quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Primeira impressão




Diz a lenda que a primeira impressão é a que fica. Em muitas situações, temos que concordar, é bem verdade. Já que acordei impregnada de espírito acadêmico, tentarei então aplicar o aporte teórico da Teoria da Relevância (TR) para explicar esse fenômeno.

Façamos uma breve revisão teórica (dói, mas será mesmo breve).

De acordo com a TR (para outras informações ver Sperber e Wilson - 1986 e 1995), a comunicação humana é guiada por dois princípios gerais, um cognitivo e um comunicativo. Por força da natureza de nosso sistema cognitivo, nossa mente busca espontaneamente a maximização da relevância. Supõe-se, portanto, que os enunciados produzem expectativas precisas de relevância, visto que o comunicador pretende ser compreendido e emite um estímulo ostensivo com este propósito.
A relevância é o equilíbrio que se constitui na relação custo-benefício entre os efeitos cognitivos e os esforços de processamento gerados por um input (enunciado, pensamento, lembrança, imagem, sensação...), tal que, em condições iguais, quanto mais efeitos cognitivos e menos eforços de processamento despendidos, mais relevante.
Os efeitos cognitivos são aqueles capazes de produzir uma modificação ou uma reorganização em nosso contexto cognitivo, quais sejam: o fortalecimento das suposições existentes; a contradição das suposições existentes; ou a derivação de implicações contextuais. Significa que atribuímos maior relevância a inputs que nos acrescentam mais por um esforço menor, salvo se o maior esforço for compensado por um ganho adicional.
Se o comunicador pretende ser compreendido, então emitirá o estímulo do modo mais relevante que for capaz ou estiver disposto a fazer. O receptor, por sua vez, entenderá que se o comunicador tentou atrair a sua atenção é porque tem algo de relevante a informar. O mecanismo do processo de compreensão guiado pela relevância deve, então, seguir um caminho de esforço mínimo na computação de efeitos cognitivos, considerando hipóteses de interpretação (desambiguações, atribuições de referências, suposições contextuais...) por ordem de acessibilidade; e parar quando alcançar o nível esperado de relevância, ou seja, uma interpretação que pareça a única possível.

Em outras palavras, quando estamos diante da necessidade de compreender algo, nossa mente aceita automaticamente a interpretação mais acessível, aquela que nos pareça a única possível para aquele contexto. Usamos as pistas disponíveis e os nossos conhecimentos pregressos para desvendar o que nos é transmitido.

Isso posto, segue a demosntração prática.

O tema será a escolha da escola para matricular o filho. Comecei com um problema bem difícil, mas de fácil reconstituição mental. Imaginem-se nas situações abaixo.

Situação 1. Quando iniciei essa procura, fiz contato com uma  pessoa de referência que já havia visitado várias escolas. Ela me recomendou a que mais havia gostado. Para me poupar do trabalho de investigação, liguei direto para a que me fora indicada. Demorou até que uma voz bastante desconcertada atendesse à ligação. A pessoa parecia estar em movimento, pela oscilação da voz, como se estivesse se balançando. Ao fundo era uma choradeira só. Estávamos em junho, então não era a semana de adaptação. A pessoa, um tanto afobada, não conseguia falar comigo direito, e eu a pude ouvir pedindo para que outra pessoa viesse me atender porque ela estava (ou deveria estar) cuidando das crianças.

Primeira conclusão que tive, enquanto ainda estava pendurada ao telefone: essa escola não dá.

A primeira impressão que temos quando chegamos a um lugar é a de como somos recebidos. Isso é determinante. O esperado e o desejado é que haja alguém preparado e disponível em uma escola, no horário comercial, para atender ao telefone e prestar informações sobre o local.

Parei na primeira interpretação. Foi a única possível.

Veja-se a minha cadeia de pensamentos:

S1 - A pessoa que deveria estar cuidando das crianças está afobada ao telefone;
S2 - Há uma choradeira descontrolada ao fundo;
S3 - S1 ^ S2 - S4(por modus ponens conjuntivo)
S4 - Não tem ninguém cuidando das crianças. (conclusão implicada)

Dizer que uma interpretação é a mais relevante não quer dizer que ela seja verdadeira, mas nesse caso eu não pagaria pra ver.

Parei na primeira e desisti daquela escola.

Situação 2. Tempo depois, meu filho já estava frequentando uma escola que nós consideramos adequada, porém, há na cidade uma outra escola que os pais não se cansam de dizer que é melhor. Não sei bem quais são os critérios usados, mas, considerando a dinâmica da cidade em questão, eu suponho que seja o status. Enfim. Decidi conhecer o tal paraíso, sentindo-me culpada por não oferecê-lo ao meu pequenino. Passei do portão, fui recebida pelo tio do pátio, o único que me recebeu com boa vontade e disposição. Pediu-me gentilmente que aguardasse a diretora, que estava uns dez passos à minha frente, tentando reunir um enorme grupo de adolescentes para lhes dar, digamos, uma "mijada coletiva".
Passados quinze minutos dessa situação patética, a senhora diretora veio até mim e cumprimentou-me, com ares de "o que quer aqui?". Expliquei que estava ali para conhecer a escola e que gostaria de saber se havia vaga para o pré I. Mal eu havia terminado a frase quando entrou pelo portão outra mulher e a diretora a abordou dizendo: "Ah! Que bom que você chegou! Já vou te passar essa mãe aqui pra você apresentar a escola". Só faltou dizer: "Tó". A mulher, que suponho seja a coordenadora pedagógica da educação infantil, respondeu de imediato: "Agora eu vou lanchar". Juro. Depois de uns vinte minutos em pé, em horário comercial, esperando aquele empurra-empurra, pensei:

