terça-feira, 19 de abril de 2011

A minha pequena história da fotografia: fragmentos de uma vida retratada

       

        A minha história com a fotografia não remonta, obviamente, ao daguerreótipo ou a qualquer outro mecanismo antigo de registrar imagens. Trato de um ponto de vista particular, em um texto não-científico, das relações e dos fatos que vivi e que foram – ou não – fotografados, em tese, não somente para garantir a irrevogabilidade do passado, mas principalmente para lhe permitir a vida eterna. Trinta anos de história do Brasil carregam o peso de acontecimentos marcantes, memoráveis. Entretanto, tal parcela de tempo não parece muita coisa quando se refere a uma vivência individual, afinal, o que poderia ter de tão grandioso na trajetória de uma jovem recém-chegada a casa dos trinta? Nada. Mas não estamos a falar de grandiosidades e sim de pequenos fragmentos retratados. Portanto, embora de partida soe presunçoso, o que proponho neste ensaio autobiográfico é apenas relatar o impacto da fotografia na construção da pessoa que sou.
        A marca inicial das objetivas me fora impressa antes do meu nascimento. Não há uma sequer foto de minha mãe grávida de mim. Tolice, poderiam pensar. Ocorre que tenho uma irmã muito cruel, ciumenta e possessiva e, dado o meu status equiparado de filha, seu ódio a fez atormentar-me pela infância. Ela se entusiasmava ao contar em detalhes o dia em que fui achada na lata de lixo, uma mentira inescrupulosa que por certo colocou a formação de minha identidade em crise. Despertou-me cedo para a vergonha, a desconfiança e a revolta, sentimentos dos quais nunca me desfiz. A meu favor não havia prova. Fui fotografada pela primeira vez na hora do meu batizado, sobre a pia batismal, no colo de meus padrinhos. Nem posso ter certeza de que sou eu ali. É o que dizem do bebê vestido de menina, com roupa branca engomada, enfeitada com lacinhos, envolto em uma manta amarela de modo que mal se pode ver o rosto franzido pelo choro.
        Tive depois outras tantas fotos, guardadas nos álbuns de família. Nenhuma, porém, permite garantir a minha origem. Apareço criança fazendo gracinhas, tomando banho, banguela, suja de comida, enfim, em uma série de cenas cotidianas que, por alguma razão, foram consideradas importantes e dignas de lembrança. Talvez tenha sido o ineditismo das minhas ações no que tange a minha própria existência o agente motivador dos flashes, pois com o passar dos anos a prática tornou-se mais restrita a eventos comemorativos, viagens, ocasiões especiais.
        Não sou fotogênica, não fico bem sem movimento. Não tenho um ângulo melhor, não fico natural diante da câmera. Não há luz que resolva. Isso não me preocupa. Aos nove anos descobri que a fotografia não pode – e nem deve – registrar a realidade. As pessoas não desejam uma cópia do real, ao contrário, desejam atingir uma espécie de 'real ideal', que só pode ser obtido pela manipulação fotográfica. Veja-se. Eu, menina, gordinha, estava sentada em uma cadeira de praia, na praia, com os pés na areia, de biquíni vermelho, comendo uma espiga de milho verde debaixo do guarda-sol, quando minha mãe resolveu tirar uma foto. Posicionou-se à minha frente, a uma distância de uns dois metros, inclinou-se, ajustando o aparelho ao olho, fez menção de apertar o botão e desistiu. Soltou a câmera sobre a mesinha improvisada, olhou-me em direção ao umbigo e disse: “melhor colocar uma camiseta para a barriga não aparecer na foto”. Olhei para baixo, de uma perspectiva que nunca me havia ocorrido, e vi três dobras de pele e gordura. Vi não mais pelo meu olhar, mas pelo olhar da minha mãe através da objetiva. E assim, pela segunda marca da fotografia, instalou-se em mim o crivo da aparência, alocando-me no mundo dos valores.
