domingo, 13 de fevereiro de 2011

Metamorfose



Mudar é sempre uma tarefa difícil. Qualquer mudança exige desprendimento e envolve, em geral, gasto, adaptação e risco. Talvez o risco seja o elemento de maior peso, ao menos para a maioria das pessoas. Temos medo de que algo saia do planejado, de ter algum prejuízo, de não dar certo. A questão é: valerá a pena?

Mudamos muitas vezes na vida. Trocamos de carro, de cidade, de namorados, de casa, de corte de cabelo, de opinião, de estilo, de escola, de amigos, de fase de desenvolvimento. Mudamos internamente. Entretanto, cada mudança é única, por isso é como se fosse sempre a primeira vez. Durante muito tempo pensei que o nosso maior medo fosse o de chegar a uma situação pior, mas eu estava enganada. Vou contar uma história para vocês.

Eu ainda era uma estagiária quando pude acompanhar o dilema de um rapaz. Ele tinha esclerodermia desde a infância, o que ocasionou uma grave deformidade em parte de seu rosto. Segundo ele, o problema havia começado aos cinco anos, quando uma pequena mancha apareceu na bochecha. O quadro evoluiu e os ossos do lado esquerdo da face foram se degenerando, projetando o globo ocular para fora. A mancha se alastrou por toda a metade do rosto e transformou a coloração e a textura da pele, que ficou com um aspecto de cera.  

Após tantos anos de sofrimento por causa de sua aparência, finalmente ele havia conseguido a oportunidade de realizar um tratamento, que incluiria procedimentos cirúrgicos, dermatológicos, ortodôndicos, dentre outros. Estava feliz, tudo parecia bem. Porém, com a proximidade da data da cirurgia de reconstrução óssea, a ansiedade também se aproximou. Chegou ao desespero. Ele passou a boicotar o tratamento e tentar adiar ou cancelar a cirurgia. Estava desistindo.

Foi assim que o conheci. Os médicos já não tinham mais o que dizer para tranquilizá-lo. Tudo já havia sido explicado e entendido, mas ele não conseguia progredir. Embora fosse um procedimento com alto risco de rejeição, não era isso que o preocupava. Tampouco estava apreensivo com a anestesia, com a dor ou qualquer outra complicação pós-cirúrgica. Ele não estava com medo de morrer ou de que a cirurgia não desse certo. Sentou-se à minha frente e revelou, entre lágrimas e vergonha, o que secretamente tanto o atormentava:

"Eu não sei ser um homem bonito."

Ele estava com medo de ser desejado, cortejado. Não que estivesse satisfeito com o rosto desfigurado, mas havia enfrentado todas as situações de sua vida com ele. Sentia-se seguro, sabia o que esperar, sabia como lidar com a sensação de despertar o espanto e a repulsa. Tinha o amor de muitas pessoas, mas não sabia o que era ser desejado como homem. Não sabia o que era ser socialmente aceito, passar sem ser notado, não sabia como continuar sendo aquele que sempre fora, mas de uma nova forma. Ele tinha medo de se transformar naquilo que ele chamava de 'melhor'.

Realmente, o lado preservado de sua face era muito bonito. Em sua simetria, seria um rapaz atraente. Estávamos até então pensando somente em reparar o seu rosto. Esse era o problema. Não poderíamos avançar sem considerar que ele havia construído a sua autoimagem focado no defeito, na destruição, na descaracterização humana. Seríamos tolos se acreditássemos que, ao acordar da cirurgia, tudo estaria resolvido.

Ser desejado pode ser tão difícil quanto ser rejeitado, porque integrar eventos e sentimentos contraditórios em nossa história de vida é complicado. É como se tentássemos entremear um trecho de um discurso de abandono em uma carta de amor. Não basta 'recortar' e 'colar', não encaixa. É preciso alterar a narrativa para que faça sentido.

Não pude ficar por lá tempo suficiente para saber o que aconteceu com ele. Espero que tenha sido feliz em suas escolhas. Assim como ele, todos nós, em algum momento, estivemos entre a vontade, a dúvida e a recusa de nos tornarmos 'melhores' do que sempre fomos.      

Um comentário:

  1. Realmente este é um caso bastante curioso. Lembrou-me o pai, que não quis colocar o aparelho auditivo, pois achou que o mundo era muito barulhento e que como estava era bom. Lembra-me também muitos casos de pessoas ligadas ao crime ou às drogas, que mesmo com perspectivas melhores, nem sempre conseguem mudar o rumo, por medo das mudanças. Preferem por vezes afirmar que sempre foram assim, e que não conseguirão mudar.
    Por fim, não posso deixar de lembrar o Mestre Raul, que sempre preferiu ser uma metamorfose ambulante, do que ter sempre aquela velha opinião formada sobre tudo...

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