segunda-feira, 4 de abril de 2011

Amores de menina


Lembro-me do meu primeiro 'amor'. Quero dizer, lembro-me da emoção, porque do menino já me esqueci faz tempo. Eu era criança e estava vendo o filme 'A história sem fim'. Pronto. Duas ou três cenas e eu estava suspirando pelo protagonista que voava em cima de um cachorrão. Sim, ridículo. E quem disse que a paixão não pode ser ridícula? Esse é o ponto. Alguém deveria nos dizer logo cedo essa informação. Ah... se tivessem me dito isso! Ou, sei lá, se eu tivesse ouvido... 

Tive uma infância repleta de paixões. Sempre tinha um gatinho na sala, um carinha na praia, um... Bem, antes que façam mau juízo, adianto que nada se concretizava. Claro, eles nunca olhavam pra mim. Afinal, sempre tinha também uma menina mais bonita (se é que essa pode ser considerada a medida das paixões infantis). O fato é que aquilo rendia. A cada ano havia um novo eleito para ser secretamente cobiçado. 

Nas festas, nunca fui disputada. Ficava sentada ao lado da mesa de salgadinhos, enquanto alguns pares dançavam. As meninas venenosas perguntavam: 'por que você não vai dançar?'. E eu, sem graça, respondia, intercalando: 'estou cansada' e 'estou com dor nos pés'. Jura! Uma criança cansada e com dor nos pés? Pobre de mim! Só o que eu queria disfarçar era que estava louca pra dançar e que ninguém naqueles benditos bailinhos me convidava. Ali aprendi a arte de fazer cara de paisagem. Estava arrasada, humilhada, frustrada, com raiva e, apesar disso, continuava sorridente e educada. Lições práticas de 'mulheridades'...

Por trás da discussão, a (falta de) beleza. Não fui uma menina bonita. Nunca fui popular. Tive poucos amigos. Meus pais, como outros adultos, nunca sequer imaginaram que todas essas questões se passavam pela minha cabeça e afetavam a minha vida. A gente subestima os sentimentos das crianças. Estava agora visualizando a cena da festa, eu lá, quieta, comendo sozinha, olhando os outros dançando e me sentindo péssima. Fiquei solidária à criança do meu passado. Pena não poder confortá-la, dizer a ela que existem muitas outras maneiras de viver e de se divertir (e que muitas das meninas adoradas saíram depois dos padrões e se deram muito mal quando cresceram). Eu, incrédula, me perguntava: como é possível que duas pessoas se apaixonem uma pela outra? Parecia-me uma grande sorte que esse fenômeno acontecesse, porque, partindo da minha experiência, essa era uma vivência improvável.  

Na adolescência dei uma melhorada. Fiquei mais ajeitada, aprendi a me arrumar. Tive lá os meus admiradores. Encontrei pares, mas (ou talvez por isso) aprendi a existir e a curtir sem eles. Ficava cansada e com dores nos pés, dessa vez de dançar. No fundo, continuava a me sentir como a menina feia e preterida. Havia trocado de atitude, bem verdade, mas, indiscutivelmente, não havia mudado a essência. Tem certas marcas que o tempo não apaga.

Nunca vi ninguém mais fiel do que o passado - ele nunca nos abandona. Não importa o que aconteça, vira e mexe caímos lá. Quando vejo, estou sentada, envergonhada, encolhida, olhando a vida e dando explicações furadas para pessoas intrometidas sobre o por que não faço algo que gostaria de fazer. Sou eu, aos quase trinta anos, a comer salgadinhos e a mostrar simpatia enquanto meu pequeno e mesquinho mundo desaba.   

Um comentário:

  1. Pior eu, que nem ia ao bailinho, por já estar ciente da rejeição que sofreria. Primeiro... mais gorrdinho... depois dei aquela esticada e fiquei bem magro. Para somar, óculos e aparelho nos dentes!!!!
    O jeito era ficar em casa, lutando para conseguir conectar a interner discada :-)

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