        Não importa que o sujeito seja feio, ele quer é parecer bonito. Se a foto ficou 'boa', então está tudo certo. A realidade é fugaz, não faz diferença. A foto ganha força de verdade não porque as pessoas não sabem que não se trata do real, mas porque preferem, dentre as duas formas de sua apresentação imagética, a que lhes parece mais conveniente. O homem conquistou o poder de criação divino: a foto pode ser, fantasiosamente, uma expressão concreta da vida em uma dimensão paralela, moldada nos limites do gosto e da habilidade humana.
        Aos onze anos mudei, finalmente, de lado em relação à câmera. Morávamos no Paraná e estávamos em uma expedição familiar pelo pantanal, no Mato Grosso do Sul. Instalamo-nos em uma ilha fluvial localizada no Paraguai, a três horas de barco do solo brasileiro, sua divisa territorial mais próxima. Quando lá aportamos, constatamos que a câmera havia sido esquecida em casa. Cabe esclarecer que aquela câmera não era um mero aparelho de tirar fotografia. Era uma preciosidade japonesa capaz de duplicar o número de poses do negativo, de modo que, se inserido um filme de trinta e seis poses, teríamos setenta e duas fotos. Tinha também um flash externo, acoplado pela parte superior, e possuía várias regulagens diafragmáticas. Era uma câmera profissional, rara e cara, ao menos na visão da minha família. Por todos esses atributos, era um aparelho de uso exclusivo dos adultos e ficava escondido na prateleira bem de cima do roupeiro, dentro de um estojo, no quarto dos meus pais. Foi então, por ter sido deixada pra trás, que a câmera 'sagrada' não mais determinou o meu lugar na fotografia.
        Como sempre fui afeita às compras e não à pescaria, tratei logo de vasculhar a ilha em busca de uma loja. Havia um único mercadinho, um misto de farmácia, camelô, açougue, conveniência, papelaria e bar. Para minha surpresa, encontrei uma câmera fotográfica e dois rolos de filme de trinta e seis poses cada. Comprei o conjunto. A câmera custou pouquíssimos dólares e, evidentemente, nem de longe se parecia com a dos meus pais. Era extremamente simples, sem opcionais, sem flash, toda manual, de plástico. Chamava-se 'Vivitar'. Animada, voltei ao hotel de palafita para tentar desvendar os mistérios da colocação do filme. A partir dali, fui iniciada – aprendi a ver o mundo pelo meu olhar através da objetiva.
        Sem os recursos da tecnologia digital, que agora me permitem a visualização imediata do resultado captado e a tiragem de milhares de fotos que se armazenam em um minúsculo cartão de memória, naquela época e especialmente naquela circunstância as condições eram escassas. Eu dispunha de setenta e duas poses e não poderia desperdiçá-las, ao passo que também não poderia instantaneamente saber o que havia capturado. Cada foto foi, portanto, meticulosamente planejada, escolhida, pensada, aguardada. Algumas foram perdidas, porque todos esses artifícios mentais exigem consumo de tempo e a natureza não espera nem posa. Foi o caso do mergulho do jacaré gigante ao lado do nosso barco, cuja foto guardou apenas as ondas que sobraram na água após o sumiço da cauda.
        Fora isso, fotografei pássaros exóticos, plantas aquáticas, animais diversos, pessoas, lugares; e uma foto recebeu destaque. Ao final de uma das muitas tardes que passamos ali, saí pelo vilarejo a passeio. Havia uma igreja inimaginável no ponto mais alto daquela ilha, uma construção antiga semelhante às nossas igrejas barrocas mineiras. Nunca fui religiosa, mas apreciei a combinação de cores, formas e sombras daquele local. Ao pé do morro, montei três planos visuais, o primeiro composto por árvores e galhos, o segundo pela igreja e o terceiro pelo sol, que já se escondia parcialmente atrás da torre do sino. Fotografei. A revelação encheu meus pais de orgulho - como a câmera era ruim, os créditos foram todos oferecidos a mim. Constatei que as fotos eram capazes de exercer um fascínio sobre as pessoas, suficientemente intenso para despertar-lhes sentimentos, pensamentos e ações, que não necessariamente se relacionavam ao modelo. O orgulho parental é uma marca essencial para o desenvolvimento de um filho e eu a recebi por uma atitude fotográfica.
