segunda-feira, 18 de abril de 2011

Eu te conheço?


João estava parado em pé na fila do banco, com um bolo de contas, cheques e dinheiro na mão, aguardando a sua vez. Havia em sua frente umas quinze pessoas para atendimento, o que lhe rendia um cálculo aproximado de quarenta e cinco minutos de espera. Enquanto alternava o peso do corpo entre uma perna e outra, conferia o relógio de pulso e fazia umas caretas, dando os primeiros sinais de tédio. De repente, em uma daquelas suas olhadas de trezentos e sessenta graus pela sala, avistou um homem que lhe era vagamente familiar caminhando muito entusiasmado em sua direção. Pois o homem chegou perto com um grande sorriso no rosto, demonstrando uma alegria contagiante por encontrar, ao acaso, João naquele recinto. Deu-lhe uns dois tapas nas costas, cumprimentou-o e foi perguntando:
  • Daí, cara, nossa! Faz tempo que está aí na fila?
João, fazendo um enorme esforço mental para tentar lembrar de onde conhecia o sujeito, tentou retribuir o entusiasmo à altura, mas estava difícil esconder o embaraço. Respondeu com neutralidade.
  • Oi, que surpresa boa! Quanto tempo! É... faz uns vinte minutos que estou esperando. Banco é sempre assim né... Já tem que vir preparado.
  • E como é que está o seu pai, se recuperou da cirurgia de próstata?
Por saber dessa particularidade, João pensou inicialmente se tratar de alguém íntimo da família, mas depois lembrou-se de que sua mãe não tinha muita censura e falava abertamente das intimidades familiares pela cidade. Portanto, qualquer um poderia saber daquela informação, para desespero seu e desgosto de seu pai.
  • Ah, sim. Já está bem. Cem por cento. Essas cirurgias são meio chatas, mas agora já está tudo bem.
Enquanto o sujeito balançava a cabeça afirmativamente, concordando com o que havia sido dito, parecia esperar pela continuidade da conversa. João, com medo de dar um fora, optou por uma pergunta genérica sobre a 'família', afinal todo mundo tem ao menos um parente. Era uma maneira também encontrar alguma pista para descobrir a identidade do rapaz.
  • E a família, como vai?
  • Ah... o pai e a mãe você sabe né... com aqueles problemas de saúde de sempre. Até deixa eu aproveitar a oportunidade e te perguntar uma indicação de um especialista. Você, que é da área da saúde, sabe me indicar alguém?
Putz... E qual seria o problema especificamente? João teve de pensar rápido.
  • Quem estava acompanhando ele? O que ele está tomando?
  • Ele estava com o Dr Silveira, cardiologista, mas o Dr. Silveira pediu pra ele procurar um hemato.
Ufa...

  • Ah sim, lá na clínica temos um excelente, o Dr. Adalberto.
João olhava para a fila, contando os minutos pra escapar dali o quanto antes.
  • Pô, muito obrigado. Vou ligar essa semana pra marcar. E no mais, como estão a Luiza e as crianças?
  • Está tudo certo, Luiza está viajando, volta amanhã; e os meninos estão na escola.
Para ser educado, João viu-se obrigado a perguntar mais diretamente sobre esposa e filhos, sabendo que estava a correr um sério risco. Optou por um tom bem geral.
  • E vocês?
  • 'Vocês' nada... lembra que me separei no ano passado né...
  • Ah, sim, mas sabe como é, homem sempre tem alguém...
João riu nervoso, tentando consertar.
  • É cara, pior é que é. Tô saindo com umas garotas aí, mas agora não quero me envolver. Não quero saber de compromisso. Tá bom assim, tá bom assim.
Como o assunto estava ficando delicado, João preferiu mudar o rumo da conversa.

  • E o trabalho?
  • Tô lá na empresa ainda, entrou um pessoal novo, estamos fazendo umas adaptações nos setores e tal. Tá indo.
Angustiado, João, que havia desistido de reconhecer o sujeito, resolveu dar um xeque-mate para acabar com aquele sufoco. Vendo o homem de mãos abanando, teve uma ideia.
  • Você está esperando o atendimento do caixa também?
  • Não, não... Vou falar com o gerente, vim resolver umas coisas da empresa. Vou mesmo indo nessa, não posso me atrasar hoje. Bom te ver por aqui! Aparace lá em casa, dá uma ligada, vamos combinar uma hora dessas.
Funcionou!
  • Ah, sim. Com certeza. Passando essa correria de final de ano eu te ligo pra gente fazer alguma coisa.
  • Até mais!
  • Até!
João não conseguiu lembrar quem era e nem tampouco de onde conhecia o tal homem do banco, mas tratou de gravar as novas informações para um futuro encontro inesperado.

Um comentário:

  1. Quanta saia justa dessas eu já passei na vida.
    Pior que normalmente depois de algumas horas eu me lembro de quem se tratava... mas aí já era tarde!

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