segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O filho do meio




Não sei se em todas as famílias é assim, mas posso dizer que tive muitas vantagens por ser a filha do meio. Para obtê-las precisei aprender a usufruir apenas de uma coisa: do fato de que quem está no meio não chama muita atenção. Claro que é possível um filho em qualquer posição conseguir isso, mas o do meio vem com esse adicional de fábrica. Não significa que ele não seja considerado, amado ou percebido; ocorre que fica mais preservado das cobranças que recaem sobre os mais velhos e os mais novos.

Tive a sorte de não ser a primeira em nada na minha casa. Minha irmã mais velha tirou nota vermelha primeiro, apresentou namorado primeiro, fez vestibular primeiro, teve amigos complicados primeiro, enfim, abriu o caminho pra mim. Como nossa diferença de idade não é tão grande, fui sempre no embalo. Ninguém notou porque os olhares ainda estavam voltados para ela. Fora isso, cresci ouvindo a educação que fora a ela aplicada, portanto, meus pais não precisaram repetir pra mim. A diferença foi que o peso das regras não caiu sobre a minha cabeça. Fiquei só com a extensão, do tipo: 'isso também vale pra você!'. Não precisei fazer pra saber que não era pra ter feito, então escapei de ser punida e encontrei alternativas válidas com segurança. Enquanto eu corria pelas bordas, minha irmã precisava demonstrar desempenho, rendimento, bom comportamento. Eu era 'a pequena', era poupada para quando eu crescesse, embora estivesse crescendo.

Quando me tornei 'grande', meu irmão mais novo centralizou as atenções. Fiquei ali, no meio, camuflada. Sinceramente não entendo porque os filhos querem tanto chamar a atenção dos pais. Nada melhor do que crescer no meio, livre pra experimentar sem despertar muito cuidado ou interesse. Muito bom viver assim. Tive então a sorte de não ser também a última a fazer as coisas. Tudo o que o filho mais novo faz tem cara de despedida, ganha um tom dramático. É o último a sair de casa, o último a ter problemas na escola, o último a fazer vestibular, o último a namorar... É uma choradeira só. Se o primeiro fica amarrado pela disciplina, o último fica enroscado pelo afeto.

Estar no meio é mesmo a salsicha do cachorro quente. É a melhor parte. Aparecer demais tem um preço muito alto. São duas prisões: a reprovação, para os que não satisfazem; ou a necessidade de satisfazer sempre, para os que cumprem os padrões.    

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Entre mães


Querida Mãe Colega,

De todas as coisas que deveriam ter sido ditas, a principal me faltou na ocasião. Estou com essa frase engasgada. Não consigo nem dormir, estou irritada. Preciso lhe dizer apenas que pare de se culpar e que não culpe seu filho. Não se acostume a ser agredida por pessoas incapazes de se solidarizar com você. Não aceite nunca, em circunstância alguma, que seu filho seja desrespeitado. Não abaixe a sua cabeça. Não dê explicações. 

Somos obrigados a conviver com pessoas que pensam ser superiores. Tem gente que não reconhece e não sabe trabalhar as próprias fraquezas. É sempre mais fácil julgar o outro, tratá-lo como pior. Sabemos que seu filho não é uma criança mal-educada, como talvez alguns queiram fazer parecer. Cada um tem o seu tempo e ele está se desenvolvendo no ritmo dele. Não podemos mudar isso e não devemos nos aborrecer por ser assim. Todos temos as nossas limitações. Não há motivo para vergonha ou culpa.

Não permita que invadam o espaço da sua vida privada. O que acontece na sua casa, na sua forma de amar e de cuidar de seu filho não é da conta de ninguém. Você não precisa bater nele para mostrar ao mundo que está tentando fazer algo. Não o machuque para atender aos caprichos dos outros. Não existe uma receita mágica. Não há somente uma forma certa de ensinar. É preciso que você, tal qual qualquer outra mãe, procure novas maneiras que funcionem com o seu filho. Seja paciente com você. Seja paciente com ele. Não se acostume com a intolerância, com o julgamento superficial das pessoas. Não permita que esse tipo de agressão externa interfira na sua relação com o seu filho.

Estamos falando de uma criança de três anos. Veja: três anos! Nada do que o seu filho faz escapa do que as outras crianças fazem. A diferença é que nele esses comportamentos ocorrem com maior intensidade e frequência e, se entendi bem, há uma explicação neurológica para tanto. Significa dizer que há uma força maior que dificulta ao seu filho controlar os impulsos. Não podemos desconsiderar esse fator. Por mais que você faça, essa condição está presente e não se trata somente de vontade para eliminar seus efeitos. Seu filho está em tratamento. Você está fazendo tudo o que está ao seu alcance. Repito: a culpa não é dele e nem sua, existe um quadro clínico que interfere no comportamento dele.

Precisamos parar de julgá-lo pelo comportamento 'inadequado' na escola e começar a pensar em técnicas que possam ajudá-lo a interagir melhor com a turma. Incluir uma criança que exige atenção diferenciada implica em oferecer a ela uma atenção diferenciada. Lamento muitíssimo pelo que você ouviu na última reunião. Lamento muitíssimo não ter conseguido dizer lá tudo o que estou a escrever agora. Fiquei revoltada por você, senti-me ofendida por você. Meu filho foi agredido pelo seu e estou também em uma situação complicada, mas não fui até à escola para exigir explicações suas. Tenho certeza de que assim como eu, você também precisava de explicações. Penso que as crianças têm o direito de receber proteção e incluo o meu e o seu filho juntos nisso. Destaco: o seu filho também tem o direito de estar protegido na escola. Se ele está a agredir intensamente e com muita frequência outras crianças no ambiente escolar, no caso em que estamos, a culpa não é dele. No mínimo, faltou monitoramento.

Uma vez que a escola se propõe a receber um aluno, ela deve tomar todas as medidas de proteção necessárias para atendê-lo imediatamente. Infelizmente, do meu ponto de vista, isso não aconteceu e aí está a causa da maior parte dos problemas que ocorreram nessas primeiras semanas. Quando monitoramos uma criança, podemos prever boa parte de seus comportamentos. Costuma haver um padrão de ação. É preciso conhecer a criança, estar atento e próximo para evitar que o comportamento ocorra. Agindo com antecipação, ajudaremos seu filho. Acredito que ele não fique orgulhoso por machucar os colegas. O fato de que ele apresenta dificuldade para expressar suas emoções de uma forma mais adaptativa não significa que ele não tenha emoções. Como todos nós, ele também sofre. Não acho correto que ele comece a apanhar dos colegas. Isso não resolve o problema, apenas muda o foco.

Seu filho não age impulsivamente porque quer. Não basta aplicar somente a punição para ajudá-lo. Se conseguirmos interceptar a ação agressiva antes que ela se concretize, ele ganhará em segurança o tempo necessário para desenvolver neurológicamente a capacidade de autocontrole. Terá, desse modo, a oportunidade de aprender a usar outras habilidades para se comunicar com os colegas. Não podemos permitir que ele seja rejeitado e agredido pela turma. Precisamos protegê-lo na escola, não culpabilizá-lo.

Não podemos exigir de uma criança mais do que ela esteja apta a desempenhar no momento. Ficaremos frustrados e a criança ficará frustrada, o que prejudicará a motivação para a melhora. É como oferecer um brinquedo recomendado para uma criança de dez anos a uma de dois anos; se ela não se desinteressar por não o conseguir usar, provavelmente irá quebrá-lo. Seu filho dá sinais de que ainda é muito difícil para ele controlar os impulsos agressivos na sala de aula. Não podemos ainda exigir que ele faça isso sozinho.

