terça-feira, 31 de maio de 2011

Uia Maria


- Volta. Por favor, volta. Não era nada disso que eu queria dizer. Eu sempre faço tudo errado...
Maria repetia sozinha, pela quinta vez, encolhida na cadeira da cozinha. Era um mar de lágrimas. Culpada, torturava-se por ter comentado qualquer coisa tola... que gerou uma briga... que resultou no fim de um relacionamento.
Bem que aquele namoro já estava aos pedaços, até a Maria sabia disso. Mas agora, depois que ele partiu, tudo parecia ter sido sempre tão perfeito... ao menos até que ela dissesse aquela bobagem-catástrofe. Uia Maria!

Um dia desses


Um dia desses vou fugir de casa
Comer até explodir
Dizer um palavrão no trabalho
Pular até não aguentar

Vou gastar todo o meu dinheiro
Falar sem censura
Usar um cabelo moderno
Não vou me importar

Vou viajar para um lugar diferente
Curtir um momento sem culpa
Fazer uma maldade com gosto
Vou me encorajar

Um dia desses, mas um dia assim
Vou fazer uma loucura qualquer
Sem ter hora marcada
Não vou nem pensar

Vou encher os olhos
Deitar e rolar
Não vou seguir regras
Só e só continuar

Um dia, quem sabe
Um dia desses chegue
Pra que eu enfim possa
Parar de escrever
E de me atormentar.

(bloguecídio').

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Imperativo

Impressionante como os imperativos incomodam as pessoas, ainda que sejam só desabafos inofensivos e despretensiosos.

Tão ruim ser mal interpretada. Tão ruim ser criticada por escrever e discutir pequenos desejos, revoltas, dúvidas, fatos e modos de ser. Tão ruim passar a bola ao outro e levar um chute.

Escrever pode ser o próprio caminho trilhado para a felicidade. É uma forma de sentir, de vivenciar a realidade. É uma atividade íntima, particular, que não se destina a moldar o outro. E é exatamente por isso que não interfere na vida alheia e não impede ninguém de nada.

Adoro gente de opinião. Eu os respeito. Vá lá! Não me ofendo, eu me divirto com os rolos que arrumo. Na real, gosto é de toda a gente. Não sou pregadora. Aliás, tenho o telhado de vidro. Sejam todos muito bem-vindos. Às vezes posso soar pedante, arrogante, fútil, autoritária. Sou mesmo um pouco de tudo isso. Não me orgulho, mas admito. Pra quem não me conhece, pode parecer que sou só isso. Não se deixem intimidar por uma primeira má impressão. Sou legal, mas confesso que irrito. E quem não, afinal?

Estamos na paz. Uso meu blog para o (meu) bem. Não ganho dinheiro com ele, não quero ser famosa, não tenho e não invisto em muitos seguidores, não espero divulgação, não peço comentários. Escrevo para mim e para meus poucos amigos que visitam minha página, que conhecem as minhas histórias e sabem do que é e para quem é que estou falando. Só isso. Bem simples assim.

Não quero confusão. Se o que digo não lhe serve, espero que tampouco lhe incomode. São apenas pensamentos "em voz alta", não são conselhos. Não me levem tão a sério. Aqui tudo não passa de conversa fiada.  

Estranhamento




Odeio a palavra estranhamento. É o puro e simples sinal de que a pessoa não gostou e não foi capaz de assumir. Aí ela diz, como se isso amenizasse: 'causou-me um certo estranhamento', em geral torcendo o nariz ou fazendo qualquer tipo de careta. Por que é tão difícil dizer, educadamente, que não gostou? O gosto é tão particular que, sinceramente, toda coisa causará estranhamento. Não é errado ou ofensivo não gostar, mas é claro que o modo como se diz isso pode ser mais ou menos gentil. Já é o bastante que o sujeito não tenha gostado, não precisa dizer que além de ruim ficou estranho. 