        Fui aos Estados Unidos na adolescência, em minha primeira viagem sem a família. Não posso dizer que sozinha porque estava numa dessas excursões com guias, que aos quinze anos os jovens gostam de fazer com os amigos. Sou a única pessoa que conheço que foi à Disney e não tem nenhuma foto sua lá. Alguns até duvidam que fui, porque não tenho fotos. Meus pais emprestaram-me a câmera profissional, que assumi com a responsabilidade de proteger uma jóia. Olhando de perto, estava meio velha, com desgastes e uns enferrujadinhos, mas ainda era a fabulosa câmera capaz de duplicar filmes. Como de praxe na história do uso daquele aparelho, que nós usualmente chamávamos de máquina, sem considerar o âmago das questões etimológicas e sociológicas da palavra, instalei um filme de trinta e seis poses. E preciso dizer que sempre me causou horror que usassem um filme tão grande, porque demorava muito para 'bater' setenta e duas fotos nos critérios usados pelos meus pais. A revelação, portanto, costumava ultrapassar seis meses do momento fotografado e, para uma criança ou um adolescente, esse era um prazo interminável.
        Nas minhas mãos, em New York, porém, setenta e duas fotos não levaram três dias. Ainda no embalo do meu anterior sucesso como fotógrafa, fiz o meu melhor. Andava com aquela câmera pra todo lado, como de posse de um instrumento mágico e valioso. Nem vi direito os lugares em que estive, preocupei-me, de fato, em guardar o máximo da cidade naquela 'caixa preta'. Para minha tristeza, eu, que imaginava satisfeita os resultados de cada 'clique', vi ao chegar no hotel aquela máquina cem por cento automática engasgada a trucidar o rolo do negativo, quando tentei rebobiná-lo para a retirada do filme. Tomada de ódio, joguei o rolo estragado fora e guardei a câmera no estojo, dentro do roupeiro, que era o lugar dela. Saí e comprei uma Polaroid, um investimento que me fora bastante caro, ainda mais se somado ao custo dos filmes específicos e difíceis de achar. Fiz alguns testes dentro do quarto e, em poucos minutos, como depois de todas as práticas movidas por impulso, fui contemplada com o arrependimento. Além da qualidade ruim, tratava-se de um trambolho chato de transportar. Dali pra frente, seguiram-se vinte e dois dias de viagem e cinco cidades americanas, sem nenhuma foto. Entendi que a fotografia deveria se prestar a outros fins que não substituir os nossos próprios olhos para a vida enquanto ela acontece, porque a câmera, tal qual a mente humana, não é confiável.
        Engraçado como na minha família a fotografia é vista como algo 'vivo'. Não é permitido rasgar uma foto em que apareça um ser humano, em nenhuma hipótese. Observei muitas vezes esse fenômeno ao tentar me desfazer de qualquer foto que não tivesse ficado legal. As expressões faciais indicavam o prenúncio de uma tragédia, como se ao eliminar a imagem do papel, estivesse premeditando a morte, ao menos simbólica, da pessoa. A mim, que não sou mística nem apegada a materialidades, parece curioso, mas confesso que não sou capaz de rasgar sem culpa uma fotografia de alguém que já morreu. Não por medo do morto, claro, mas pela impossibilidade de oferecer em sua memória um novo registro. Caio na mesma cilada, eu sei. Reconheço que minhas relações com a fotografia estão ditadas, em alguma medida, pelas referências familiares, independente de meus conhecimentos filosóficos. Se a foto não é a cópia do real, é algo que, a seu modo, pode nos remeter a ele pela nossa própria versão.
