terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Revista feminina


Revista feminina é aquele material produzido por grandes editoras com o suposto intuito de informar, atualizar e aliviar a culpa da mulher moderna. Em geral, trata de temas como sexo, sexo, sexo, comportamento masculino, moda, novas técnicas e cosméticos que prometem milagres para atingir o corpo e o rosto perfeitos, trabalho, filhos e uma receitinha sofisticada impossível de ser preparada em casa. A capa, como todos sabem, tem sempre uma famosa linda, "sarada", "photoshopada", com uma jóia cara, muita pele à mostra e uma legenda óbvia: descubra o segredo de fulana de tal. Não estou criticando ainda, apenas descrevendo.

Pois é. Revistas nos induzem a pensar que a vida pode ser avaliada por um recorte. Pensei sobre isso ao ler uma matéria acerca da terrível criação dos filhos dos famosos. Ãhn? Fiquei me perguntando. Não estou autorizada a julgar o desempenho e os sentimentos de outros pais com base somente em fotos tiradas e publicadas sem consentimento. O que sabemos do dia a dia de Angelina Jolie, de Katie Holmes ou de Victoria Beckham? Como pode uma matéria afirmar que pais famosos usam seus filhos para promoção pessoal?

O pior nesse tipo de texto é que ele costumeiramente une o senso comum ao comentário do especialista. Então, a cada tanto, o autor "cola" uma frase de efeito de algum profissional (este sim tentando se promover) para conferir mais crédito ao seu posicionamento particular. A fórmula é infalível. O que me surpreende é que psicólogos e psicanalistas se prestem a emitir pareceres a respeito de pessoas que eles não conhecem e nunca sequer viram de perto. Fazem interpretações selvagens e generalistas.

Sério. Francamente. Qual o problema de vestir os filhos arrumadinhos pra sair? Quase todas as mães do planeta fazem isso. Ah, mas a Katie Holmes quer que sua filha pareça perfeita, coloca sapatos de salto na menina, está roubando a infância e o discernimento dela. Ninguém aqui convive com elas, como podemos saber? O que sabemos é que cada vez que ela sai de casa para fazer qualquer coisa com a criança alguém tira uma foto e publica. Sinceramente, não levo meus filhos para a rua sem escovar os dentes, colocar um calçado e uma roupa limpa, mas nossa vida não é só isso e acredito que a delas também não seja.

Dizia a matéria que os filhos de famosos eram criados por babás. Ah tá. Só os de famosos, bem entendido. Eu não tenho babá porque não julguei necessário até o momento. Não tenho nada contra. O fato é que muitos pais precisam recorrer a esse serviço. Ponto. Quero ver quem seria capaz de cuidar de seis crianças pequenas sozinha e trabalhar fora nos dias de hoje. Por que exigiríamos isso de Angelina Jolie? Ah, porque ela adotou um monte de crianças para se promover. Eu tinha esquecido que ela não é linda, que não é ótima atriz, que não é casada com um dos homens mais desejados da Terra, que não é milionária e que já tinha uma carreira consolidada antes de ser mãe. Ela precisou mesmo adotar para aparecer. Acho que se eu e você fizéssemos isso também seríamos alçados à fama.

Contra a ex-spice girl argumentaram que certamente ela não descia do sapato chique pra bater um futebolzinho com os garotos. Mãe serve pra outras coisas também, né... Fora que ela é casada com um jogador de futebol.

É fácil criticar. Basta ignorar que por trás de uma imagem pública existe um ser humano como nós, que vive conflitos semelhantes. A diferença é que há uma lupa e um holofote apontando para ele, com várias câmeras a registrar tudo para que depois revistas possam divulgar os piores momentos. Acredito que ver uma série de notícias grosseiras sobre seus pais e sua vida é muito mais devastador para uma criança do que conviver com os seus problemas familiares reais.

Penso que julgamos os famosos por nossas próprias ações. Temos também nossos traços narcisistas, isso nunca foi crime. Até surpreende uma máteria de revista feminina criticando o narcisismo. Repletas de imperativos, essas edições estampam o quanto não estamos nos padrões. E tentam tirar dos padrões aquelas mulheres que elas mesmas elevam e definem como modelos. Alimentam na gente aquele tipo de crença de que as atrizes têm corpos perfeitos porque só fazem cuidar da beleza. Sabemos que não é verdade. Elas malham todos os dias e se sacrificam para tanto. Nós não o fazemos porque escolhemos não fazer, porque temos outras prioridades, nem melhores, nem piores.

Não precisamos detonar os outros para nos sentirmos bem. Não precisamos exigir que os outros sejam perfeitos e essa tarefa fica mais fácil quando aceitamos as nossas imperfeições. Revistas femininas são o contrário do que estou falando. Impõem uma guerra contra o seu tipo de cabelo, contra a sua celulite, contra o sexo que o seu marido sabe fazer. Aí você lê e fica pensando que só você é tão infeliz, tão pouco, tão gorda, tão sem dinheiro, tão frustrada. O problema maior, na sua cabeça, é que você não tem grana para pagar aquele tratamento à laser, é que você não se sente bem com aquela lingerie sexy, é que você e você e você.

Sim. O problema é você. Quem seria a solução? Bem, nós temos a solução para todo e qualquer mal. Siga nossos passos e será uma de nós. Sabemos mais do que você. Testamos tudo antes de você. Estamos em alta. Experimente. Em resumo: em poucos meses você acabará com o seu casamento, estourará o cheque especial, estará vestida de palhaça (porque nada combina em foto de editorial), agirá como um homem arrogante no trabalho, comerá cherne em crosta de mandiopã com caruru e taioba, ficará com cara de Caubi Peixoto depois de tanto botox e, sinto muito, a sua celulite continuará lá.

Acho que essa é a razão pela qual não obedecemos a essas revistas. Precisamos aprender a não nos culpar por isso.

=]

2 comentários:

  1. Trazendo a situação para a analogia do universo masculino, a situação das revistas femininas é a mesma do comentarista esportivo. O camarada tá lá, barriguidinho, comendo besteira na cabine de imprensa detonando tudo nundo como se fosse um Pelé com a bola nos pés e um Rubens Minelli como treinador. Daí você coloca o camarada para pegar a bola e ele não sabe fazer duas embaixadinhas e ão entende bulhufas de tática. Lembro-me quando um famoso comentarista do Rio, que tudo sabia, foi treinar o Flamengo e foi um fiasco! Na teoria é fácil! Queria que essas revistas, por exemplo, fizessem uma edição sobre elas mesmas... as "jornalista" e editoras... normalmente de pouca beleza, de pouco talento (pois se tivessem algum estavam em editorial de imprensa) e que estão com o filhos bebês nas creches da vida, enquanto trampam o dia todo para falar mal do outros! É por isso... só por isso... que prefiro ver um fã falando de um disco de seu músico favorito, exaltando as qualidades, do que um babaca crítico musical que só sabe detonar o trabalho alheio, mas mal sabe segurar um pandeiro na mão!
    Adorei o texto! Beijo!

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  2. Concordo plenamente.
    Revistas femininas poucas coisas se aproveita.
    A maioria só falam de dietas milagrosas.
    Deveriam ter contéudos que pudessem ser aproveitados.
    Adorei a materia da Lia.
    Sônia

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