Estava em aula, assistindo ao massacre de uma colega, quando um professor avaliador referiu-se ao trabalho dela com esse argumento nada científico, devidamente acompanhado de retorções faciais de toda ordem. Impressionante como a expressão do rosto diz tudo. Marca o conflito da cara de quem não gostou com a cara de quem quer disfarçar isso. Ficou ali se contorcendo para falar de um jeito muito arrastaaaaaado que o trabalho da guria tinha causado um estranhameeeeento. 

Fazemos muitos rodeios com a linguagem, deixamos a explicitude como se fosse vulgar, grosseira. Se somos diretos, acabamos mal-entendidos. Fim.

Resposta errada


- Filho: Mãe, por que o pai e a mãe do Juquinha bateram nele de cinta?
- Mãe: É filho... Sabe, algumas pessoas acham que esse é um método adequado para educar crianças, elas acreditam que bater de cinta ensina os filhos para que eles não façam mais coisas erradas. Antigamente muitos pais acreditavam nisso, mas hoje em dia já não é mais assim. Eu e o seu pai achamos muito errado machucar você, por isso nós nunca faremos isso. Bater de cinta dói muito, filho, não é certo...
- Ow mãe, tá, mas por que os pais do Juquinha bateram nele de cinta?
- Eu estava justamente explicando que... ai filho, não sei dizer. Acho que ele fez alguma coisa que eles não gostaram, mas não sei.
- Ahmmm... então vai ver que ele disse 'cala a boca', né mãe?
- É, filho, pode ser... 

Criança Macho


Fui uma dessas crianças destemidas, curiosas e prontas para a ação. Lá do meu jeito, era capaz de resolver qualquer problema. Tirava bicho-de-pé dos cachorros, tratava feridas, ficava no escuro, matava baratas, corria perigos, quase nada me causava nojo, medo ou horror. Saía no braço, não importava o tamanho ou o que fosse. Tinha sempre uma resposta e não receava em dizer. À noite, deitava e dormia o bom e tranquilo sono dos justos. Eu era mesmo uma criança 'macho', com todas as qualificações que essa palavra desperta no nosso senso social estereotipado.

Não sei o que aconteceu. Todas essas práticas agora me exigem um desgaste enorme. Não me parecem mais tão naturais. Tenho tantos medos, preocupações, dúvidas, nojos, horrores. Acho que levei muito a sério o que os adultos me diziam, tanto que me tornei um deles. Que pena.

domingo, 29 de maio de 2011

Cara de um...



Você era apenas um pequeno filhote. Abandonado com poucas semanas de vida, nem bem os olhos ainda abria. Tinha as patas rosadas, fofinhas. Os pelos eram curtos e macios, branquinhos com machas pretas. Era sim um vira-lata sem raça definida, um 'guaipeca', o filho de uma tal de Chiquinha e de um pai desconhecido. Dei-lhe o nome de Chico. É, amigo, isso foi há oito anos.

Tantas coisas aconteceram nesse tempo. Eu, se me visse de longe, nem me reconheceria. Mas você, ah... você nunca me esquece. Você me encontra, não importa em quem ou em quê eu me torne. Você pinça o melhor de mim. Fiel, sempre me recebe com a mesma alegria, posso ter saído há cinco minutos ou há três meses. E, estranho, não tenho sido uma boa dona. Não tenho retribuído o seu carinho, a sua devoção. Digo, num tom ríspido: sai, Chico! Não pula! Vai sujar a minha roupa! Vai me arranhar! Acho que você não entende o significado dessas palavras, porque não importa o que eu diga ou faça, você está lá. Tenho agora, portanto, a certeza de que quem perde sou eu.

De repente, notei que você ficou velhinho. Anda cansado, não tem mais tanta disposição. Esses dias alguém falou: 'nossa, pra tirar o Chico da cama agora é um trabalho, ele fica com muita preguiça de levantar'. Foi por isso, querido, que hoje eu não tentei espantar você. Quando saí e vi você levantar para me receber, pensei no esforço que você fez para deixar a sua cama quentinha e correr até mim. Pensei, aliás, em todo o esforço que você fez nesses últimos anos e no quanto fui dura com você. Notei que você não pula mais.

