quinta-feira, 21 de abril de 2011

Despedidas


Enquanto insisto na ilusão de não perder o que não posso ter, a vida se despede discretamente todos os dias. De mim, de ti, de todos nós. Até que, simplesmente, ela se vai.

terça-feira, 19 de abril de 2011

A minha pequena história da fotografia: fragmentos de uma vida retratada

       

        A minha história com a fotografia não remonta, obviamente, ao daguerreótipo ou a qualquer outro mecanismo antigo de registrar imagens. Trato de um ponto de vista particular, em um texto não-científico, das relações e dos fatos que vivi e que foram – ou não – fotografados, em tese, não somente para garantir a irrevogabilidade do passado, mas principalmente para lhe permitir a vida eterna. Trinta anos de história do Brasil carregam o peso de acontecimentos marcantes, memoráveis. Entretanto, tal parcela de tempo não parece muita coisa quando se refere a uma vivência individual, afinal, o que poderia ter de tão grandioso na trajetória de uma jovem recém-chegada a casa dos trinta? Nada. Mas não estamos a falar de grandiosidades e sim de pequenos fragmentos retratados. Portanto, embora de partida soe presunçoso, o que proponho neste ensaio autobiográfico é apenas relatar o impacto da fotografia na construção da pessoa que sou.
        A marca inicial das objetivas me fora impressa antes do meu nascimento. Não há uma sequer foto de minha mãe grávida de mim. Tolice, poderiam pensar. Ocorre que tenho uma irmã muito cruel, ciumenta e possessiva e, dado o meu status equiparado de filha, seu ódio a fez atormentar-me pela infância. Ela se entusiasmava ao contar em detalhes o dia em que fui achada na lata de lixo, uma mentira inescrupulosa que por certo colocou a formação de minha identidade em crise. Despertou-me cedo para a vergonha, a desconfiança e a revolta, sentimentos dos quais nunca me desfiz. A meu favor não havia prova. Fui fotografada pela primeira vez na hora do meu batizado, sobre a pia batismal, no colo de meus padrinhos. Nem posso ter certeza de que sou eu ali. É o que dizem do bebê vestido de menina, com roupa branca engomada, enfeitada com lacinhos, envolto em uma manta amarela de modo que mal se pode ver o rosto franzido pelo choro.
        Tive depois outras tantas fotos, guardadas nos álbuns de família. Nenhuma, porém, permite garantir a minha origem. Apareço criança fazendo gracinhas, tomando banho, banguela, suja de comida, enfim, em uma série de cenas cotidianas que, por alguma razão, foram consideradas importantes e dignas de lembrança. Talvez tenha sido o ineditismo das minhas ações no que tange a minha própria existência o agente motivador dos flashes, pois com o passar dos anos a prática tornou-se mais restrita a eventos comemorativos, viagens, ocasiões especiais.
        Não sou fotogênica, não fico bem sem movimento. Não tenho um ângulo melhor, não fico natural diante da câmera. Não há luz que resolva. Isso não me preocupa. Aos nove anos descobri que a fotografia não pode – e nem deve – registrar a realidade. As pessoas não desejam uma cópia do real, ao contrário, desejam atingir uma espécie de 'real ideal', que só pode ser obtido pela manipulação fotográfica. Veja-se. Eu, menina, gordinha, estava sentada em uma cadeira de praia, na praia, com os pés na areia, de biquíni vermelho, comendo uma espiga de milho verde debaixo do guarda-sol, quando minha mãe resolveu tirar uma foto. Posicionou-se à minha frente, a uma distância de uns dois metros, inclinou-se, ajustando o aparelho ao olho, fez menção de apertar o botão e desistiu. Soltou a câmera sobre a mesinha improvisada, olhou-me em direção ao umbigo e disse: “melhor colocar uma camiseta para a barriga não aparecer na foto”. Olhei para baixo, de uma perspectiva que nunca me havia ocorrido, e vi três dobras de pele e gordura. Vi não mais pelo meu olhar, mas pelo olhar da minha mãe através da objetiva. E assim, pela segunda marca da fotografia, instalou-se em mim o crivo da aparência, alocando-me no mundo dos valores.
