sábado, 12 de fevereiro de 2011

Bicho Carpinteiro



Dizem os estudiosos das expressões correntes que o 'bicho carpinteiro' era uma designação simbólica para alguém que, de tão inquieto, parecesse estar com 'bicho no corpo inteiro'. Com o uso, a denominação foi sofrendo modificações em sua estrutura até chegar ao bicho carpinteiro, que de marcenaria não entende nada.

Seja como for, o tal do bicho carpinteiro volta e meia me ataca. Tudo bem. Eu reconheço que isso acontece todos os dias, várias vezes. Há anos. Não sei bem explicar. É uma súbita e recorrente ideia fixa de ir embora. Estou a fazer qualquer coisa, inclusive agradável, quando de repente surge aquele pensamento. Quero ir embora. Parece um mantra.

Não é exatamente uma vontade de ir embora, acho que é só um desejo de ver o mundo. Ou, sei lá, de ficar no modo standby, sair do corpo que não acompanha a mente. Talvez para resolver essa inquietação algumas pessoas recorram à meditação, mas eu prefiro me mexer mesmo. Fico sempre com a sensação de não pertencer a lugar nenhum. Mórbidamente, preocupa-me o que será de mim depois da morte. Não pela alma. Fico pensando na minha matéria, na minha história. Onde ficará registrada? Até quando? Eu quase nada sei sobre meus avós, pouco convivemos. Meus pais pouco falam deles. Contam lá uma ou outra passagem, comentam alguma característica marcante, algum episódio curioso. Sinceramente, eu pouco sei sobre meus pais e nós convivemos bastante.

Claro que coletivamente nossas ações transformam uma época, mas, isoladamente, em não muito tempo boa parte do que me é importante não terá o menor sentido. Ninguém lembrará, ninguém nem vai saber. Acho que a gente supervaloriza aquilo que faz da vida. Quando permaneço um período muito longo parada, começo a perder a dimensão do universo. O meu pequeno círculo passa a ser a minha única referência e acho que isso sufoca e aciona o bicho carpinteiro, pra oxigenar o meu cérebro.

Ainda não conheço muitos dos recantos da Terra, mas o suficiente para saber que as pessoas vivem de formas muito diferentes. Não precisamos ir muito além do nosso bairro para perceber isso. Espiando a casa do vizinho já dá pra notar, na verdade. Imagina se trocarmos o idioma, a história do país, as questões culturais, as condições políticas e sociais...

Todos os dias, por alguns segundos, eu tenho vontade de ir embora, como se alimentasse fantasiosamente a possibilidade de estar em todos os lugares. Eu deveria dizer ir 'afora'. Sair do meu campo particular, da minha esfera, dos meus detalhes. Não sei se essa é uma sequela da modernidade, mas acredito que, seja qual for a sua origem, não sou a única vítima. 

Um comentário:

  1. Eu tenho medo do BC Monster, hahahahahaha
    Mas falando nele, há outra variação: o BC infantil, que atinge o Felipe, deixando-o sempre na quinta marcha. Este também não é fraco!

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