sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Cafezinho



O cafezinho é uma bebida bastante popular entre nós brasileiros. Frequenta as rodas mais variadas e circula com a mesma desenvoltura em eventos importantes, botecos, fofocas entre vizinhos, assuntos de família e salas de espera por aí afora. O que acompanha o cafezinho (não, não é o cigarro!) é o seu toque aconchegante, acolhedor.

Estava tomando sozinha a minha xícara de café esta manhã e me lembrei de uma história de quando eu trabalhava em um programa de acolhimento de crianças. Na época eu acompanhava uma pequena e doce menina de 6 anos, que vinha de uma vida de muito sofrimento e abandono. Estávamos em uma fase crítica de encaminhamento para a adoção, visto que todos os demais recursos haviam se esgotado. Ela passou aquele dia inteiro comigo, antes que eu a entregasse nas mãos daqueles a quem ela passaria a chamar de família. Fomos passear na praia, fomos brincar no parquinho. De todo aquele universo de incertezas, do medo do que seria feito do seu futuro, do alto dos seus tão poucos anos e de tantas vivências, ela apenas olhava o dia com aqueles enormes olhos verdes assutados. Por alguns instantes, seu rosto se iluminava. Aparecia um sorriso que me dava a certeza de que sim, era uma criança que estava ali, mas não sou capaz de descrever a mistura de emoções que pude ver naquele rosto.
Quando então perguntei o que poderia fazer por ela, vi seu corpo franzino se encolher, sua cabeça se abaixar e sua voz delicada e receosa pedir: "tia, posso tomar um cafezinho?". Isso era tudo o que ela queria de mim naquele momento. Perguntei, sem entender bem: "Você quer um cafezinho preto?". Ela disse: "Sim!". Tudo bem. Ofereci a ela um copinho de café. Foi quando ela me explicou:

"Quando eu estava com a minha mãe, era o que a gente tomava".

Entendi aquele ritual como um tipo de despedida, uma passagem. Por mais que fosse também um hábito, ela poderia ter pedido um pirulito, um sorvete, uma bolacha. Pediu um cafezinho. Um cafezinho preto, o que é pouco usual em crianças da idade dela. Poderíamos inferir tantas coisas dessa simples explicação que me fora dada... mas hoje não vou tecer comentários.

Fica só uma saudade. Uma lembrança. Uma história. Um cafezinho.  

Um comentário:

  1. Fico feliz, de certa forma, de saber que tivemos uma pequena participação na vida desta menina. Mas feliz fico em saber que aparentemente ela está em melhores condições hoje. No entanto, tenho certeza que por mais que a roda gire, que a vida siga, ela sempre se lembrará do gosto e do aroma de um cafezinho que ela sequer poderá rever nesta vida.

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