        Não importa que o sujeito seja feio, ele quer é parecer bonito. Se a foto ficou 'boa', então está tudo certo. A realidade é fugaz, não faz diferença. A foto ganha força de verdade não porque as pessoas não sabem que não se trata do real, mas porque preferem, dentre as duas formas de sua apresentação imagética, a que lhes parece mais conveniente. O homem conquistou o poder de criação divino: a foto pode ser, fantasiosamente, uma expressão concreta da vida em uma dimensão paralela, moldada nos limites do gosto e da habilidade humana.
        Aos onze anos mudei, finalmente, de lado em relação à câmera. Morávamos no Paraná e estávamos em uma expedição familiar pelo pantanal, no Mato Grosso do Sul. Instalamo-nos em uma ilha fluvial localizada no Paraguai, a três horas de barco do solo brasileiro, sua divisa territorial mais próxima. Quando lá aportamos, constatamos que a câmera havia sido esquecida em casa. Cabe esclarecer que aquela câmera não era um mero aparelho de tirar fotografia. Era uma preciosidade japonesa capaz de duplicar o número de poses do negativo, de modo que, se inserido um filme de trinta e seis poses, teríamos setenta e duas fotos. Tinha também um flash externo, acoplado pela parte superior, e possuía várias regulagens diafragmáticas. Era uma câmera profissional, rara e cara, ao menos na visão da minha família. Por todos esses atributos, era um aparelho de uso exclusivo dos adultos e ficava escondido na prateleira bem de cima do roupeiro, dentro de um estojo, no quarto dos meus pais. Foi então, por ter sido deixada pra trás, que a câmera 'sagrada' não mais determinou o meu lugar na fotografia.
        Como sempre fui afeita às compras e não à pescaria, tratei logo de vasculhar a ilha em busca de uma loja. Havia um único mercadinho, um misto de farmácia, camelô, açougue, conveniência, papelaria e bar. Para minha surpresa, encontrei uma câmera fotográfica e dois rolos de filme de trinta e seis poses cada. Comprei o conjunto. A câmera custou pouquíssimos dólares e, evidentemente, nem de longe se parecia com a dos meus pais. Era extremamente simples, sem opcionais, sem flash, toda manual, de plástico. Chamava-se 'Vivitar'. Animada, voltei ao hotel de palafita para tentar desvendar os mistérios da colocação do filme. A partir dali, fui iniciada – aprendi a ver o mundo pelo meu olhar através da objetiva.
        Sem os recursos da tecnologia digital, que agora me permitem a visualização imediata do resultado captado e a tiragem de milhares de fotos que se armazenam em um minúsculo cartão de memória, naquela época e especialmente naquela circunstância as condições eram escassas. Eu dispunha de setenta e duas poses e não poderia desperdiçá-las, ao passo que também não poderia instantaneamente saber o que havia capturado. Cada foto foi, portanto, meticulosamente planejada, escolhida, pensada, aguardada. Algumas foram perdidas, porque todos esses artifícios mentais exigem consumo de tempo e a natureza não espera nem posa. Foi o caso do mergulho do jacaré gigante ao lado do nosso barco, cuja foto guardou apenas as ondas que sobraram na água após o sumiço da cauda.
        Fora isso, fotografei pássaros exóticos, plantas aquáticas, animais diversos, pessoas, lugares; e uma foto recebeu destaque. Ao final de uma das muitas tardes que passamos ali, saí pelo vilarejo a passeio. Havia uma igreja inimaginável no ponto mais alto daquela ilha, uma construção antiga semelhante às nossas igrejas barrocas mineiras. Nunca fui religiosa, mas apreciei a combinação de cores, formas e sombras daquele local. Ao pé do morro, montei três planos visuais, o primeiro composto por árvores e galhos, o segundo pela igreja e o terceiro pelo sol, que já se escondia parcialmente atrás da torre do sino. Fotografei. A revelação encheu meus pais de orgulho - como a câmera era ruim, os créditos foram todos oferecidos a mim. Constatei que as fotos eram capazes de exercer um fascínio sobre as pessoas, suficientemente intenso para despertar-lhes sentimentos, pensamentos e ações, que não necessariamente se relacionavam ao modelo. O orgulho parental é uma marca essencial para o desenvolvimento de um filho e eu a recebi por uma atitude fotográfica.