Afaguei a sua cabeça, afofei as suas orelhas e você se inclinou como se não quisesse perder nem um mínimo pedaço da minha mão. Abanou com a cauda, olhou-me com doçura. Você, ao contrário de mim, não mudou. Sabe, recentemente, passei para o seu lado. Tornei-me, assim, um ser mais sensível e um tantinho melhor. Foi também por isso que, dessa vez, como nos velhos tempos, eu olhei para você com doçura. Tem certas coisas que acontencem na nossa vida que só passam a fazer sentido quando, em uma cena cotidiana qualquer, exercem um efeito transformador.    

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Pro dia nascer feliz

Hoje acordei cedo, ao som de gargalhadas de bebê. Dia lindo lá fora, filho cantando um reggae aqui dentro, astral lá em cima. Amo muito tudo isso. Bora pra vida.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Bruxarias



Receita infalível para neutralizar inimigos.

Ingredientes da poção:
Asa de morcego, pata de formiga, língua de sapo, unha de gato, rabo de rato, coco de passarinho, antena de barata, teia de aranha, olho de carneiro, boldo, pé de meia suja, quatro gotas de sangue de galinha, lagartixa seca.

Preparo:
Coloque todos os ingredientes no caldeirão e adicione dois litros de água. Deixe ferver, mexendo sempre. Depois é só fazer o sujeito beber. Basta um golinho. Obs: em caso de eliminação em massa, pode ser diluída nos pratos do buffet. A-ha-ha-ha-ha!

Gente que faz



Algumas pessoas são agraciadas com o poderoso dom da ação. Eu as invejo. Vejo gente que parte do zero e, de repente, com trabalho, carisma, perspicácia, boas relações e um tantinho de sorte, constrói um império. Eu ainda não sou assim. Em uma rápida análise, parece que me faltam alguns desses atributos. O resultado é que morro no tédio, na angustiante frustração diante do tempo que passa.  Julgo que eu deveria parar de pensar e começar a fazer algo, mas o quê? Como resolver os vários problemas que me circundam? Fico no aguardo de uma iluminação, que não chega. Esse é o erro inicial, esperar a oportunidade. Pessoas que fazem criam oportundades, ao contrário de mim. O segundo erro é o medo de dar errado. Noto que a persistência é essencial, porque em geral as pessoas passam por muitos investimentos errados até conseguirem o sucesso. O terceiro entrave é a total falta de ideia. Não consigo ter uma grande sacada. E, finalmente, não sou boa de vendas. Conheço amigos que são capazes de vender até um celular quebrado em apenas dois telefonemas. Agora eu posso ter o melhor produto nas mãos que morrerei abraçada com ele. Não tenho o tal tino pro negócio. Sempre admirei aquela gente determinada, que desde pequena sabia o que faria da vida. Alguns nasceram com um talento bem definido, pronto para ser explorado. Outros despertaram cedo para alguma atividade, cresceram em busca de um sonho. E eu? Bem, eu faço um pouco de tudo, porém não tenho assim uma vocação nata. Fico aqui me superespecializando em teorias, mas na prática não tenho essa paixão que move um ser humano em razão da sua profissão. Gosto do meu trabalho, entretanto seria igualmente feliz em um montão de outras funções. No fundo acabo vivendo pra tentar ganhar algum dinheiro e sobreviver, o que limita muito as opções e faz de mim alguém absolutamente medíocre.  

Relações Difíceis



Poucas tarefas são tão complicadas como a de manter relações interpessoais saudáveis em circunstâncias profissionais ou que não inspiram intimidade. Se no âmbito pessoal, que, em tese, temos mais abertura para expressar nossos sentimentos e pensamentos - principalmente porque temos mais liberdade para escolher as pessoas com quem convivemos - o esforço já é enorme, o que dizer dos relacionamentos que nos são impostos em ambientes formais.
Se conhecemos socialmente uma pessoa cuja companhia não nos agrada, simplesmente podemos evitá-la. Entretanto, o problema toma outra dimensão quando essa pessoa é alguém com quem você divide a sala de trabalho ou, pior, o seu chefe. Existem seres humanos intragáveis, instáveis, grosseiros, cruéis, confusos e não confiáveis. Somadas essas características, temos uma pessoa âncora, daquelas que não nos permitem evoluir, seguir em frente. Ao contrário, são uma trava, tornam tudo mais difícil, penoso, sem perspectiva. 
E não há escape. Não adianta trocar de trabalho, de cidade, de casa, de escola. Sempre haverá um vizinho insuportável, um colega com postura eticamente reprovável, um professor vaidoso, um chefe que não sabe o que quer. Tem horas em que a única pergunta que nos passa pela cabeça é: 'por que diabos estou aqui?'.