S1 - (Porra...) Estou aqui porque tenho a pretensão de matricular meu filho nesta escola;
S2 - Em geral, as pessoas da escola fazem o seu melhor para tentar captar novos alunos;
S3 - S1 ^ S2 - S4 (por modus ponens conjuntivo);
S4 - Esta é a atenção máxima que eles poderão me oferecer (conclusão implicada).

Como cantaria Maria Rita "pouco é um pouco demais".     

A primeira impressão é às vezes fatal.

Claro que o problema maior da escola não está em não saber receber pais de alunos. Escrever qualquer coisa que questione o papel da escola me dá até medo, porque a escola se tornou uma espécie de mito obrigatório. É um tabu. Ninguém sabe dizer com precisão qual a função e a finalidade da escola, mas tampouco alguém ousa dizer isso abertamente. Preferem os eufemismos, preferem tratar dos problemas como se eles fossem 'desafios'.
Quem teve a oportunidade de trabalhar em escola pode ter uma visão mais ampla, além da visão que todos temos como os alunos que um dia fomos. As instituições de ensino público estão, em sua maioria, em estado de abandono. As particulares viraram um comércio burguês. Enquanto as primeiras tentam a todo custo transferir alunos, por superlotação, as privadas competem por eles em uma gincana mercenária de serviços agregados. No meio disso ficam os alunos, os professores, os funcionários.

Educar, ah... isso é tarefa dos pais. Concordo. O que eu me pergunto é a que horas os pais poderão desempenhá-la. Algumas crianças passam o dia inteiro na escola. Voltam pra casa para dormir. E isso não acontece só nas creches populares. Cada vez mais os pais endinheirados se convencem de que o melhor para seus filhos é que façam todas as modalidades de aula, em turno integral, desde a mais tenra infância. Não tenho bem certeza se eles defendem essa escolha por acreditar mesmo nela ou só pra não sentir um certo peso na consciência.

Vejo que a escola se perdeu. Os pais se perderam. Ninguém mais sabe o que fazer. A escola diz que quer se aproximar dos pais, mas quando os pais tentam se envolver a escola se esquiva. Sim. Pode participar, mas de acordo com as nossas regras. Bem, isso não é propriamente o que chamo de participação. Enfim.

Escrevo para declarar a minha frustração. Para transpor em palavras a angústia de muitos pais que precisam fechar os olhos para poder confiar seus filhos a um estranho ambiente que não sabe ao certo o que fará com eles. Escrevo para tentar entender mais sobre a influência que a escola teve sobre a minha vida e para projetar o que ela poderá fazer pela nova geração.

Se sou invisível como mãe, o que posso esperar que seja oferecido ao meu filho? Se as crianças não são percebidas em uma escola, então que tipo de educação poderão receber ali? As escolas estão mergulhadas em um mar de violência insitucional. Professores são humilhados. Alunos - crianças - matam uns aos outros dentro da sala de aula. E não podemos questionar a escola. Somos apenas obrigados a frequentá-la. 

Tenho dúvidas se foi na escola que aprendi o que realmente tenho usado pra sobreviver. Fora os títulos, que são pré-requisitos, claro. Tive a sorte de não ter a minha autoestima minada pelo bullying, que tanto sofrimento causou a alguns dos meus colegas. Tive a sorte de não ter sido reprovada por não saber aplicar uma fórmula qualquer de geometria analítica. Tive a sorte de ter feito uns poucos amigos dentro daquele universo que prometiam ser a socialização.

Quando, depois de desistir da dita 'melhor' escola, levei meu filho àquela que ele frequentou desde o final do ano passado, fomos recebidos com um caloroso abraço de boas-vindas. A coordenadora chamou-me pelo nome, perguntou ao meu filho coisas que sabe que são importantes para ele. Conduziu-nos até a porta da sala de aula, onde a professora estava a esperar por ele. A tão falada 'estrutura' da 'melhor' escola não passava de um monte de concreto. Tinha um parquinho pequeno e no concreto. Isso para mim indica o quanto valorizam o contato com a natureza, as brincadeiras ao ar livre, a possibilidade de exploração do espaço pela criança e, principalmente, o brincar.

A primeira impressão revela muitas coisas. No mínimo, dá umas boas pistas.
     

Um comentário:

  1. Não consigo ver estas fórmulas sem lembrar daquela equação com raiz que termina numa forca!
    No mais, sem reparos! Lá pode até não ser o paraíso, mas ao menos ele é respeitado como pessoa e não como um número na contabilidade.

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