        Meus pais têm pouquíssimas fotografias de infância. Minha mãe tem duas ou três, em preto e branco. São fotos posadas, com cabelo arrumado, roupa impecável e cenário montado. Meu pai tem uma foto, tirada provavelmente aos dois anos de idade, posada ao lado do irmão ligeiramente mais velho. Ele nem tinha conhecimento dessa foto até pouco tempo atrás, quando alguma de suas irmãs a localizou em caixas antigas na casa da vó. Lembro que ele ficou feliz, mas decepcionado por não ter uma foto só dele. Levei então ao estúdio para que fizessem uma nova edição, sem o meu tio. Agora ele tem uma imagem plena de um passado 'real ideal'. Está lá o menino, sozinho, em pose, apoiando o braço em um aparador, perto do que parece ser uma bola no chão – mas que na verdade era uma laranja fazendo papel de bola, segundo ele mesmo conta e conforme pode ser comprovado em uma observação atenta. Não importa a foto em si, mas o efeito que ela exerce sobre ele.
        Tenho a impressão de que algumas pessoas pensam a fotografia como um tipo de 'vodu'. Sentem-se ameaçadas pela foto, pelo uso indevido da sua imagem/pessoa. Deve ser um resquício do pensamento mágico infantil. Uma foto minha não sou eu, é tão e somente uma foto minha. Nada do que seja feito diretamente ao papel poderá me atingir de nenhuma maneira, salvo a sua divulgação, que dependendo do caso e do conteúdo poderá influenciar a ideia dos outros sobre mim (se tomada como retrato fiel da verdade para fins de julgamento).
        Prova maior de que a foto da coisa não é a coisa e nem tampouco a cópia da coisa são as fotografias dos imóveis disponíveis em imobiliárias para venda ou locação. Quando tenho de fazer uma mudança de cidade – e o faço com certa frequência – constato essas máximas. Entro nos sites, escolho pela foto os imóveis para vistar e, após mais de cem ocorrências, não encontrei nenhum que tivesse emanado para a fotografia, o que, do ponto de vista prático, é uma pena. Parece-me que a fotografia muitas vezes se presta a retratar somente aquilo que pode ser visto, ou melhor, lembrado. Temos legitimidade social para fotografar todos os eventos da vida de uma pessoa, exceto a doença, a desgraça e a morte – essas só os jornalistas, os artistas e os de 'mau gosto' se aventuram a fazer.
        Embora tenha perdido um pouco o hábito de fotografar, é uma atividade que gosto de fazer. Ao contrário dos meus pais, que lançavam mão da câmera em momentos especiais, eu não a uso com essa finalidade. Se vou passear, quero passear. Não quero parar a todo instante para tirar fotos. Se, por outro lado, quero fotografar, então faço com dedicação a tarefa. Quando saio com o meu marido, que tem o vício da fotografia, por estratégia fico com a máquina. Digo para que fique tranquilo que estarei a registrar tudo, mas evidentemente não o faço. Sim, é desleal, mas ao menos o liberto para viver o momento, para estar ali sem a pretensão de controlar a realidade, sacrificando a espontaneidade e o fluxo natural das cenas da vida.
        A chegada da câmera digital roubou-me o prazer da revelação. As setenta e duas poses ficaram pra trás. Reconheço que tinha um respeito maior pela foto impressa, não sei por quê. Se antes as fotos ficavam acomodadas harmoniosamente em álbuns estruturados, decorados, catalogados e admirados, hoje sequer abro uma pasta nova nos arquivos do computador. Não há mais a expectativa pelo resultado, visualizo na máquina e fim. Nem costumo abrir as fotos 'salvas' para olhar. A fotografia analógica parece estar para fotografia digital como a lasanha da vovó para a lasanha congelada de supermercado, ao menos no que se refere ao modo como boa parte das pessoas que conheço, incluindo a mim, comportam-se diante da tecnologia fotográfica.

Um comentário:

  1. Tirando a parte que me toca, hahahahah, o texto é simplesmente fantástico.
    Foi exatamente por isso que batizei meu fotolog de "Reflexos de Sonho", pois as fotos não são mais que isso. No entanto, continuo fotografando pois as imagens ao menos ajudam a lembrar de momentos sempre especiais.
    Te amo!

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