segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O filho do meio




Não sei se em todas as famílias é assim, mas posso dizer que tive muitas vantagens por ser a filha do meio. Para obtê-las precisei aprender a usufruir apenas de uma coisa: do fato de que quem está no meio não chama muita atenção. Claro que é possível um filho em qualquer posição conseguir isso, mas o do meio vem com esse adicional de fábrica. Não significa que ele não seja considerado, amado ou percebido; ocorre que fica mais preservado das cobranças que recaem sobre os mais velhos e os mais novos.

Tive a sorte de não ser a primeira em nada na minha casa. Minha irmã mais velha tirou nota vermelha primeiro, apresentou namorado primeiro, fez vestibular primeiro, teve amigos complicados primeiro, enfim, abriu o caminho pra mim. Como nossa diferença de idade não é tão grande, fui sempre no embalo. Ninguém notou porque os olhares ainda estavam voltados para ela. Fora isso, cresci ouvindo a educação que fora a ela aplicada, portanto, meus pais não precisaram repetir pra mim. A diferença foi que o peso das regras não caiu sobre a minha cabeça. Fiquei só com a extensão, do tipo: 'isso também vale pra você!'. Não precisei fazer pra saber que não era pra ter feito, então escapei de ser punida e encontrei alternativas válidas com segurança. Enquanto eu corria pelas bordas, minha irmã precisava demonstrar desempenho, rendimento, bom comportamento. Eu era 'a pequena', era poupada para quando eu crescesse, embora estivesse crescendo.

Quando me tornei 'grande', meu irmão mais novo centralizou as atenções. Fiquei ali, no meio, camuflada. Sinceramente não entendo porque os filhos querem tanto chamar a atenção dos pais. Nada melhor do que crescer no meio, livre pra experimentar sem despertar muito cuidado ou interesse. Muito bom viver assim. Tive então a sorte de não ser também a última a fazer as coisas. Tudo o que o filho mais novo faz tem cara de despedida, ganha um tom dramático. É o último a sair de casa, o último a ter problemas na escola, o último a fazer vestibular, o último a namorar... É uma choradeira só. Se o primeiro fica amarrado pela disciplina, o último fica enroscado pelo afeto.

Estar no meio é mesmo a salsicha do cachorro quente. É a melhor parte. Aparecer demais tem um preço muito alto. São duas prisões: a reprovação, para os que não satisfazem; ou a necessidade de satisfazer sempre, para os que cumprem os padrões.    

Um comentário:

  1. Pois é... você deu sorte! Tem família em que o filho do meio é o mexilhão.... entre as ondas e as pedras... leva cascudo do mais velho e se ferra por bater no mais novo, hahahaha

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