        Fui aos Estados Unidos na adolescência, em minha primeira viagem sem a família. Não posso dizer que sozinha porque estava numa dessas excursões com guias, que aos quinze anos os jovens gostam de fazer com os amigos. Sou a única pessoa que conheço que foi à Disney e não tem nenhuma foto sua lá. Alguns até duvidam que fui, porque não tenho fotos. Meus pais emprestaram-me a câmera profissional, que assumi com a responsabilidade de proteger uma jóia. Olhando de perto, estava meio velha, com desgastes e uns enferrujadinhos, mas ainda era a fabulosa câmera capaz de duplicar filmes. Como de praxe na história do uso daquele aparelho, que nós usualmente chamávamos de máquina, sem considerar o âmago das questões etimológicas e sociológicas da palavra, instalei um filme de trinta e seis poses. E preciso dizer que sempre me causou horror que usassem um filme tão grande, porque demorava muito para 'bater' setenta e duas fotos nos critérios usados pelos meus pais. A revelação, portanto, costumava ultrapassar seis meses do momento fotografado e, para uma criança ou um adolescente, esse era um prazo interminável.
        Nas minhas mãos, em New York, porém, setenta e duas fotos não levaram três dias. Ainda no embalo do meu anterior sucesso como fotógrafa, fiz o meu melhor. Andava com aquela câmera pra todo lado, como de posse de um instrumento mágico e valioso. Nem vi direito os lugares em que estive, preocupei-me, de fato, em guardar o máximo da cidade naquela 'caixa preta'. Para minha tristeza, eu, que imaginava satisfeita os resultados de cada 'clique', vi ao chegar no hotel aquela máquina cem por cento automática engasgada a trucidar o rolo do negativo, quando tentei rebobiná-lo para a retirada do filme. Tomada de ódio, joguei o rolo estragado fora e guardei a câmera no estojo, dentro do roupeiro, que era o lugar dela. Saí e comprei uma Polaroid, um investimento que me fora bastante caro, ainda mais se somado ao custo dos filmes específicos e difíceis de achar. Fiz alguns testes dentro do quarto e, em poucos minutos, como depois de todas as práticas movidas por impulso, fui contemplada com o arrependimento. Além da qualidade ruim, tratava-se de um trambolho chato de transportar. Dali pra frente, seguiram-se vinte e dois dias de viagem e cinco cidades americanas, sem nenhuma foto. Entendi que a fotografia deveria se prestar a outros fins que não substituir os nossos próprios olhos para a vida enquanto ela acontece, porque a câmera, tal qual a mente humana, não é confiável.
        Engraçado como na minha família a fotografia é vista como algo 'vivo'. Não é permitido rasgar uma foto em que apareça um ser humano, em nenhuma hipótese. Observei muitas vezes esse fenômeno ao tentar me desfazer de qualquer foto que não tivesse ficado legal. As expressões faciais indicavam o prenúncio de uma tragédia, como se ao eliminar a imagem do papel, estivesse premeditando a morte, ao menos simbólica, da pessoa. A mim, que não sou mística nem apegada a materialidades, parece curioso, mas confesso que não sou capaz de rasgar sem culpa uma fotografia de alguém que já morreu. Não por medo do morto, claro, mas pela impossibilidade de oferecer em sua memória um novo registro. Caio na mesma cilada, eu sei. Reconheço que minhas relações com a fotografia estão ditadas, em alguma medida, pelas referências familiares, independente de meus conhecimentos filosóficos. Se a foto não é a cópia do real, é algo que, a seu modo, pode nos remeter a ele pela nossa própria versão.
