quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Entre mães


Querida Mãe Colega,

De todas as coisas que deveriam ter sido ditas, a principal me faltou na ocasião. Estou com essa frase engasgada. Não consigo nem dormir, estou irritada. Preciso lhe dizer apenas que pare de se culpar e que não culpe seu filho. Não se acostume a ser agredida por pessoas incapazes de se solidarizar com você. Não aceite nunca, em circunstância alguma, que seu filho seja desrespeitado. Não abaixe a sua cabeça. Não dê explicações. 

Somos obrigados a conviver com pessoas que pensam ser superiores. Tem gente que não reconhece e não sabe trabalhar as próprias fraquezas. É sempre mais fácil julgar o outro, tratá-lo como pior. Sabemos que seu filho não é uma criança mal-educada, como talvez alguns queiram fazer parecer. Cada um tem o seu tempo e ele está se desenvolvendo no ritmo dele. Não podemos mudar isso e não devemos nos aborrecer por ser assim. Todos temos as nossas limitações. Não há motivo para vergonha ou culpa.

Não permita que invadam o espaço da sua vida privada. O que acontece na sua casa, na sua forma de amar e de cuidar de seu filho não é da conta de ninguém. Você não precisa bater nele para mostrar ao mundo que está tentando fazer algo. Não o machuque para atender aos caprichos dos outros. Não existe uma receita mágica. Não há somente uma forma certa de ensinar. É preciso que você, tal qual qualquer outra mãe, procure novas maneiras que funcionem com o seu filho. Seja paciente com você. Seja paciente com ele. Não se acostume com a intolerância, com o julgamento superficial das pessoas. Não permita que esse tipo de agressão externa interfira na sua relação com o seu filho.

Estamos falando de uma criança de três anos. Veja: três anos! Nada do que o seu filho faz escapa do que as outras crianças fazem. A diferença é que nele esses comportamentos ocorrem com maior intensidade e frequência e, se entendi bem, há uma explicação neurológica para tanto. Significa dizer que há uma força maior que dificulta ao seu filho controlar os impulsos. Não podemos desconsiderar esse fator. Por mais que você faça, essa condição está presente e não se trata somente de vontade para eliminar seus efeitos. Seu filho está em tratamento. Você está fazendo tudo o que está ao seu alcance. Repito: a culpa não é dele e nem sua, existe um quadro clínico que interfere no comportamento dele.

Precisamos parar de julgá-lo pelo comportamento 'inadequado' na escola e começar a pensar em técnicas que possam ajudá-lo a interagir melhor com a turma. Incluir uma criança que exige atenção diferenciada implica em oferecer a ela uma atenção diferenciada. Lamento muitíssimo pelo que você ouviu na última reunião. Lamento muitíssimo não ter conseguido dizer lá tudo o que estou a escrever agora. Fiquei revoltada por você, senti-me ofendida por você. Meu filho foi agredido pelo seu e estou também em uma situação complicada, mas não fui até à escola para exigir explicações suas. Tenho certeza de que assim como eu, você também precisava de explicações. Penso que as crianças têm o direito de receber proteção e incluo o meu e o seu filho juntos nisso. Destaco: o seu filho também tem o direito de estar protegido na escola. Se ele está a agredir intensamente e com muita frequência outras crianças no ambiente escolar, no caso em que estamos, a culpa não é dele. No mínimo, faltou monitoramento.

Uma vez que a escola se propõe a receber um aluno, ela deve tomar todas as medidas de proteção necessárias para atendê-lo imediatamente. Infelizmente, do meu ponto de vista, isso não aconteceu e aí está a causa da maior parte dos problemas que ocorreram nessas primeiras semanas. Quando monitoramos uma criança, podemos prever boa parte de seus comportamentos. Costuma haver um padrão de ação. É preciso conhecer a criança, estar atento e próximo para evitar que o comportamento ocorra. Agindo com antecipação, ajudaremos seu filho. Acredito que ele não fique orgulhoso por machucar os colegas. O fato de que ele apresenta dificuldade para expressar suas emoções de uma forma mais adaptativa não significa que ele não tenha emoções. Como todos nós, ele também sofre. Não acho correto que ele comece a apanhar dos colegas. Isso não resolve o problema, apenas muda o foco.

Seu filho não age impulsivamente porque quer. Não basta aplicar somente a punição para ajudá-lo. Se conseguirmos interceptar a ação agressiva antes que ela se concretize, ele ganhará em segurança o tempo necessário para desenvolver neurológicamente a capacidade de autocontrole. Terá, desse modo, a oportunidade de aprender a usar outras habilidades para se comunicar com os colegas. Não podemos permitir que ele seja rejeitado e agredido pela turma. Precisamos protegê-lo na escola, não culpabilizá-lo.

Não podemos exigir de uma criança mais do que ela esteja apta a desempenhar no momento. Ficaremos frustrados e a criança ficará frustrada, o que prejudicará a motivação para a melhora. É como oferecer um brinquedo recomendado para uma criança de dez anos a uma de dois anos; se ela não se desinteressar por não o conseguir usar, provavelmente irá quebrá-lo. Seu filho dá sinais de que ainda é muito difícil para ele controlar os impulsos agressivos na sala de aula. Não podemos ainda exigir que ele faça isso sozinho.

Devemos ajudá-lo a progredir, reforçando seus comportamentos mais adaptativos e ensinando-o, dentro da escola, como fazer para obter o que deseja de uma maneira mais adequada. É preciso ajudá-lo a nomear as ações, para que não precise colocá-las em prática. Se a monitora captar uma intenção de ação inadequada, poderá intervir e mostrar como deverá ser praticada. Por exemplo: a criança percebe uma atenção da professora para outro aluno e fica com raiva. Pouco depois, segue em direção àquele aluno com a intenção de o agredir. Se o monitor capta essa relação e percebe a movimentação da criança, pode interceptá-la e dizer: "você ficou com raiva do colega porque a professora deu atenção a ele e não a você, mas você não pode bater nele por isso. Podemos chamar a atenção da professora de outro jeito. Vamos até lá e conversar um pouco com ela". Pronto. Uma agressão a menos. Uma habilidade a mais.

Não é errado que a criança tenha sentimentos que consideramos "feios". Devemos respeitar qualquer tipo de sentimento. Devemos estabelecer o limite é para a ação. Sentir raiva de alguém não me autoriza a bater nessa pessoa. Aprender a verbalizar sentimentos e intenções poderá ser a chave para reduzir os comportamentos agressivos. Toda mudança é um processo e requer treino, tempo e motivação.

Sugestão:
Observar e identificar quais os fatores que desencadeiam a ação agressiva e desenvolver estratégias para neutralizá-los na escola. A identificação desses fatores permitirá a antecipação e a intervenção do monitor. É recomendável fazer o registro das observações diariamente, ao longo de um mês, para depois estudar o padrão de comportamento da criança.

Dica: anotar em uma planilha o dia, a hora, o que aconteceu imediatamente antes da ação, a ação propriamente, e o que aconteceu imediatamente após a ação. 
 

 

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