Infelizmente, contrariando os preceitos psicanalíticos das relações que escolhemos manter, dentro da nossa realidade política, social e econômica, as respostas costumam ser bem mais objetivas - porém não menos dolorosas. O fato é que às vezes não precisamos passar por certas relações desastrosas por nossas necessidades subjetivas, mas por dinheiro e falta de oportunidade mesmo, o que sinceramente parece ser muito pior.       

Provas da verdade



Infelizmente não posso me gabar de nunca contar mentira, se é que alguém o pode. Confesso que lá de vez em quando, muito eventualmente, dou uma amenizada na história. O fato é que pago a maior parte do meu tempo o caríssimo custo de ser uma mulher honesta. Chego a ser dura, cortante, maldosa, tamanho o meu apreço pela sinceridade. Fomento mágoas, inimizades, problemas de toda sorte, para mim e para os outros. Sou à moda antiga, dou valor à palavra. É exatamente por essas razões, declaradas abertamente, que afirmo não poder ser proferida contra mim pior ofensa do que a insinuação de que não estou cumprindo com a verdade. Isso me irrita profundamente. Quem me conhece sabe que prefiro uma 'omissão' a uma 'nova versão'. Se fosse pra mentir, em dadas circunstâncias, sério, eu nem me manifestaria. Eu tenho vergonha na cara. Se digo que não posso, é porque não posso. Não tenho receio de dizer que não quero, se é o caso. Ou simplesmente não digo nada. Detesto explicação, é algo que em geral nos inspira a mentir, porque nem sempre queremos nos expor. Não peço, não gosto de prestar, não me vale ouvir. Não interessa o por quê. Tudo tem a sua razão, umas mais nobres, outras nem tanto. São os resultados das escolhas que as pessoas fazem ou, talvez, das circuntâncias da própria vida. Não importa. Enfim, irritada, ofendida, de má vontade, encaminhei um documento oficial para provar o que eu havia dito em minhas desculpas esfarrapadas. Que triste isso.  

sábado, 14 de maio de 2011

A lógica das coisas

Não há nada como resolver um grande problema. Lembro-me de quando bati o carro pela primeira vez, na garagem. Eu estava sozinha e não sabia estacionar direito, o resultado foi que enrosquei a porta lateral na coluna do prédio. Fiquei nervosa, apavorada. O carro não ia nem pra frente nem pra trás. Não havia a quem recorrer, eu teria de dar um jeito por mim. Após alguns minutos de desespero, comecei a me acalmar. Desci, olhei o ângulo da batida, pensei em estratégias para mover o veículo. Voltei ao volante, respirei fundo e encarei. Pensei: 'batido, por batido, preciso é tirar o carro daqui'. Com um pouco de esforço, consegui. Fiquei muito orgulhosa. Por incrível que pareça, fiquei realmente feliz. Importei-me mais com o fato de ter resolvido do que de ter estragado antes. Ao mudar a perspectiva, muda-se tudo. Salve a lógica da razão.

Hoje estou me sentindo assim. Não, não bati o carro, ainda bem, mas resolvi outro baita problema.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

De tão pequena


Desapareci sob a pata de uma formiga, que por azar carregava oito vezes o próprio peso.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O lugar do outro



Era tarde da noite quando abriram a última garrafa de champanha. Estavam todos muito alegres. Carlos Eduardo, sua noiva Lili, seu pai orgulhoso, alguns de seus amigos e até a sua sogra. Fartos de um jantar festivo, brindavam o novo emprego do rapaz, que, radiante e um tanto embriagado, fazia discursos e promessas. Fim da comemoração, Carlos tomou um longo banho para curar os efeitos do álcool, tomou um café bem forte e passou algumas horas ainda acordado, pensando no primeiro dia de trabalho como diretor executivo de uma importante empresa multinacional. Estava, de fato, feliz e entusiasmado com a promissora carreira que o aguardava.