        Meus pais têm pouquíssimas fotografias de infância. Minha mãe tem duas ou três, em preto e branco. São fotos posadas, com cabelo arrumado, roupa impecável e cenário montado. Meu pai tem uma foto, tirada provavelmente aos dois anos de idade, posada ao lado do irmão ligeiramente mais velho. Ele nem tinha conhecimento dessa foto até pouco tempo atrás, quando alguma de suas irmãs a localizou em caixas antigas na casa da vó. Lembro que ele ficou feliz, mas decepcionado por não ter uma foto só dele. Levei então ao estúdio para que fizessem uma nova edição, sem o meu tio. Agora ele tem uma imagem plena de um passado 'real ideal'. Está lá o menino, sozinho, em pose, apoiando o braço em um aparador, perto do que parece ser uma bola no chão – mas que na verdade era uma laranja fazendo papel de bola, segundo ele mesmo conta e conforme pode ser comprovado em uma observação atenta. Não importa a foto em si, mas o efeito que ela exerce sobre ele.
        Tenho a impressão de que algumas pessoas pensam a fotografia como um tipo de 'vodu'. Sentem-se ameaçadas pela foto, pelo uso indevido da sua imagem/pessoa. Deve ser um resquício do pensamento mágico infantil. Uma foto minha não sou eu, é tão e somente uma foto minha. Nada do que seja feito diretamente ao papel poderá me atingir de nenhuma maneira, salvo a sua divulgação, que dependendo do caso e do conteúdo poderá influenciar a ideia dos outros sobre mim (se tomada como retrato fiel da verdade para fins de julgamento).
        Prova maior de que a foto da coisa não é a coisa e nem tampouco a cópia da coisa são as fotografias dos imóveis disponíveis em imobiliárias para venda ou locação. Quando tenho de fazer uma mudança de cidade – e o faço com certa frequência – constato essas máximas. Entro nos sites, escolho pela foto os imóveis para vistar e, após mais de cem ocorrências, não encontrei nenhum que tivesse emanado para a fotografia, o que, do ponto de vista prático, é uma pena. Parece-me que a fotografia muitas vezes se presta a retratar somente aquilo que pode ser visto, ou melhor, lembrado. Temos legitimidade social para fotografar todos os eventos da vida de uma pessoa, exceto a doença, a desgraça e a morte – essas só os jornalistas, os artistas e os de 'mau gosto' se aventuram a fazer.
        Embora tenha perdido um pouco o hábito de fotografar, é uma atividade que gosto de fazer. Ao contrário dos meus pais, que lançavam mão da câmera em momentos especiais, eu não a uso com essa finalidade. Se vou passear, quero passear. Não quero parar a todo instante para tirar fotos. Se, por outro lado, quero fotografar, então faço com dedicação a tarefa. Quando saio com o meu marido, que tem o vício da fotografia, por estratégia fico com a máquina. Digo para que fique tranquilo que estarei a registrar tudo, mas evidentemente não o faço. Sim, é desleal, mas ao menos o liberto para viver o momento, para estar ali sem a pretensão de controlar a realidade, sacrificando a espontaneidade e o fluxo natural das cenas da vida.
        A chegada da câmera digital roubou-me o prazer da revelação. As setenta e duas poses ficaram pra trás. Reconheço que tinha um respeito maior pela foto impressa, não sei por quê. Se antes as fotos ficavam acomodadas harmoniosamente em álbuns estruturados, decorados, catalogados e admirados, hoje sequer abro uma pasta nova nos arquivos do computador. Não há mais a expectativa pelo resultado, visualizo na máquina e fim. Nem costumo abrir as fotos 'salvas' para olhar. A fotografia analógica parece estar para fotografia digital como a lasanha da vovó para a lasanha congelada de supermercado, ao menos no que se refere ao modo como boa parte das pessoas que conheço, incluindo a mim, comportam-se diante da tecnologia fotográfica.