Devemos ajudá-lo a progredir, reforçando seus comportamentos mais adaptativos e ensinando-o, dentro da escola, como fazer para obter o que deseja de uma maneira mais adequada. É preciso ajudá-lo a nomear as ações, para que não precise colocá-las em prática. Se a monitora captar uma intenção de ação inadequada, poderá intervir e mostrar como deverá ser praticada. Por exemplo: a criança percebe uma atenção da professora para outro aluno e fica com raiva. Pouco depois, segue em direção àquele aluno com a intenção de o agredir. Se o monitor capta essa relação e percebe a movimentação da criança, pode interceptá-la e dizer: "você ficou com raiva do colega porque a professora deu atenção a ele e não a você, mas você não pode bater nele por isso. Podemos chamar a atenção da professora de outro jeito. Vamos até lá e conversar um pouco com ela". Pronto. Uma agressão a menos. Uma habilidade a mais.

Não é errado que a criança tenha sentimentos que consideramos "feios". Devemos respeitar qualquer tipo de sentimento. Devemos estabelecer o limite é para a ação. Sentir raiva de alguém não me autoriza a bater nessa pessoa. Aprender a verbalizar sentimentos e intenções poderá ser a chave para reduzir os comportamentos agressivos. Toda mudança é um processo e requer treino, tempo e motivação.

Sugestão:
Observar e identificar quais os fatores que desencadeiam a ação agressiva e desenvolver estratégias para neutralizá-los na escola. A identificação desses fatores permitirá a antecipação e a intervenção do monitor. É recomendável fazer o registro das observações diariamente, ao longo de um mês, para depois estudar o padrão de comportamento da criança.

Dica: anotar em uma planilha o dia, a hora, o que aconteceu imediatamente antes da ação, a ação propriamente, e o que aconteceu imediatamente após a ação. 
 

 

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Coisa de Mulher



Da portuguesa Ana Oliveira (ilustrana.blogspot.com). Sensacional. Vale conferir o blog.

Gente Insolente


'Alô! Aqui é o Secretário Arrogante do D-O-U-T-O-R Advogado'.

Tem cachorro que morde com os dentes do dono.
Afffff...

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Ela é comprometida


Todas as tardes a vejo passar.
Sorrio. Procuro ser discreto.
É sempre difícil, mas tento evitá-la.
Juro que tento, até em pensamento.

Não a posso esquecer.
Queria que fosse só minha.
Soa tão doce: minha pequena.
Mas minha não pode ser.

Cheguei tarde. Como é a vida.
Eu a faria feliz, não fosse
O meu querido amigo.
Que não sabe o quanto a quero

Bem.

Prefiro poupar-nos.
Sofro apenas eu assim.
Guardo em segredo
O meu amor numa caixa
Com os retratos furtados.

Registro todos os seus momentos.
É um pretexto para estar em sua vida.
Fico encolhido, no cantinho, quieto;
Escondido atrás das lentes.

Filmo seus passos, fotografo.
Suas imagens são a minha companhia de domingo.
Os filmes são a única coisa que nos pertencem.
É bom compartilhar algo, poder dizer que são 'nossos'.
Meu e seu. Eu dividiria tudo, para dizer muitas vezes isso.
Sua presença traz vida à minha casa.
Dá um toque feminino.

Ela não me vê. Não como eu a vejo.
Mas tem um olhar que me desmonta.
Eu a observo de perto.
Conheço cada tom do seu riso.
Sinto o movimento de seu corpo
Sem nunca tê-lo envolvido.

Fico a admirar seus cabelos.
Posso senti-los a escapar entre meus dedos.
Como no dia em que os afastei de seu rosto,
Em um breve instante de descontrole,
Quando o vento insistiu em me provocar.

Tão perfeita, tão linda, tão longe.
Se soubesse o quanto dela há em mim.
Talvez nunca mais me encontrasse.
Tão perfeita, tão linda, tão fiel.

Sou um homem apaixonado.
Não sou correspondido.
E isso já não me preocupa.
Meu sentimento me basta.
O amor é para ser doado,
Ele alimenta a quem o cultiva.
Eu o faço de coração.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O melhor abraço



Nunca fui água morna. Penso demais, sinto demais, falo demais. Vivo intensamente, mas às vezes travo. Por força de qualquer motivo que me atinja, congelo. É um efeito paralisante que me distancia, causa-me um bloqueio. Frequentemente, impulsiona-me a eliminar pessoas da minha vida.

Foi o que quase aconteceu com o meu pai. Nunca houve propriamente um fato que nos afastasse. Talvez tenha sido apenas a nossa incapacidade de saber conversar. Era como se não falássemos a mesma língua. Na verdade, nós tínhamos diferentes formas de pensar e pouco respeito pela opinião um do outro. Desde a infância eu o desafiei. 

Meu pai sempre esteve presente, mas muitas vezes não senti a sua presença. É um bom pai e sei que faria qualquer coisa por mim ou pelos meus irmãos. Eu também sou uma boa filha. Fui desobediente, independente, ousada, sei que o decepcionei em alguns momentos. Apesar disso, posso dizer sim que sou uma filha leal.

Na adolescência, naturalmente, abriu-se um abismo entre nós. Ficávamos muito tempo sem nos falar, eu estava morando fora e falava mais com a minha mãe. Sabíamos que estávamos bem, mas pelos outros. Embora soubesse da vida difícil que ele havia levado, eu era tola e jovem demais para entender o peso das marcas de um passado. Eu pensava na minha vida, que era feita de muito poucos anos. As discussões foram cessando. Viraram silêncio.

Vivemos uma Guerra Fria, pautada por ações simbólicas. E assim foi. Durante muito tempo, tive medo de que meu pai morresse. Não apenas porque sentiria sua falta, mas principalmente porque temia perder a oportunidade de um dia voltar a ter o meu pai. Ter um pai era para mim a expectativa de uma relação que eu não sabia viver. Eu chorei, por muitas e muitas vezes, a sua falta em vida.

Não o estou culpando. Longe disso. Estou somente dizendo quanto tempo perdi lamentando não ser a filha ideal de um pai ideal. Perdemos mesmo muito tempo. Tivemos a sorte de chegarmos vivos para mudar essa situação. Estávamos lado a lado, porém isolados em nossos afetos.

No dia de um dos meus aniversários, há não muito, nós assinamos o nosso tratado de paz. Foi um acordo sem nenhuma única palavra. Ao contrário de todos os outros aniversários, naquele eu não ganhei presentes de minha família. Não sei se as pessoas se esqueceram, se estavam atarefadas ou se não se importaram com isso porque sabem que eu não me importo. O fato é que não ganhei nada. Eu estava na casa de meus pais e me preparava para viajar, logo após o almoço. 

Minha mãe havia saído, estava só o meu pai. Fui me despedir. Pela primeira vez em muitos anos, nós nos abraçamos. Quero dizer que nos abraçamos de verdade, sabe, tipo, de coração. Foi realmente como se nossos corações tivessem se encontrado. E choramos como estou a chorar agora, porque esta história me emociona. Nós nos reconhecemos e nos perdoamos. Pude dizer a ele, com a voz embargada pela falta de prática, que eu o amava. Essa foi a frase mais sincera que eu já disse a ele até hoje.

Minha mãe me perguntou depois o que havia acontecido, porque meu pai havia chorado o dia todo. Choramos porque nascemos um para o outro naquele exato instante, como pai e filha. Passamos a existir um no outro, tal como somos.

