sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Voz



Som emitido pelos seres humanos. Uma característica pessoal e intransferível que nos permite, por exemplo, reconhecer instantaneamente alguém ao telefone ou saber quem está cantando uma música. Não entendo muito das propriedades da voz, então não me arriscarei a tratar disso. O que me interessa a escrever sobre o tema é pensar sobre o poder que a memória de uma voz tem dentro da gente.

É quase impossível lembrar de uma pessoa e não "ouvir" a sua voz. Desenrolando os fatos, os momentos, as risadas e as conversas do baú, lá estão as vozes trocando uma ideia. Sabemos identificar a voz nasalada de quem chorou há pouco ou está gripado, a voz tensa de quem está irritado, a voz nervosa de quem está ansioso, a voz entusiasmada de quem está alegre e a voz mansa de quem está em paz. A mesma voz que nos soa tão doce e meiga, às vezes se revela tão seca e áspera. Um suspiro, uma embargada, uma ou duas palavras bastam para que tudo se revele.

Quantos de nós não se entregaram aos sonhos (ou aos prantos...) ao ouvir uma voz. Nem sempre importa muito o que a pessoa disse. Aliás, provavelmente nós nem prestamos atenção. Ficamos hipnotizados pela voz, pela sensação que ela nos provocou.

Ao ler uma carta, um e-mail, ouvimos a voz do remetente. Podemos supor o tom, a modulação que usou para nos contar cada frase, em especial se conhecemos o autor. Quando não sabemos quem é o dono de uma voz, rapidamente criamos uma imagem para ele. Julgamos se é confiável, se é infantil, bobinho, sério, velho, jovem, bonito etc. Basta conferir o número de correspondências apaixonadas que os radialistas recebem.

A voz data também uma época. Ouvir o Cid Moreira me remete aos anos 80, quando eu criança odiava o Jornal Nacional. Meu pai me dizia: "xiiiiiii!", pra escutar o noticiário. Cresci detestando a hora do jornal. As vozes da minha infância são hilárias, todas mais poderosas do que a minha. Ao menos nas minhas lembranças.  

É, temos a nossa própria voz, de um jeito que só a gente escuta. É tão estranho ouví-la gravada; nem nos reconhecemos. Sei de gente que não grava um recado na secretária eletrônica nem por acaso, porque acha o resultado horrível. Fica ruim mesmo, mas não é culpa da voz. É que fica artificial, não sei explicar. A voz contempla tudo o que diz respeito a alguém, o que esse ser significa pra gente. Talvez por isso o medo de passar uma impressão errada.

Em meus atendimentos, as pessoas muitas vezes me revelaram que, em momentos de angústia, de incerteza, de remorso, de sofrimento, enfim, quando começavam a se consumir sozinhas em seus pensamentos, ouviam a minha voz e que isso as ajudava a considerar melhor o problema, estabelecendo um diálogo interno. Faziam até com a mão um movimento de abrir e fechar os dedos perto do ouvido, pra demonstrar a "vozinha" chegando. Não que eu tivesse dito palavras mágicas. Não raro era só a lembrança de uma voz que havia sido gentil, no meio de tantas outras vozes. 

Sei bem como é. Anos depois, ainda ouço a voz da minha querida terapeuta. Em situações de crise (sim, eu também tenho, né), logo começa a nossa conversa imaginária. Tanto aprendi com ela. De todas as suas sábias e bem encaixadas frases, sempre fico com a mais simples e determinante: "... E?". Aquele "E?" era mortal. Passava eu lá quase quarenta minutos falando alguma história que me parecia muito séria e sem solução e ela me desmontava assim. "...E?". Putz. "E" nada! Ora. Foi assim que aprendi a me livrar das preocupações inúteis.

Eis o poder da voz.
A voz nos consola, traz conforto e nos tira da solidão. A voz nos atormenta, inferniza e nos enche de culpa. Integramos à consciência as vozes de todos os nossos falantes. Tornamos as nossas vozes os nossos demônios e a nossa salvação. 

     

Um comentário:

  1. "I want you close I want you near
    I can't help but listen
    but I don't want to hear
    hear that voice again

    I want to be with you
    I want to be clear
    but each time I try
    it's the voice I hear
    I hear that voice again"
    (Peter Gabriel - The Voice Again)

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