Ali


Às vezes (muitas vezes), sou acometida inesperadamente por uma vontade louca de sair correndo.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Eu te conheço?


João estava parado em pé na fila do banco, com um bolo de contas, cheques e dinheiro na mão, aguardando a sua vez. Havia em sua frente umas quinze pessoas para atendimento, o que lhe rendia um cálculo aproximado de quarenta e cinco minutos de espera. Enquanto alternava o peso do corpo entre uma perna e outra, conferia o relógio de pulso e fazia umas caretas, dando os primeiros sinais de tédio. De repente, em uma daquelas suas olhadas de trezentos e sessenta graus pela sala, avistou um homem que lhe era vagamente familiar caminhando muito entusiasmado em sua direção. Pois o homem chegou perto com um grande sorriso no rosto, demonstrando uma alegria contagiante por encontrar, ao acaso, João naquele recinto. Deu-lhe uns dois tapas nas costas, cumprimentou-o e foi perguntando:
  • Daí, cara, nossa! Faz tempo que está aí na fila?
João, fazendo um enorme esforço mental para tentar lembrar de onde conhecia o sujeito, tentou retribuir o entusiasmo à altura, mas estava difícil esconder o embaraço. Respondeu com neutralidade.
  • Oi, que surpresa boa! Quanto tempo! É... faz uns vinte minutos que estou esperando. Banco é sempre assim né... Já tem que vir preparado.
  • E como é que está o seu pai, se recuperou da cirurgia de próstata?
Por saber dessa particularidade, João pensou inicialmente se tratar de alguém íntimo da família, mas depois lembrou-se de que sua mãe não tinha muita censura e falava abertamente das intimidades familiares pela cidade. Portanto, qualquer um poderia saber daquela informação, para desespero seu e desgosto de seu pai.
  • Ah, sim. Já está bem. Cem por cento. Essas cirurgias são meio chatas, mas agora já está tudo bem.
Enquanto o sujeito balançava a cabeça afirmativamente, concordando com o que havia sido dito, parecia esperar pela continuidade da conversa. João, com medo de dar um fora, optou por uma pergunta genérica sobre a 'família', afinal todo mundo tem ao menos um parente. Era uma maneira também encontrar alguma pista para descobrir a identidade do rapaz.
  • E a família, como vai?
  • Ah... o pai e a mãe você sabe né... com aqueles problemas de saúde de sempre. Até deixa eu aproveitar a oportunidade e te perguntar uma indicação de um especialista. Você, que é da área da saúde, sabe me indicar alguém?
Putz... E qual seria o problema especificamente? João teve de pensar rápido.
  • Quem estava acompanhando ele? O que ele está tomando?
  • Ele estava com o Dr Silveira, cardiologista, mas o Dr. Silveira pediu pra ele procurar um hemato.
Ufa...

  • Ah sim, lá na clínica temos um excelente, o Dr. Adalberto.
João olhava para a fila, contando os minutos pra escapar dali o quanto antes.
  • Pô, muito obrigado. Vou ligar essa semana pra marcar. E no mais, como estão a Luiza e as crianças?
  • Está tudo certo, Luiza está viajando, volta amanhã; e os meninos estão na escola.
Para ser educado, João viu-se obrigado a perguntar mais diretamente sobre esposa e filhos, sabendo que estava a correr um sério risco. Optou por um tom bem geral.
  • E vocês?
  • 'Vocês' nada... lembra que me separei no ano passado né...
  • Ah, sim, mas sabe como é, homem sempre tem alguém...
João riu nervoso, tentando consertar.
  • É cara, pior é que é. Tô saindo com umas garotas aí, mas agora não quero me envolver. Não quero saber de compromisso. Tá bom assim, tá bom assim.
Como o assunto estava ficando delicado, João preferiu mudar o rumo da conversa.

  • E o trabalho?
  • Tô lá na empresa ainda, entrou um pessoal novo, estamos fazendo umas adaptações nos setores e tal. Tá indo.
Angustiado, João, que havia desistido de reconhecer o sujeito, resolveu dar um xeque-mate para acabar com aquele sufoco. Vendo o homem de mãos abanando, teve uma ideia.
  • Você está esperando o atendimento do caixa também?
  • Não, não... Vou falar com o gerente, vim resolver umas coisas da empresa. Vou mesmo indo nessa, não posso me atrasar hoje. Bom te ver por aqui! Aparace lá em casa, dá uma ligada, vamos combinar uma hora dessas.
Funcionou!
  • Ah, sim. Com certeza. Passando essa correria de final de ano eu te ligo pra gente fazer alguma coisa.
  • Até mais!
  • Até!
João não conseguiu lembrar quem era e nem tampouco de onde conhecia o tal homem do banco, mas tratou de gravar as novas informações para um futuro encontro inesperado.

domingo, 17 de abril de 2011

O presente, a sacola e o aviso



Dias atrás recebi um desaforo, desses que nos pegam assim de surpresa, enquanto estamos entre amigos comendo, bebendo e nos divertindo. Não foi apenas uma ofensa, mas uma humilhação pública sem qualquer cabimento. Ouvi um sujeito proferir blasfêmias ao meu lado, sem ter sequer a dignidade de me olhar no rosto. Disse absurdos, pautados em uma informação leviana e equivocada que lhe fora dada. Era, indubitavelmente, uma dessas pessoas desprovidas de crítica.