Desde então, não mudamos não. Eu continuo a ser a mesma filha e ele o mesmo pai. A diferença é que agora ele é o meu pai e eu sou a filha dele. E que já estamos dois velhos rabugentos.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Farsante



Farsante! É o que és! Farsante!
Agora te defendes como uma inocente.
Dizes que nunca me enganaste!
Ora. Por que aceitaste todos os elogios,
Se sabias que não te serviam?
Por que recostou-te em meu peito,
Se sabias que não me serias grata?

Então afirmas que a culpa foi minha?
Tens a coragem de dizer isso a mim
Que te cobri de afetos,
Que te adornei com jóias,
Que te devotei encantos.
Entreguei em tuas mãos a minha riqueza.

Dizes que não mentiste?
Traidora! Meretriz!
O que deveria eu pensar?
Que eras uma ordinária?
Que estavas a me fazer de tolo?

Não! Nunca! Eras a mais bela pérola.
Eras para mim um anjo perfumado de jasmim!
Tinhas o brilho recatado de um sol poente.
Tiveste de mim os melhores olhos do mundo.

Se te dei as mais apreciadas qualidades,
Foi porque me fizeste crer que as serias digna.
Se proclamei teu nome entre os meus,
Foi porque amei a ti como a uma mulher honesta!

Quanta desonra! Desalmada! Depravada!
A vergonha que infligiste à minha família
Não se apagará nem com os séculos.
Estava cego, fui ludibriado!
Não me chames mais de amor!

Não tentes mais contra mim.
Sabes que tenho um coração bom.
E sabes que apesar de toda a dor
Que tu me causaste impiedosamente,
Ele pertence a ti.

Não tentes me convencer.
Por favor, eu imploro.
Deixe-me em paz.
Lamento estar vivo
Para saber da verdade.

Sabes que pior do que a tua traição
Será para mim a tua partida.
Estou atormentado pela tua ausência.
Por saber que nunca foste
Aquela a quem tanto desejei
E que nunca mais a terei em meus braços.

Entreguei a ti o sobrenome de meu pai.
Tu me traíste. Tu me enganaste!
Traíste a todas as minhas gerações.
Foste a semente mais amarga e podre
Que essa terra teve semeada.

Que o mal te acompanhe,
Para que ele me deixe.
Enterre contigo o meu perdão.
E carregue o sofrimento que me consome.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

O dia mais feliz da minha vida



O dia mais feliz da minha vida não foi o da minha formatura, nem o do nascimento dos meus filhos, nem o da minha primeira contratação, nem o do primeiro encontro com o meu grande amor. Todos foram, evidentemente, os dias mais especiais, porém repletos de insegurança e expectativa. Foram dias absolutamente importantes, mas estavam dentro do previsto. Eram experiências que eu em algum momento havia imaginado pra mim.

O dia mais feliz da minha vida ocorreu assustadoramente assim, sem aviso, sem programação. Inesperadamente. Poderia ter sido um dia como outro qualquer, mas foi perfeito. Havia no sol um brilho diferente. Saímos para uma escalada. Eu, meu querido e recém-conhecido amigo Rian e mais dois de seus amigos que eu não conhecia. O destino, a praia de Zimbros. Ou melhor, um pico muito alto que permitia uma visão deslumbrante da praia de Zimbros.

Foi incrível. Pessoas muito agradáveis, tempo bom, lugar paradisíaco, atividade radical.  Isso aconteceu em uma fase da minha vida que eu deveria ter eternizado. Zero compromisso, zero preocupação. Carpe diem. Uma época em que tudo o que eu tinha cabia dentro de um pequeno carro e podia ser carregado ou deixado com a mesma facilidade. A primeira palavra daquele dia: desapego.

Eu e meu instrutor Rian saímos cedo. Começamos com a preparação do equipamento, compramos os últimos detalhes. Buscamos nossos companheiros. Seguimos o nosso caminho em um papo despretensioso e divertido. Não lembro o que dizíamos. A segunda palavra do dia: sensação. Chegamos a um morro bem alto. Eu disse bem alto. Paramos o carro e entramos na trilha. Agregamos ao grupo um pequeno mascote, um cachorrinho que se agradou da nossa companhia e resolveu ir junto mato adentro.

Lá estava eu, com três pessoas e um cachorro praticamente desconhecidos, sem saber pra onde estava indo e muito menos como seria o que eu iria fazer. Por estranho que pareça, eu estava me sentindo segura. Quando disseram 'chegamos', tive a impressão de não ter chegado a lugar algum. Ainda estávamos no meio do nada. Aguardei. Os meninos (que eram escaladores) foram instalar os equipamentos pelo lado de cima, mas não sei bem explicar como isso aconteceu.

Chegou a minha vez, pensei: 'tá tudo muito bem, tá tudo muito bom, mas acho que não vai dar'. Olhei para cima: uma fenda de 20 metros. Calcei uma sapatilha superapertada, coloquei os equipamentos de segurança. Passei o pozinho na mão. Recebi as instruções. Prendi as mãos na pedra, depois engatei os pés e dali em diante minha tarefa seria continuar a fazer isso até chegar ao topo. Tudo o que eu tinha a fazer era encontrar um jeito de subir por mim. Foi mais ou menos como eu fazia quando criança, ao escalar pela passagem da porta, ouvindo a minha mãe gritar, desesperada: 'menina, desce daí, vai cair!'. A diferença era que eu não era mais uma criança e que a minha mãe nem sonhava onde eu estava. O movimento do corpo era familiar. Disseram-me que estava registrado na tal 'memória corporal'. Pode ser.

Digam-me: o que poderia ser pior do que estar sozinha, agarrada a uma rocha, muitos e muitos metros acima do chão, com o mar embaixo? Sim, cair dali. Minha vida estava presa à cintura de uma pessoa que eu nunca havia visto antes. Estávamos todos ali, um pelo outro. Terceira palavra do dia: confiança. E eu caí. A profecia materna se concretizou. Nesse caso, entendam cair como ficar pendurada pela corda, não como se esborrachar na pedra. É uma diferença sutil, mas deve ser considerada. 

Pensei que estivesse tudo sob controle. Com dificuldade, estava fazendo tudo certo. Eu só não contava com um detalhe. Eu chegaria ao limite e não sabia prever quando isso iria acontencer. De repente, perdi o controle do corpo, da mente. Segurei com todas as forças, até o último segundo. Fui traída pelas minhas próprias mãos. Eu tentei, tentei pela preservação da minha vida, mas meu corpo não me obedeceu. Caí. Não suportei o peso de ser eu mesma. E foi a melhor coisa que me aconteceu.

Morri por uma fração de segundos, sem me despedir, sem esperar, sem perceber. Perdi a noção. Entreguei-me, estava leve e mole a me balançar. Sorri. Respirei. Vi onde estava. Eu havia fracassado, mas ainda estava viva, sã e segura. Ao som de muitas palavras de apoio e incentivo, agarrei novamente a pedra e subi. Subi de verdade. Eu havia passado pelo pior que poderia acontecer. Perdi o medo e me diverti. Meus colegas diziam: 'Você está bem! Continue! Você está indo muito bem! Você está segura! Veja como é lindo aí de cima!'.

Poucas vezes estive tão inteira em uma ação. Estava concentrada em todas as sensações. Senti corpo e mente conectados de uma forma que nunca mais fui capaz de sentir. Do topo do meu pequeno universo, eu descobri a paz. Foi o dia mais feliz da minha vida. Uma felicidade simples, pura, de dentro. Única.

