domingo, 17 de abril de 2011

O presente, a sacola e o aviso



Dias atrás recebi um desaforo, desses que nos pegam assim de surpresa, enquanto estamos entre amigos comendo, bebendo e nos divertindo. Não foi apenas uma ofensa, mas uma humilhação pública sem qualquer cabimento. Ouvi um sujeito proferir blasfêmias ao meu lado, sem ter sequer a dignidade de me olhar no rosto. Disse absurdos, pautados em uma informação leviana e equivocada que lhe fora dada. Era, indubitavelmente, uma dessas pessoas desprovidas de crítica.

Perdi o chão. Instantaneamente, a alegria me foi roubada. Pensei: por que isso está me acontecendo? O que eu, depois de tantos anos de trabalho e dedicação acadêmica, poderia ter feito para merecer ser tratada dessa forma desmedida e sem razão? Como alguém que não me conhece, que nunca nem me viu antes, pode se considerar tão sabedor sobre a minha formação? E como outro alguém pode ter sido tão prepotente, irresponsável e petulante ao ponto de se sentir legitimado a avaliar negativamente a qualificação técnica de todos os profissionais de um estado inteiro? Isso não fazia o menor sentido.

Fiquei arrasada. Não tive palavras. Fui embora. No caminho de casa, chorei. Chorei e lamentei ter nascido para estar ali naquele momento. Chorei mais ainda e desejei que o mundo acabasse. Pensei em ir embora, pensei em largar tudo, em simplesmente sumir. Dormi e horas depois acordei angustiada, sem vontade de nada. Fiquei encolhida, queria fechar os olhos e viver para sempre só dentro de mim. Odiei aquele homem. Odiei aquela mulher. Odiei a mim. Odiei toda a gente. Fui tomada por um sofrimento intenso, por uma tristeza sem fim. Não quis sair da cama. Desisti.

De repente, algo aconteceu. No meio de tantos pensamentos ruins e dolorosos, lembrei-me do aviso que recebi. Nesse exato instante, toda a dor desapareceu. Tive uma sensação de bem-estar, senti uma força natural trazer de volta o alívio, o amor pela vida, a noção de quem sou e do que estou a fazer aqui. Levantei e imaginei então uma história.

Antes de nascer, no ritual de passagem, somos todos conduzidos por um anjo até o portal. Ainda do lado de lá, o anjo nos entrega três elementos essenciais para a vida: um presente, que será o nosso corpo e cuja posse ocorrerá tão logo cruzarmos o portal; uma sacola invisível, que deveremos carregar sobre nossos ombros por todo o período de nossa estadia na Terra e onde poderemos guardar ou remover, a qualquer tempo, tudo de bom e de ruim que recebermos; e um aviso: “Não terás controle sobre a maior parte das circunstâncias que acontecerão em tua vida, mas poderás sempre escolher o que farás diante delas. Agora vá, leva a tua sacola, cuida do teu corpo e faça o melhor que puder”. Para alguns, como sabemos, ele completa: "Desce e arrasa!".

Pensei: não passei por tudo que passei, não cheguei até aqui para morrer engasgada com esse pedaço de jiló que caiu, aleatoriamente, no meu prato. Sinto muito, não sou tão pequena. Quero fazer melhor do que isso. Recusei a agressão e ajustei a dimensão do problema, que poderia ser maior ou menor dependendo apenas do meu julgamento. E como argumento sem fundamento é prova nula, decidi poupar o meu sofrimento para quando realmente precisar dele.   

Um comentário:

  1. Por mais que na hora dos fatos o sapo insista em ficar pulado, sinceramente o melhor a fazer é não guardar estes fatos conosco. Enquanto o grosseiro protagonista vai embora, como se nada tivesse acontecido, quem fica com a gastrite ataca é a gente, tamanha a dificuldade para digerir o pobre anfíbio.

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