sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Conflito



Há alguns anos, quando eu ainda mais jovem estava a fazer um monte de escolhas erradas - tal como qualquer outra jovem contemporânea -, cheguei a uma situação em que precisava tomar uma decisão definitiva que, por certo, mudaria minha vida. 

Embora fosse jovem, não era mais nenhuma menina, devo confessar. Já tinha meus vinte e poucos anos, trabalhava, deveria ter, em tese, um pouco mais de discernimento. Foi então que, diante do problema, em uma nada estranha sensação de não saber o que fazer, viajei até Porto Alegre para uma consulta de emergência com a psicanalista que me acompanhara no passado.

Cheguei ao consultório com vergonha. Sim. Eu tinha consciência do ridículo de estar ali, naquelas circunstâncias. Já até sabia o que ela iria me dizer, mas eu precisava ouvir. Então, depois de tanto tempo sem entrar naquela pequena sala de espera, senti-me como se nunca tivesse deixado de estar ali. Estava tudo como sempre esteve. Menos eu.

Enquanto aguardava, rolava uma musiquinha ambiente e eu me concentrava no cheiro perfumado que era característico daquele lugar. Mais do que isso. Era um cheiro que estava marcado em mim, que era único e que imediatamente me fez sentir em casa.

Como de costume, Liz abriu a porta e me cumprimentou, como se tivéssemos conversado anteontem. Essa foi a impressão. Sentei no 'meu' lugar e ela me perguntou, até sem muita surpresa, por que eu havia voltado. E então comecei a despejar os meus conflitos todos, sem poupar nenhum detalhe. Quase ao final da sessão, quando eu já havia dito muito mas nem a metade do que desejava, ela interrompeu-me e perguntou com aquela delicadeza que lhe era peculiar (apesar de já ter desatado aquele nó desde os primeiros cinco primeiros minutos):

"Deixe-me ver se entendi. Você está me dizendo que está vivendo como se estivesse dirigindo um carro em alta velocidade, que já furou todos os sinais vermelhos e que veio até aqui para que eu possa parar você?".

Pensei: "bingo!". Ui, que alívio. Era só o que eu precisava. Que alguém me entendesse. Ela não disse mais nada. Eu nunca mais voltei (não por falta de vontade, mas porque infelizmente moro longe demais mesmo).

Com aquela pergunta, que era uma daquelas capazes de decifrar os enigmas da esfinge, entendi o que precisava fazer. E fiz. Tomei as rédeas da minha vida. Fiz o que precisava fazer.

Até hoje fico pensando por que diabos às vezes não conseguimos interromper um curso torto, que nos emite todos os sinais de que não dará pé. Furamos todos os sinais. É exatamente isso. Ficamos incapazes de aceitar a realidade que se joga no nosso colo sem disfarces. Tentamos mascará-la. Nós fazemos isso, não os outros. Nós nos enganamos.

Termino este post com um dos meus trechos preferidos de Oscar Wilde:

"É preciso que eu diga a mim mesmo que fui o único responsável pela minha ruína e que ninguém, seja ele grande ou pequeno, pode ser arruinado exceto pelas próprias mãos".   

Um comentário:

  1. Nem sempre é fácil ver o sol, quando se está na névoa. Mas ele está lá.

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