     

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Correntes


Liberta-me
Das dores e das alegrias
Dos ódios e dos amores
Que fazem minha terra tremer.

Liberta-me
Porque estou desabado
Sou um escravo sem serventia
Sou um traidor.

Liberta-me
Dos meus pecados e das minhas benevolências
Do que acredito e do que não sei.

Liberta-me
Porque sou um sonho vão
Sou um velho fio de adaga
A mastigar a própria carne.

Liberta-me
Dos meus pensamentos indecentes
Dos meus desejos impuros
Das minhas íntimas lembranças.

Liberta-me
Porque sou uma sombra
Sou o espectro do homem que deveria ser
E sou só.

Liberta-me
Da desgraça e da fortuna
Das expectativas e das lamentações
Daquilo que não posso ter.

Liberta-me
Que não sou digno de abrigo
Porque não valho um tostão
E não me reconheço.

Liberta-me
De tudo o que sou
Do que fui e do que jamais me tornarei.

Solta-me das correntes.
Para que então eu possa
Viver.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Trote


Sou uma vítima constante de trotes telefônicos. Não posso nem reclamar porque deve ser uma prática da justiça mundana, aquela do "aqui se faz, aqui se paga". Fui uma criança arteira. Confesso que passei muito trote na vida, na época em que ainda não havia a tal da bina.

No porão da minha casa tinha uma saída telefônica que ninguém usava. À tarde, escapava pra lá com um velho aparelho de telefone verde, daqueles de discar, plugava ali e começava.

"Alô! A Ana está?" - Perguntava.
"Não, não é da casa da Ana". - Respondiam.

Eu então ligava mais umas duas ou três vezes para o mesmo número, perguntava a mesma coisa e ouvia a mesma resposta, de uma pessoa cada vez mais impaciente.

Por fim, ligava a última vez e dizia:

"Alô! Aqui é a Ana, deixaram algum recado pra mim?". Paft. Desligava.

O que me surpreende é que hoje em dia recebo trotes de adultos, isso é o que não entendo. Com conhecimento de causa, sei que passar trote é coisa de quem não tem o que fazer.

Tocou o meu celular à tarde e fui logo atender. Um homem perguntou: "Alô! Esse telefone não é do super-homem?".

É sim, seu palhaço, aqui é a Louis Lane. Quer deixar recado?

Metamorfose



Mudar é sempre uma tarefa difícil. Qualquer mudança exige desprendimento e envolve, em geral, gasto, adaptação e risco. Talvez o risco seja o elemento de maior peso, ao menos para a maioria das pessoas. Temos medo de que algo saia do planejado, de ter algum prejuízo, de não dar certo. A questão é: valerá a pena?

Mudamos muitas vezes na vida. Trocamos de carro, de cidade, de namorados, de casa, de corte de cabelo, de opinião, de estilo, de escola, de amigos, de fase de desenvolvimento. Mudamos internamente. Entretanto, cada mudança é única, por isso é como se fosse sempre a primeira vez. Durante muito tempo pensei que o nosso maior medo fosse o de chegar a uma situação pior, mas eu estava enganada. Vou contar uma história para vocês.

Eu ainda era uma estagiária quando pude acompanhar o dilema de um rapaz. Ele tinha esclerodermia desde a infância, o que ocasionou uma grave deformidade em parte de seu rosto. Segundo ele, o problema havia começado aos cinco anos, quando uma pequena mancha apareceu na bochecha. O quadro evoluiu e os ossos do lado esquerdo da face foram se degenerando, projetando o globo ocular para fora. A mancha se alastrou por toda a metade do rosto e transformou a coloração e a textura da pele, que ficou com um aspecto de cera.  

Após tantos anos de sofrimento por causa de sua aparência, finalmente ele havia conseguido a oportunidade de realizar um tratamento, que incluiria procedimentos cirúrgicos, dermatológicos, ortodôndicos, dentre outros. Estava feliz, tudo parecia bem. Porém, com a proximidade da data da cirurgia de reconstrução óssea, a ansiedade também se aproximou. Chegou ao desespero. Ele passou a boicotar o tratamento e tentar adiar ou cancelar a cirurgia. Estava desistindo.

Foi assim que o conheci. Os médicos já não tinham mais o que dizer para tranquilizá-lo. Tudo já havia sido explicado e entendido, mas ele não conseguia progredir. Embora fosse um procedimento com alto risco de rejeição, não era isso que o preocupava. Tampouco estava apreensivo com a anestesia, com a dor ou qualquer outra complicação pós-cirúrgica. Ele não estava com medo de morrer ou de que a cirurgia não desse certo. Sentou-se à minha frente e revelou, entre lágrimas e vergonha, o que secretamente tanto o atormentava:

"Eu não sei ser um homem bonito."

Ele estava com medo de ser desejado, cortejado. Não que estivesse satisfeito com o rosto desfigurado, mas havia enfrentado todas as situações de sua vida com ele. Sentia-se seguro, sabia o que esperar, sabia como lidar com a sensação de despertar o espanto e a repulsa. Tinha o amor de muitas pessoas, mas não sabia o que era ser desejado como homem. Não sabia o que era ser socialmente aceito, passar sem ser notado, não sabia como continuar sendo aquele que sempre fora, mas de uma nova forma. Ele tinha medo de se transformar naquilo que ele chamava de 'melhor'.

Realmente, o lado preservado de sua face era muito bonito. Em sua simetria, seria um rapaz atraente. Estávamos até então pensando somente em reparar o seu rosto. Esse era o problema. Não poderíamos avançar sem considerar que ele havia construído a sua autoimagem focado no defeito, na destruição, na descaracterização humana. Seríamos tolos se acreditássemos que, ao acordar da cirurgia, tudo estaria resolvido.

Ser desejado pode ser tão difícil quanto ser rejeitado, porque integrar eventos e sentimentos contraditórios em nossa história de vida é complicado. É como se tentássemos entremear um trecho de um discurso de abandono em uma carta de amor. Não basta 'recortar' e 'colar', não encaixa. É preciso alterar a narrativa para que faça sentido.

Não pude ficar por lá tempo suficiente para saber o que aconteceu com ele. Espero que tenha sido feliz em suas escolhas. Assim como ele, todos nós, em algum momento, estivemos entre a vontade, a dúvida e a recusa de nos tornarmos 'melhores' do que sempre fomos.      

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Bicho Carpinteiro



Dizem os estudiosos das expressões correntes que o 'bicho carpinteiro' era uma designação simbólica para alguém que, de tão inquieto, parecesse estar com 'bicho no corpo inteiro'. Com o uso, a denominação foi sofrendo modificações em sua estrutura até chegar ao bicho carpinteiro, que de marcenaria não entende nada.

Seja como for, o tal do bicho carpinteiro volta e meia me ataca. Tudo bem. Eu reconheço que isso acontece todos os dias, várias vezes. Há anos. Não sei bem explicar. É uma súbita e recorrente ideia fixa de ir embora. Estou a fazer qualquer coisa, inclusive agradável, quando de repente surge aquele pensamento. Quero ir embora. Parece um mantra.

Não é exatamente uma vontade de ir embora, acho que é só um desejo de ver o mundo. Ou, sei lá, de ficar no modo standby, sair do corpo que não acompanha a mente. Talvez para resolver essa inquietação algumas pessoas recorram à meditação, mas eu prefiro me mexer mesmo. Fico sempre com a sensação de não pertencer a lugar nenhum. Mórbidamente, preocupa-me o que será de mim depois da morte. Não pela alma. Fico pensando na minha matéria, na minha história. Onde ficará registrada? Até quando? Eu quase nada sei sobre meus avós, pouco convivemos. Meus pais pouco falam deles. Contam lá uma ou outra passagem, comentam alguma característica marcante, algum episódio curioso. Sinceramente, eu pouco sei sobre meus pais e nós convivemos bastante.