Perdi o chão. Instantaneamente, a alegria me foi roubada. Pensei: por que isso está me acontecendo? O que eu, depois de tantos anos de trabalho e dedicação acadêmica, poderia ter feito para merecer ser tratada dessa forma desmedida e sem razão? Como alguém que não me conhece, que nunca nem me viu antes, pode se considerar tão sabedor sobre a minha formação? E como outro alguém pode ter sido tão prepotente, irresponsável e petulante ao ponto de se sentir legitimado a avaliar negativamente a qualificação técnica de todos os profissionais de um estado inteiro? Isso não fazia o menor sentido.

Fiquei arrasada. Não tive palavras. Fui embora. No caminho de casa, chorei. Chorei e lamentei ter nascido para estar ali naquele momento. Chorei mais ainda e desejei que o mundo acabasse. Pensei em ir embora, pensei em largar tudo, em simplesmente sumir. Dormi e horas depois acordei angustiada, sem vontade de nada. Fiquei encolhida, queria fechar os olhos e viver para sempre só dentro de mim. Odiei aquele homem. Odiei aquela mulher. Odiei a mim. Odiei toda a gente. Fui tomada por um sofrimento intenso, por uma tristeza sem fim. Não quis sair da cama. Desisti.

De repente, algo aconteceu. No meio de tantos pensamentos ruins e dolorosos, lembrei-me do aviso que recebi. Nesse exato instante, toda a dor desapareceu. Tive uma sensação de bem-estar, senti uma força natural trazer de volta o alívio, o amor pela vida, a noção de quem sou e do que estou a fazer aqui. Levantei e imaginei então uma história.

Antes de nascer, no ritual de passagem, somos todos conduzidos por um anjo até o portal. Ainda do lado de lá, o anjo nos entrega três elementos essenciais para a vida: um presente, que será o nosso corpo e cuja posse ocorrerá tão logo cruzarmos o portal; uma sacola invisível, que deveremos carregar sobre nossos ombros por todo o período de nossa estadia na Terra e onde poderemos guardar ou remover, a qualquer tempo, tudo de bom e de ruim que recebermos; e um aviso: “Não terás controle sobre a maior parte das circunstâncias que acontecerão em tua vida, mas poderás sempre escolher o que farás diante delas. Agora vá, leva a tua sacola, cuida do teu corpo e faça o melhor que puder”. Para alguns, como sabemos, ele completa: "Desce e arrasa!".

Pensei: não passei por tudo que passei, não cheguei até aqui para morrer engasgada com esse pedaço de jiló que caiu, aleatoriamente, no meu prato. Sinto muito, não sou tão pequena. Quero fazer melhor do que isso. Recusei a agressão e ajustei a dimensão do problema, que poderia ser maior ou menor dependendo apenas do meu julgamento. E como argumento sem fundamento é prova nula, decidi poupar o meu sofrimento para quando realmente precisar dele.   

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Amores de menina


Lembro-me do meu primeiro 'amor'. Quero dizer, lembro-me da emoção, porque do menino já me esqueci faz tempo. Eu era criança e estava vendo o filme 'A história sem fim'. Pronto. Duas ou três cenas e eu estava suspirando pelo protagonista que voava em cima de um cachorrão. Sim, ridículo. E quem disse que a paixão não pode ser ridícula? Esse é o ponto. Alguém deveria nos dizer logo cedo essa informação. Ah... se tivessem me dito isso! Ou, sei lá, se eu tivesse ouvido... 

Tive uma infância repleta de paixões. Sempre tinha um gatinho na sala, um carinha na praia, um... Bem, antes que façam mau juízo, adianto que nada se concretizava. Claro, eles nunca olhavam pra mim. Afinal, sempre tinha também uma menina mais bonita (se é que essa pode ser considerada a medida das paixões infantis). O fato é que aquilo rendia. A cada ano havia um novo eleito para ser secretamente cobiçado. 

