sábado, 19 de fevereiro de 2011

O dia mais feliz da minha vida



O dia mais feliz da minha vida não foi o da minha formatura, nem o do nascimento dos meus filhos, nem o da minha primeira contratação, nem o do primeiro encontro com o meu grande amor. Todos foram, evidentemente, os dias mais especiais, porém repletos de insegurança e expectativa. Foram dias absolutamente importantes, mas estavam dentro do previsto. Eram experiências que eu em algum momento havia imaginado pra mim.

O dia mais feliz da minha vida ocorreu assustadoramente assim, sem aviso, sem programação. Inesperadamente. Poderia ter sido um dia como outro qualquer, mas foi perfeito. Havia no sol um brilho diferente. Saímos para uma escalada. Eu, meu querido e recém-conhecido amigo Rian e mais dois de seus amigos que eu não conhecia. O destino, a praia de Zimbros. Ou melhor, um pico muito alto que permitia uma visão deslumbrante da praia de Zimbros.

Foi incrível. Pessoas muito agradáveis, tempo bom, lugar paradisíaco, atividade radical.  Isso aconteceu em uma fase da minha vida que eu deveria ter eternizado. Zero compromisso, zero preocupação. Carpe diem. Uma época em que tudo o que eu tinha cabia dentro de um pequeno carro e podia ser carregado ou deixado com a mesma facilidade. A primeira palavra daquele dia: desapego.

Eu e meu instrutor Rian saímos cedo. Começamos com a preparação do equipamento, compramos os últimos detalhes. Buscamos nossos companheiros. Seguimos o nosso caminho em um papo despretensioso e divertido. Não lembro o que dizíamos. A segunda palavra do dia: sensação. Chegamos a um morro bem alto. Eu disse bem alto. Paramos o carro e entramos na trilha. Agregamos ao grupo um pequeno mascote, um cachorrinho que se agradou da nossa companhia e resolveu ir junto mato adentro.

Lá estava eu, com três pessoas e um cachorro praticamente desconhecidos, sem saber pra onde estava indo e muito menos como seria o que eu iria fazer. Por estranho que pareça, eu estava me sentindo segura. Quando disseram 'chegamos', tive a impressão de não ter chegado a lugar algum. Ainda estávamos no meio do nada. Aguardei. Os meninos (que eram escaladores) foram instalar os equipamentos pelo lado de cima, mas não sei bem explicar como isso aconteceu.

Chegou a minha vez, pensei: 'tá tudo muito bem, tá tudo muito bom, mas acho que não vai dar'. Olhei para cima: uma fenda de 20 metros. Calcei uma sapatilha superapertada, coloquei os equipamentos de segurança. Passei o pozinho na mão. Recebi as instruções. Prendi as mãos na pedra, depois engatei os pés e dali em diante minha tarefa seria continuar a fazer isso até chegar ao topo. Tudo o que eu tinha a fazer era encontrar um jeito de subir por mim. Foi mais ou menos como eu fazia quando criança, ao escalar pela passagem da porta, ouvindo a minha mãe gritar, desesperada: 'menina, desce daí, vai cair!'. A diferença era que eu não era mais uma criança e que a minha mãe nem sonhava onde eu estava. O movimento do corpo era familiar. Disseram-me que estava registrado na tal 'memória corporal'. Pode ser.

Digam-me: o que poderia ser pior do que estar sozinha, agarrada a uma rocha, muitos e muitos metros acima do chão, com o mar embaixo? Sim, cair dali. Minha vida estava presa à cintura de uma pessoa que eu nunca havia visto antes. Estávamos todos ali, um pelo outro. Terceira palavra do dia: confiança. E eu caí. A profecia materna se concretizou. Nesse caso, entendam cair como ficar pendurada pela corda, não como se esborrachar na pedra. É uma diferença sutil, mas deve ser considerada. 

Pensei que estivesse tudo sob controle. Com dificuldade, estava fazendo tudo certo. Eu só não contava com um detalhe. Eu chegaria ao limite e não sabia prever quando isso iria acontencer. De repente, perdi o controle do corpo, da mente. Segurei com todas as forças, até o último segundo. Fui traída pelas minhas próprias mãos. Eu tentei, tentei pela preservação da minha vida, mas meu corpo não me obedeceu. Caí. Não suportei o peso de ser eu mesma. E foi a melhor coisa que me aconteceu.

Morri por uma fração de segundos, sem me despedir, sem esperar, sem perceber. Perdi a noção. Entreguei-me, estava leve e mole a me balançar. Sorri. Respirei. Vi onde estava. Eu havia fracassado, mas ainda estava viva, sã e segura. Ao som de muitas palavras de apoio e incentivo, agarrei novamente a pedra e subi. Subi de verdade. Eu havia passado pelo pior que poderia acontecer. Perdi o medo e me diverti. Meus colegas diziam: 'Você está bem! Continue! Você está indo muito bem! Você está segura! Veja como é lindo aí de cima!'.

Poucas vezes estive tão inteira em uma ação. Estava concentrada em todas as sensações. Senti corpo e mente conectados de uma forma que nunca mais fui capaz de sentir. Do topo do meu pequeno universo, eu descobri a paz. Foi o dia mais feliz da minha vida. Uma felicidade simples, pura, de dentro. Única.

     

4 comentários:

  1. Lia, você escreve muito, muito bem!

    Adoro te ler, não pare de postar.

    Um beijo!

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  2. Remember a day(Wright)

    Remember a day before today
    A day when you were you young
    Free to play alone with time
    Evening never came
    Sing a song that can't be sung
    Without the morning's kiss
    Queen - you shall be it if you wish
    Look for your king
    Why can't we play today
    Why can't we stay that way

    Climb your favorite apple tree
    Try to catch the sun
    Hide from your little brother's gun
    Dream yourself away
    Why can't we reach the sun
    Why can't we blow the years away
    Blow away
    Blow away
    Remember
    Remember

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  3. Aii Lia, fiquei emocionado!

    Vocë conseguiu conceber o que "escalada" representa. Tocou o além de uma atividade. Parabéns, poucos assim enxergam.
    bjo
    Rian

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  4. Lia! bem vinda a esse mundo maravilhoso de descobertas e sensações, escalada é uma filosofia de vida, a pedra nos abraça, e ao mesmo tempo nos mostra o qual insignificantes somos perante toda essa grandeza.
    quem sabe nos encontraremos em breve por ai

    grande abraço

    luciana

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