Claro que coletivamente nossas ações transformam uma época, mas, isoladamente, em não muito tempo boa parte do que me é importante não terá o menor sentido. Ninguém lembrará, ninguém nem vai saber. Acho que a gente supervaloriza aquilo que faz da vida. Quando permaneço um período muito longo parada, começo a perder a dimensão do universo. O meu pequeno círculo passa a ser a minha única referência e acho que isso sufoca e aciona o bicho carpinteiro, pra oxigenar o meu cérebro.

Ainda não conheço muitos dos recantos da Terra, mas o suficiente para saber que as pessoas vivem de formas muito diferentes. Não precisamos ir muito além do nosso bairro para perceber isso. Espiando a casa do vizinho já dá pra notar, na verdade. Imagina se trocarmos o idioma, a história do país, as questões culturais, as condições políticas e sociais...

Todos os dias, por alguns segundos, eu tenho vontade de ir embora, como se alimentasse fantasiosamente a possibilidade de estar em todos os lugares. Eu deveria dizer ir 'afora'. Sair do meu campo particular, da minha esfera, dos meus detalhes. Não sei se essa é uma sequela da modernidade, mas acredito que, seja qual for a sua origem, não sou a única vítima. 

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Conflito



Há alguns anos, quando eu ainda mais jovem estava a fazer um monte de escolhas erradas - tal como qualquer outra jovem contemporânea -, cheguei a uma situação em que precisava tomar uma decisão definitiva que, por certo, mudaria minha vida. 

Embora fosse jovem, não era mais nenhuma menina, devo confessar. Já tinha meus vinte e poucos anos, trabalhava, deveria ter, em tese, um pouco mais de discernimento. Foi então que, diante do problema, em uma nada estranha sensação de não saber o que fazer, viajei até Porto Alegre para uma consulta de emergência com a psicanalista que me acompanhara no passado.

Cheguei ao consultório com vergonha. Sim. Eu tinha consciência do ridículo de estar ali, naquelas circunstâncias. Já até sabia o que ela iria me dizer, mas eu precisava ouvir. Então, depois de tanto tempo sem entrar naquela pequena sala de espera, senti-me como se nunca tivesse deixado de estar ali. Estava tudo como sempre esteve. Menos eu.

Enquanto aguardava, rolava uma musiquinha ambiente e eu me concentrava no cheiro perfumado que era característico daquele lugar. Mais do que isso. Era um cheiro que estava marcado em mim, que era único e que imediatamente me fez sentir em casa.

Como de costume, Liz abriu a porta e me cumprimentou, como se tivéssemos conversado anteontem. Essa foi a impressão. Sentei no 'meu' lugar e ela me perguntou, até sem muita surpresa, por que eu havia voltado. E então comecei a despejar os meus conflitos todos, sem poupar nenhum detalhe. Quase ao final da sessão, quando eu já havia dito muito mas nem a metade do que desejava, ela interrompeu-me e perguntou com aquela delicadeza que lhe era peculiar (apesar de já ter desatado aquele nó desde os primeiros cinco primeiros minutos):

"Deixe-me ver se entendi. Você está me dizendo que está vivendo como se estivesse dirigindo um carro em alta velocidade, que já furou todos os sinais vermelhos e que veio até aqui para que eu possa parar você?".

Pensei: "bingo!". Ui, que alívio. Era só o que eu precisava. Que alguém me entendesse. Ela não disse mais nada. Eu nunca mais voltei (não por falta de vontade, mas porque infelizmente moro longe demais mesmo).

Com aquela pergunta, que era uma daquelas capazes de decifrar os enigmas da esfinge, entendi o que precisava fazer. E fiz. Tomei as rédeas da minha vida. Fiz o que precisava fazer.

Até hoje fico pensando por que diabos às vezes não conseguimos interromper um curso torto, que nos emite todos os sinais de que não dará pé. Furamos todos os sinais. É exatamente isso. Ficamos incapazes de aceitar a realidade que se joga no nosso colo sem disfarces. Tentamos mascará-la. Nós fazemos isso, não os outros. Nós nos enganamos.

Termino este post com um dos meus trechos preferidos de Oscar Wilde:

"É preciso que eu diga a mim mesmo que fui o único responsável pela minha ruína e que ninguém, seja ele grande ou pequeno, pode ser arruinado exceto pelas próprias mãos".   

Cafezinho



O cafezinho é uma bebida bastante popular entre nós brasileiros. Frequenta as rodas mais variadas e circula com a mesma desenvoltura em eventos importantes, botecos, fofocas entre vizinhos, assuntos de família e salas de espera por aí afora. O que acompanha o cafezinho (não, não é o cigarro!) é o seu toque aconchegante, acolhedor.

Estava tomando sozinha a minha xícara de café esta manhã e me lembrei de uma história de quando eu trabalhava em um programa de acolhimento de crianças. Na época eu acompanhava uma pequena e doce menina de 6 anos, que vinha de uma vida de muito sofrimento e abandono. Estávamos em uma fase crítica de encaminhamento para a adoção, visto que todos os demais recursos haviam se esgotado. Ela passou aquele dia inteiro comigo, antes que eu a entregasse nas mãos daqueles a quem ela passaria a chamar de família. Fomos passear na praia, fomos brincar no parquinho. De todo aquele universo de incertezas, do medo do que seria feito do seu futuro, do alto dos seus tão poucos anos e de tantas vivências, ela apenas olhava o dia com aqueles enormes olhos verdes assutados. Por alguns instantes, seu rosto se iluminava. Aparecia um sorriso que me dava a certeza de que sim, era uma criança que estava ali, mas não sou capaz de descrever a mistura de emoções que pude ver naquele rosto.
Quando então perguntei o que poderia fazer por ela, vi seu corpo franzino se encolher, sua cabeça se abaixar e sua voz delicada e receosa pedir: "tia, posso tomar um cafezinho?". Isso era tudo o que ela queria de mim naquele momento. Perguntei, sem entender bem: "Você quer um cafezinho preto?". Ela disse: "Sim!". Tudo bem. Ofereci a ela um copinho de café. Foi quando ela me explicou:

"Quando eu estava com a minha mãe, era o que a gente tomava".

Entendi aquele ritual como um tipo de despedida, uma passagem. Por mais que fosse também um hábito, ela poderia ter pedido um pirulito, um sorvete, uma bolacha. Pediu um cafezinho. Um cafezinho preto, o que é pouco usual em crianças da idade dela. Poderíamos inferir tantas coisas dessa simples explicação que me fora dada... mas hoje não vou tecer comentários.

Fica só uma saudade. Uma lembrança. Uma história. Um cafezinho.  

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Primeira impressão




Diz a lenda que a primeira impressão é a que fica. Em muitas situações, temos que concordar, é bem verdade. Já que acordei impregnada de espírito acadêmico, tentarei então aplicar o aporte teórico da Teoria da Relevância (TR) para explicar esse fenômeno.

Façamos uma breve revisão teórica (dói, mas será mesmo breve).