Nas festas, nunca fui disputada. Ficava sentada ao lado da mesa de salgadinhos, enquanto alguns pares dançavam. As meninas venenosas perguntavam: 'por que você não vai dançar?'. E eu, sem graça, respondia, intercalando: 'estou cansada' e 'estou com dor nos pés'. Jura! Uma criança cansada e com dor nos pés? Pobre de mim! Só o que eu queria disfarçar era que estava louca pra dançar e que ninguém naqueles benditos bailinhos me convidava. Ali aprendi a arte de fazer cara de paisagem. Estava arrasada, humilhada, frustrada, com raiva e, apesar disso, continuava sorridente e educada. Lições práticas de 'mulheridades'...

Por trás da discussão, a (falta de) beleza. Não fui uma menina bonita. Nunca fui popular. Tive poucos amigos. Meus pais, como outros adultos, nunca sequer imaginaram que todas essas questões se passavam pela minha cabeça e afetavam a minha vida. A gente subestima os sentimentos das crianças. Estava agora visualizando a cena da festa, eu lá, quieta, comendo sozinha, olhando os outros dançando e me sentindo péssima. Fiquei solidária à criança do meu passado. Pena não poder confortá-la, dizer a ela que existem muitas outras maneiras de viver e de se divertir (e que muitas das meninas adoradas saíram depois dos padrões e se deram muito mal quando cresceram). Eu, incrédula, me perguntava: como é possível que duas pessoas se apaixonem uma pela outra? Parecia-me uma grande sorte que esse fenômeno acontecesse, porque, partindo da minha experiência, essa era uma vivência improvável.  

Na adolescência dei uma melhorada. Fiquei mais ajeitada, aprendi a me arrumar. Tive lá os meus admiradores. Encontrei pares, mas (ou talvez por isso) aprendi a existir e a curtir sem eles. Ficava cansada e com dores nos pés, dessa vez de dançar. No fundo, continuava a me sentir como a menina feia e preterida. Havia trocado de atitude, bem verdade, mas, indiscutivelmente, não havia mudado a essência. Tem certas marcas que o tempo não apaga.

Nunca vi ninguém mais fiel do que o passado - ele nunca nos abandona. Não importa o que aconteça, vira e mexe caímos lá. Quando vejo, estou sentada, envergonhada, encolhida, olhando a vida e dando explicações furadas para pessoas intrometidas sobre o por que não faço algo que gostaria de fazer. Sou eu, aos quase trinta anos, a comer salgadinhos e a mostrar simpatia enquanto meu pequeno e mesquinho mundo desaba.   

sábado, 2 de abril de 2011

Formalidades


Ando avessa à formalidade. É. A verdade é que sou uma pessoa informal. Falo um português coloquial, uso gírias, engulo uns plurais, fico de pés descalços, prefiro roupas de algodão, saio de chinelo, trato todo mundo com educação, sem muitas distinções. 
Isso tem me causado um certo desconforto. Estou inserida em um ambiente acadêmico, que por natureza emana formalidades. Obviamente, estou acostumada a conviver com a maior parte delas, mas não me sinto à vontade para apresentar trabalhos em público. Passo semanas pesquisando, produzindo artigos, estudando. Chega o dia da apresentação, putz... que mau-humor! Fico irritada, estressada, incomodada. Não gosto de tablados, de bancadas, de microfones, de projetores, de câmeras. Gosto é de conversar em pequenos grupos, discutir ideias, compartilhar. Na prática, geralmente há apenas um pequeno grupo dentro do grande grupo que está ali pra prestar atenção mesmo. Não me interessa falar para quem não quer ouvir. Não me anima ficar exposta a duras críticas. É difícil para mim fazer cara de doutora, chamar a todos de 'senhores', manter a coluna ereta e eliminar o 'a gente' de qualquer ação sobre a qual eu esteja comentando. Essa é uma máscara deveras apertada de usar. Faz parte das durezas de ser quem não se é. Não soa natural. Tira-me a visão, a audição, a fala. A voz embarga, não sai direito. Esqueço metade do que deveria dizer. Viver de aparências não dá. Consome muita energia. Enquanto não tenho escolha, sigo fazendo banca. Affff...