e vivem do prazer de criar situações constrangedoras. Estava eu pensando sobre a chatice da "pressão" porque estou numa idade em que grande parte dos meus amigos e colegas estão casados  (entre um a cinco anos). Comecei a perceber que muitos dos que não tiveram filhos passaram a expressar uma irritação pública diante de perguntas e comentários impertinentes acerca da chegada de rebentos.

Não é só porque o novo casal está feliz, já curtiu um tempinho de lua-de-mel, fez uma viagem ao exterior, comprou um apartamento e tem um trabalho rentável que precisa ter filhos! É tão óbvio que chega a ser ridículo escrever isso. Não passei por esse tipo de inconveniência porque engravidei pela primeira vez bem antes do tempo que os outros costumam considerar adequado, afinal não estava nem pensando em casamento e namorava havia apenas seis meses. Entretanto, como podem imaginar pelo meu breve relato, de constrangimento e pressão eu entendo.

Tenho visto por aí pessoas dando pontapés nos "outros". São respostas diretas, em tom bem grosseiro: "vai demorar muito ainda", "não estamos com a mínima pressa", "por que todos acham que qualquer novidade nossa tem que ser a vinda de um bebê?". Compreendo. Irrita mesmo ter que dizer mil vezes com educação. Chega uma hora que a pessoa cansa de fazer social - por volta de uns dois anos depois de explicar repetidamente e distribuir sorrisos amarelos sobre o assunto em festas, encontros, clubes, supermercados e afins. Até porque, em geral, entra na conta o tanto de gracinha a respeito da data do casamento que o casal aguentou na época de namoro. Saturados, em qualquer saia justa, um dos dois já dá logo uma tesourada nos dedos do enxerido e pronto.

Não sei qual é o prazer em infernizar. É como se as pessoas tivessem a obrigação de ter filhos; ou pelo menos a vontade de ter, pra ser aceitável. Os que não querem - por enquanto ou pra sempre - são vistos com demérito. São acusados de egoístas (no significado mais senso comum da palavra), dizem que as mulheres não querem estragar (sim, eu já ouvi essa palavra!) seus corpos, que vão se arrepender e blá, blá, blá. Grande bobagem.

Não é preciso gerar filhos pra ganhar maturidade. Aliás, é bem recomendável amadurecer antes de investir no aumento familiar. E conheço muita gente que teve filhos pelos motivos mais egoístas desse mundo: pra ter uma companhia, pra presentear o marido, pra manter ou salvar um casamento, pra ter alguém com quem possa contar na velhice, pra preencher um vazio, pra realizar um sonho. São inúmeros os argumentos que em nada demonstram o desejo de conceber a vida simplesmente pela vida, que não representam entrega, compaixão, amor pelo próximo. Falam somente de necessidades próprias.

Penso que quem decide não ter filhos e está consciente de suas razões é muito menos egoísta e mais responsável com o filho que não tem do que aqueles que produzem descendentes somente para não correr o risco de se arrepender mais tarde. Ter filho pra cumprir o protocolo não deveria servir de exemplo.

Infelizmente, a intromissão dos outros não para por aí. É um engano acreditar que só o fato de ter ou não filhos seja alvo das inquirições alheias. Quando os temos, o foco muda, mas o comportamento invasivo não. Querem nos ensinar como devemos exercer o novo ofício. Querem saber se já vai à escolinha, se foi batizado, quantas horas de TV ele assiste por dia, o que ele come, com quem aprendeu a falar palavrão, como fazemos para corrigir os erros, se tem babá, em que quarto dorme. Nenhuma dessas questões fica livre da atribuição de valor, é evidente.

Li uma matéria publicada hoje na internet revelando um resultado de pesquisa surpreendente: que as mães mentem sobre a criação dos filhos, por vergonha ou medo de comparação negativa. Criamos uma imagem de pais perfeitos e nos esforçamos para fingir socialmente que estamos bem perto de a atingir. Vivemos escravos da culpa e do fracasso. 

Sabemos que os outros não pagam as nossas contas, que não resolvem os nossos problemas, que não conhecem e não vivenciaram a nossa história. Sabemos que somos adultos, vacinados e que não devemos explicações. Sabemos que ninguém é tudo aquilo que tenta parecer que é. Sabemos que nossos heróis são seres idealizados, portanto não servem de referência. Sabemos o que queremos, o que podemos ter ou fazer, onde queremos chegar. Sabemos que vamos errar e que vamos nos arrepender em algum momento, independente das nossas escolhas. Sabemos que nunca agradaremos a todos ao mesmo tempo. Sabemos que as nossas cobranças internas são suficientes para nos roubar o sono. Não precisamos do crivo dos outros.

Por favor, entendam isso enquanto estamos sendo educados.

Um comentário:

  1. Olha... dizem que a média de filho por casal é de 1,uns quebrados!
    Até nisso o cara se lasca! Se tiver um filho, está contribuindo para a extinção da vida humana! Se fizer dois, é um irresponsável ambiental, que contribui para o aumento do desmatamento para o plantio e para a fome no mundo... É mole?

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