De acordo com a TR (para outras informações ver Sperber e Wilson - 1986 e 1995), a comunicação humana é guiada por dois princípios gerais, um cognitivo e um comunicativo. Por força da natureza de nosso sistema cognitivo, nossa mente busca espontaneamente a maximização da relevância. Supõe-se, portanto, que os enunciados produzem expectativas precisas de relevância, visto que o comunicador pretende ser compreendido e emite um estímulo ostensivo com este propósito.
A relevância é o equilíbrio que se constitui na relação custo-benefício entre os efeitos cognitivos e os esforços de processamento gerados por um input (enunciado, pensamento, lembrança, imagem, sensação...), tal que, em condições iguais, quanto mais efeitos cognitivos e menos eforços de processamento despendidos, mais relevante.
Os efeitos cognitivos são aqueles capazes de produzir uma modificação ou uma reorganização em nosso contexto cognitivo, quais sejam: o fortalecimento das suposições existentes; a contradição das suposições existentes; ou a derivação de implicações contextuais. Significa que atribuímos maior relevância a inputs que nos acrescentam mais por um esforço menor, salvo se o maior esforço for compensado por um ganho adicional.
Se o comunicador pretende ser compreendido, então emitirá o estímulo do modo mais relevante que for capaz ou estiver disposto a fazer. O receptor, por sua vez, entenderá que se o comunicador tentou atrair a sua atenção é porque tem algo de relevante a informar. O mecanismo do processo de compreensão guiado pela relevância deve, então, seguir um caminho de esforço mínimo na computação de efeitos cognitivos, considerando hipóteses de interpretação (desambiguações, atribuições de referências, suposições contextuais...) por ordem de acessibilidade; e parar quando alcançar o nível esperado de relevância, ou seja, uma interpretação que pareça a única possível.

Em outras palavras, quando estamos diante da necessidade de compreender algo, nossa mente aceita automaticamente a interpretação mais acessível, aquela que nos pareça a única possível para aquele contexto. Usamos as pistas disponíveis e os nossos conhecimentos pregressos para desvendar o que nos é transmitido.

Isso posto, segue a demosntração prática.

O tema será a escolha da escola para matricular o filho. Comecei com um problema bem difícil, mas de fácil reconstituição mental. Imaginem-se nas situações abaixo.

Situação 1. Quando iniciei essa procura, fiz contato com uma  pessoa de referência que já havia visitado várias escolas. Ela me recomendou a que mais havia gostado. Para me poupar do trabalho de investigação, liguei direto para a que me fora indicada. Demorou até que uma voz bastante desconcertada atendesse à ligação. A pessoa parecia estar em movimento, pela oscilação da voz, como se estivesse se balançando. Ao fundo era uma choradeira só. Estávamos em junho, então não era a semana de adaptação. A pessoa, um tanto afobada, não conseguia falar comigo direito, e eu a pude ouvir pedindo para que outra pessoa viesse me atender porque ela estava (ou deveria estar) cuidando das crianças.

Primeira conclusão que tive, enquanto ainda estava pendurada ao telefone: essa escola não dá.

A primeira impressão que temos quando chegamos a um lugar é a de como somos recebidos. Isso é determinante. O esperado e o desejado é que haja alguém preparado e disponível em uma escola, no horário comercial, para atender ao telefone e prestar informações sobre o local.

Parei na primeira interpretação. Foi a única possível.

Veja-se a minha cadeia de pensamentos:

S1 - A pessoa que deveria estar cuidando das crianças está afobada ao telefone;
S2 - Há uma choradeira descontrolada ao fundo;
S3 - S1 ^ S2 - S4(por modus ponens conjuntivo)
S4 - Não tem ninguém cuidando das crianças. (conclusão implicada)

Dizer que uma interpretação é a mais relevante não quer dizer que ela seja verdadeira, mas nesse caso eu não pagaria pra ver.

Parei na primeira e desisti daquela escola.

Situação 2. Tempo depois, meu filho já estava frequentando uma escola que nós consideramos adequada, porém, há na cidade uma outra escola que os pais não se cansam de dizer que é melhor. Não sei bem quais são os critérios usados, mas, considerando a dinâmica da cidade em questão, eu suponho que seja o status. Enfim. Decidi conhecer o tal paraíso, sentindo-me culpada por não oferecê-lo ao meu pequenino. Passei do portão, fui recebida pelo tio do pátio, o único que me recebeu com boa vontade e disposição. Pediu-me gentilmente que aguardasse a diretora, que estava uns dez passos à minha frente, tentando reunir um enorme grupo de adolescentes para lhes dar, digamos, uma "mijada coletiva".
Passados quinze minutos dessa situação patética, a senhora diretora veio até mim e cumprimentou-me, com ares de "o que quer aqui?". Expliquei que estava ali para conhecer a escola e que gostaria de saber se havia vaga para o pré I. Mal eu havia terminado a frase quando entrou pelo portão outra mulher e a diretora a abordou dizendo: "Ah! Que bom que você chegou! Já vou te passar essa mãe aqui pra você apresentar a escola". Só faltou dizer: "Tó". A mulher, que suponho seja a coordenadora pedagógica da educação infantil, respondeu de imediato: "Agora eu vou lanchar". Juro. Depois de uns vinte minutos em pé, em horário comercial, esperando aquele empurra-empurra, pensei:

S1 - (Porra...) Estou aqui porque tenho a pretensão de matricular meu filho nesta escola;
S2 - Em geral, as pessoas da escola fazem o seu melhor para tentar captar novos alunos;
S3 - S1 ^ S2 - S4 (por modus ponens conjuntivo);
S4 - Esta é a atenção máxima que eles poderão me oferecer (conclusão implicada).

Como cantaria Maria Rita "pouco é um pouco demais".     

A primeira impressão é às vezes fatal.

Claro que o problema maior da escola não está em não saber receber pais de alunos. Escrever qualquer coisa que questione o papel da escola me dá até medo, porque a escola se tornou uma espécie de mito obrigatório. É um tabu. Ninguém sabe dizer com precisão qual a função e a finalidade da escola, mas tampouco alguém ousa dizer isso abertamente. Preferem os eufemismos, preferem tratar dos problemas como se eles fossem 'desafios'.
Quem teve a oportunidade de trabalhar em escola pode ter uma visão mais ampla, além da visão que todos temos como os alunos que um dia fomos. As instituições de ensino público estão, em sua maioria, em estado de abandono. As particulares viraram um comércio burguês. Enquanto as primeiras tentam a todo custo transferir alunos, por superlotação, as privadas competem por eles em uma gincana mercenária de serviços agregados. No meio disso ficam os alunos, os professores, os funcionários.

Educar, ah... isso é tarefa dos pais. Concordo. O que eu me pergunto é a que horas os pais poderão desempenhá-la. Algumas crianças passam o dia inteiro na escola. Voltam pra casa para dormir. E isso não acontece só nas creches populares. Cada vez mais os pais endinheirados se convencem de que o melhor para seus filhos é que façam todas as modalidades de aula, em turno integral, desde a mais tenra infância. Não tenho bem certeza se eles defendem essa escolha por acreditar mesmo nela ou só pra não sentir um certo peso na consciência.

Vejo que a escola se perdeu. Os pais se perderam. Ninguém mais sabe o que fazer. A escola diz que quer se aproximar dos pais, mas quando os pais tentam se envolver a escola se esquiva. Sim. Pode participar, mas de acordo com as nossas regras. Bem, isso não é propriamente o que chamo de participação. Enfim.

Escrevo para declarar a minha frustração. Para transpor em palavras a angústia de muitos pais que precisam fechar os olhos para poder confiar seus filhos a um estranho ambiente que não sabe ao certo o que fará com eles. Escrevo para tentar entender mais sobre a influência que a escola teve sobre a minha vida e para projetar o que ela poderá fazer pela nova geração.

Se sou invisível como mãe, o que posso esperar que seja oferecido ao meu filho? Se as crianças não são percebidas em uma escola, então que tipo de educação poderão receber ali? As escolas estão mergulhadas em um mar de violência insitucional. Professores são humilhados. Alunos - crianças - matam uns aos outros dentro da sala de aula. E não podemos questionar a escola. Somos apenas obrigados a frequentá-la. 

Tenho dúvidas se foi na escola que aprendi o que realmente tenho usado pra sobreviver. Fora os títulos, que são pré-requisitos, claro. Tive a sorte de não ter a minha autoestima minada pelo bullying, que tanto sofrimento causou a alguns dos meus colegas. Tive a sorte de não ter sido reprovada por não saber aplicar uma fórmula qualquer de geometria analítica. Tive a sorte de ter feito uns poucos amigos dentro daquele universo que prometiam ser a socialização.

Quando, depois de desistir da dita 'melhor' escola, levei meu filho àquela que ele frequentou desde o final do ano passado, fomos recebidos com um caloroso abraço de boas-vindas. A coordenadora chamou-me pelo nome, perguntou ao meu filho coisas que sabe que são importantes para ele. Conduziu-nos até a porta da sala de aula, onde a professora estava a esperar por ele. A tão falada 'estrutura' da 'melhor' escola não passava de um monte de concreto. Tinha um parquinho pequeno e no concreto. Isso para mim indica o quanto valorizam o contato com a natureza, as brincadeiras ao ar livre, a possibilidade de exploração do espaço pela criança e, principalmente, o brincar.

A primeira impressão revela muitas coisas. No mínimo, dá umas boas pistas.
     

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Melhor amiga



A melhor amiga de uma mulher é uma pessoa (independente do sexo) simplesmente incrível. Ela sabe tudo de tudo; quando não sabe inventa pra nos ajudar. Embarca nas maiores furadas só pra não nos deixar sozinhas. Está ao nosso lado até quando estamos erradas (claro que ela diz que estamos erradas, mas nos defende mesmo assim). Ela é mais do que um parente porque parente a gente não escolhe. A melhor amiga é assim. Um misto da melhor parte de todas as relações e coisas que temos. Ela é fantástica e a vida perde metade da graça quando não a temos por perto.

Pensei e chorei hoje pela falta da minha. Há tempos tenho a sensação absurda e angustiante de que me falta algo, sem saber o quê. Tive uma revelação esta manhã. Estava trocando os canais da tv pra matar um tempo antes das 7:00h e encontrei o filme "O casamento do meu melhor amigo", já passado da metade. Parei para assistir e, como acontece toda vez que eu o assisto, chorei. Não porque ele estava se casando e ela descobriu que era apaixonada por ele tarde demais. Chorei porque eles estavam perdendo o acesso livre à vida um do outro (o que sempre acontece quando a melhor amiga é um homem). Chorei porque outro melhor amigo veio tentar ajudar. Chorei por identificação. Por perceber que não tenho mais acesso livre à vida de nenhuma amiga.

Durante a infância, a adolescência e a juventude tive sempre uma boa companheira (foram nove no total, uma de cada vez). Até a faculdade, mais precisamente. Depois fiz algumas grandes amizades virtuais. Tenho um marido maravilhoso, tenho filhos amáveis, um trabalho autônomo remunerado, tenho os meus familiares próximos vivos, tenho conforto, saúde e posso me permitir um ou outro luxo. Não tenho muito do que reclamar, é verdade. Entretanto, falta uma melhor amiga pra dividir, pra sair da rotina, conversar, visitar, ligar, pra dar umas risadas. E não é só querer ter uma melhor amiga. Tem que acontecer.

Faz um tempo que entrei num processo de rejuvenescimento. Sim, pode rir. Deve ser a crise dos 30, eu sei. Primeiro arranjei um ídolo, o Brandon Flowers. Faltou pouco pra eu colar um pôster no quarto (meu marido não deixou). Fiz um blog/diário. Comecei a acompanhar os seriados da disney, inclusive eu gravo para não perder nenhum capítulo. Aliás, eu dou muita risada assistindo ao Hannah Montana. Adoro a relação dela com a amissíssima Lili. Por mais que seja só uma ficção, eu as invejo, pra ser honesta. 

Agora me deu saudade de ter uma melhor amiga também. Infelizmente, apesar de manter o mesmo sentimento pelas minhas amigas do passado, nossas vidas tomaram rumos tão diferentes que acabamos perdendo um pouco da intimidade, da convivência, do contato. Sinto falta delas. Sinto falta de estar no papel de amiga. Sinto falta de trocar confidências, de almoçar junto, de sair um pouco da minha vida e de tudo o que gira em torno dela, de ter um colo, um sofá fofo em um campo neutro, de comer um bolo e uma geléia que a mãe da amiga preparou para tomarmos um café e falarmos amenidades. Sinto falta de alguém que me dê uma opinião feminina sobre qualquer assunto, que me conte uma piada, uma fofoca, uma indicação de qualquer coisa.     

Sinto falta da lealdade, da cumplicidade, da afinidade, das maluquices, da energia vibrante que existe entre duas melhores amigas. Sinto falta dos filhos da minha melhor amiga, que poderiam vir até a minha casa para brincar com os meus. Sinto falta dessa pessoa que eu não conheço e que existe em algum lugar que eu ainda não sei onde. Sinto falta de ter muitas histórias engraçadas em comum que ninguém mais sabe e que ninguém entende quando começamos a rir.

Amiga, querida, nunca nos vimos e eu conto tanto com você. Um dia estaremos juntas na sua lanchonete favorita e eu poderei lhe dizer que antes de nos encontramos já havia muito de você na minha imaginação. Sua potencial presença em tantos momentos me reconfortou. Espero a sua visita. Não deixe de aparecer.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Revista feminina


Revista feminina é aquele material produzido por grandes editoras com o suposto intuito de informar, atualizar e aliviar a culpa da mulher moderna. Em geral, trata de temas como sexo, sexo, sexo, comportamento masculino, moda, novas técnicas e cosméticos que prometem milagres para atingir o corpo e o rosto perfeitos, trabalho, filhos e uma receitinha sofisticada impossível de ser preparada em casa. A capa, como todos sabem, tem sempre uma famosa linda, "sarada", "photoshopada", com uma jóia cara, muita pele à mostra e uma legenda óbvia: descubra o segredo de fulana de tal. Não estou criticando ainda, apenas descrevendo.

Pois é. Revistas nos induzem a pensar que a vida pode ser avaliada por um recorte. Pensei sobre isso ao ler uma matéria acerca da terrível criação dos filhos dos famosos. Ãhn? Fiquei me perguntando. Não estou autorizada a julgar o desempenho e os sentimentos de outros pais com base somente em fotos tiradas e publicadas sem consentimento. O que sabemos do dia a dia de Angelina Jolie, de Katie Holmes ou de Victoria Beckham? Como pode uma matéria afirmar que pais famosos usam seus filhos para promoção pessoal?

O pior nesse tipo de texto é que ele costumeiramente une o senso comum ao comentário do especialista. Então, a cada tanto, o autor "cola" uma frase de efeito de algum profissional (este sim tentando se promover) para conferir mais crédito ao seu posicionamento particular. A fórmula é infalível. O que me surpreende é que psicólogos e psicanalistas se prestem a emitir pareceres a respeito de pessoas que eles não conhecem e nunca sequer viram de perto. Fazem interpretações selvagens e generalistas.

Sério. Francamente. Qual o problema de vestir os filhos arrumadinhos pra sair? Quase todas as mães do planeta fazem isso. Ah, mas a Katie Holmes quer que sua filha pareça perfeita, coloca sapatos de salto na menina, está roubando a infância e o discernimento dela. Ninguém aqui convive com elas, como podemos saber? O que sabemos é que cada vez que ela sai de casa para fazer qualquer coisa com a criança alguém tira uma foto e publica. Sinceramente, não levo meus filhos para a rua sem escovar os dentes, colocar um calçado e uma roupa limpa, mas nossa vida não é só isso e acredito que a delas também não seja.

Dizia a matéria que os filhos de famosos eram criados por babás. Ah tá. Só os de famosos, bem entendido. Eu não tenho babá porque não julguei necessário até o momento. Não tenho nada contra. O fato é que muitos pais precisam recorrer a esse serviço. Ponto. Quero ver quem seria capaz de cuidar de seis crianças pequenas sozinha e trabalhar fora nos dias de hoje. Por que exigiríamos isso de Angelina Jolie? Ah, porque ela adotou um monte de crianças para se promover. Eu tinha esquecido que ela não é linda, que não é ótima atriz, que não é casada com um dos homens mais desejados da Terra, que não é milionária e que já tinha uma carreira consolidada antes de ser mãe. Ela precisou mesmo adotar para aparecer. Acho que se eu e você fizéssemos isso também seríamos alçados à fama.

Contra a ex-spice girl argumentaram que certamente ela não descia do sapato chique pra bater um futebolzinho com os garotos. Mãe serve pra outras coisas também, né... Fora que ela é casada com um jogador de futebol.

É fácil criticar. Basta ignorar que por trás de uma imagem pública existe um ser humano como nós, que vive conflitos semelhantes. A diferença é que há uma lupa e um holofote apontando para ele, com várias câmeras a registrar tudo para que depois revistas possam divulgar os piores momentos. Acredito que ver uma série de notícias grosseiras sobre seus pais e sua vida é muito mais devastador para uma criança do que conviver com os seus problemas familiares reais.

Penso que julgamos os famosos por nossas próprias ações. Temos também nossos traços narcisistas, isso nunca foi crime. Até surpreende uma máteria de revista feminina criticando o narcisismo. Repletas de imperativos, essas edições estampam o quanto não estamos nos padrões. E tentam tirar dos padrões aquelas mulheres que elas mesmas elevam e definem como modelos. Alimentam na gente aquele tipo de crença de que as atrizes têm corpos perfeitos porque só fazem cuidar da beleza. Sabemos que não é verdade. Elas malham todos os dias e se sacrificam para tanto. Nós não o fazemos porque escolhemos não fazer, porque temos outras prioridades, nem melhores, nem piores.

Não precisamos detonar os outros para nos sentirmos bem. Não precisamos exigir que os outros sejam perfeitos e essa tarefa fica mais fácil quando aceitamos as nossas imperfeições. Revistas femininas são o contrário do que estou falando. Impõem uma guerra contra o seu tipo de cabelo, contra a sua celulite, contra o sexo que o seu marido sabe fazer. Aí você lê e fica pensando que só você é tão infeliz, tão pouco, tão gorda, tão sem dinheiro, tão frustrada. O problema maior, na sua cabeça, é que você não tem grana para pagar aquele tratamento à laser, é que você não se sente bem com aquela lingerie sexy, é que você e você e você.

Sim. O problema é você. Quem seria a solução? Bem, nós temos a solução para todo e qualquer mal. Siga nossos passos e será uma de nós. Sabemos mais do que você. Testamos tudo antes de você. Estamos em alta. Experimente. Em resumo: em poucos meses você acabará com o seu casamento, estourará o cheque especial, estará vestida de palhaça (porque nada combina em foto de editorial), agirá como um homem arrogante no trabalho, comerá cherne em crosta de mandiopã com caruru e taioba, ficará com cara de Caubi Peixoto depois de tanto botox e, sinto muito, a sua celulite continuará lá.

Acho que essa é a razão pela qual não obedecemos a essas revistas. Precisamos aprender a não nos culpar por isso.

=]

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Crítica





Hoje nada pareceu bom. Escrevi e apaguei. Várias vezes. Não que faltem ideias, é que está sobrando bom senso. O crivo está inflexível. Não libera uma palavra no departamento de censura. É um misto de inquietação, irritação, impaciência e exigência. 

Passei os últimos dias em retiro acadêmico. Nada de meditação não. Fiquei trancada no quarto escrevendo, escrevendo, escrevendo. Escrevendo e pensando: o que é que eu fui fazer? Produzi um pedaço de artigo que não foi aprovado sequer no meu controle de qualidade, quem dirá no do meu orientador. Ele ainda não o leu. Isso me conforta. Meu fracasso oculto me dará mais uma noite de sono.

Para que saibam a minha realidade, é preciso que tenham assistido ao filme Kung Fu Panda. Meu querido e sábio orientador é o Mestre Shifu. E eu, como dá pra imaginar, sou um panda tentando aprender kung fu. Desajeitada, indisciplinada, de outra prática, tenho apenas o sonho de ser um dragão guerreiro. Não sei bem se isso é um sonho ou um pesadelo. Em todo o caso, dá pra ter uma ideia da situação.

Tenho um orientador centrado, organizado, competente, dedicado e possuidor de um conhecimento que a minha cabeça não alcança nem de longe. E ele me chama de colega. Talvez a única coisa que ele desconheça nesse mundo seja o abismo que existe entre nós (para o meu terror e a minha sorte). Sinto-me uma fraude. Tenho vontade de sair correndo. Infelizmente, não vim com o botão "desmaterializar" de fábrica. 

Enviei o tal arquivo com a proposta, chamarei assim pra ficar mais digno, de artigo. Na apresentação do email já fui logo pedindo desculpas por tudo, o que é sempre um mau começo. Pode ser sinal de insegurança ou de total noção da realidade, possivelmente seja uma combinação dos dois. Enviei e fiquei desejando secretamente que o email expirasse, que nunca chegasse, que ele esquecesse de ler. Um dia depois recebi o retorno. Pensei: abro ou não abro agora? Fiquei aqui me debatendo por alguns minutos.

Poucas coisas são mais dolorosas e angustiantes do que receber uma crítica diante daquilo que você ofereceu de melhor. Sim, é duro aceitar, mas o insuficiente foi o melhor que pude fazer. Tenho consciência, mas preferia ter privacidade também. Guardar o pouco só pra mim. Em quase nada a vida nos permite esse luxo.

Enfim, abri. Fiquei dividida. Em parte aliviada por não ser sacrificada naquele momento; em outra parte tensa por ter de abrir outro email mais tarde. Vou morrendo assim aos pouquinhos, homeopaticamente. Não é uma morte sem dor, que fique claro. É um veneno de ação lenta, mas fatal.

Expor as nossas próprias falhas é uma das tarefas mais difíceis que temos de fazer em público. Não sei a quem pensamos enganar. Se somos todos imperfeitos, não há razão para tanto receio. Razão. Como ousa invadir meus pensamentos? Estou eu a distorcer todos os argumentos racionais que deveriam ajustar a minha leitura interna aos fatos mundanos - ou vice-versa. Dou corda para os pensamentos automáticos de minha mente perturbada - desvalia, desprezo, exigência (pra me enforcar, sim). Acabo por dar risada. 

Guardo a história na gaveta. Vou dormir. Amanhã penso nisso e vejo o que da pra fazer. Hoje não posso resolver. Já que sou um panda, posso empurrar com a barriga.
=]