O sol ainda não tinha raiado, mas Carlos já estava a postos. Nem sentia o cansaço da noite mal-dormida, tamanha a ansiedade. Queria tomar posse do seu lugar. Tinha planos, estratégias empresariais, não via a hora de começar. Saiu cedo de casa, foi o primeiro a chegar no escritório. Entrou na agora sua sala, sentou-se na imponente cadeira, reclinou-se, sentiu-se o dono do mundo. Fechado ali, no silêncio, pôs-se a observar o entorno, projetando as mudanças necessárias para a adequação do espaço, avaliando os móveis e pensando na nova decoração. Percebeu então as primeiras marcas de alguém que havia habitado aquele local.

Havia pregos na parede, um lascadinho imperceptível no canto esquerdo da mesa, um copo descartável amassado na lata de lixo. Sentiu um leve desconforto. Sabia que o antigo ocupante do cargo era um homem de negócios respeitável, sério e honesto,  mas que estava há muito tempo na empresa e fora demitido porque, após a reestruturação, os acionistas desejavam uma renovação no setor. Balançou a cabeça, como se tentasse afastar qualquer pensamento. 'Vamos ver, vamos ver', dizia para si em voz alta. Movimentou-se pela ampla sala, abrindo e fechando portas e gavetas.

Estava envolvido com alguns balancetes quando acabou por abrir uma última gaveta, no fundo de um armário. Encontrou um porta-retrato, emoldurando uma foto do Sr. Luis Antônio Borba e família. Era um homem por volta dos cinquenta anos, ao lado de uma bela esposa e de três adolescentes, dois rapazes e uma mocinha. Os olhos de Carlos Eduardo cruzaram com os do Sr. Borba, que parecia fitá-lo. Carlos Eduardo imaginou ele próprio naquela foto, com sua Lili e seus futuros filhos, alguns anos mais tarde. Sentiu um profundo mal-estar. Pôs-se a pensar no que teria sido da vida daquele homem, nas pilhas de contas atrasadas a pagar, na demissão da empregada que os ajudara a criar os filhos e que estava há mais de dez anos com a família. Imaginou os dois filhos mais novos mudando de escola e o mais velho preocupado por ter de trancar a faculdade. Pensou na Sr.ª Borba, aflita.

Por um instante, lamentou estar ali. O prazer lhe escapou. Sentiu um nó na garganta, desanimou. Guardou a foto no armário, não teve coragem de se desfazer daquele objeto. Pensou no Sr. Borba tomando o último gole de água naquela sala, amassando e jogando fora o copo na lixeira. Imaginou-o retirando os quadros e os pertences pessoais, encaixotando tudo e saindo pelo corredor, de cabeça baixa, despedindo-se da equipe.
'Bom dia, Dr. Carlos!', disse a secretaria que acabara de chegar, num tom de absoluta neutralidade, demonstrando profissionalismo. 'Seja bem-vindo!', continuou. 'Estou à sua disposição', encerrou, saindo e fechando a porta. Carlos estava perdido. Não tinha mais certeza sobre o que estava a fazer naquele local. Sentiu-se estranho, voltou a sentar na cadeira imponente e seguiu com a leitura dos balancetes. Parou. Fez um telefonema: 'Dona Janete, por favor, peça ao pessoal da manutenção para pintar a sala com urgência. Obrigado'.   

Dicas de beleza



Cá entre nós, esse papo de que a beleza vem de dentro não é a pura verdade. Não estou falando dos outros atributos belos que um ser humano pode e deve desenvolver, estou me referindo objetivamente à aparência. A mulher moderna dorme mal, come qualquer coisa rápida na rua, fica estressada, só bebe refrigerante zero, enfim, contraria todas as regras da beleza, mas quer estar bonita. Sendo assim, a beleza vem de fora. E de fora mesmo, porque, na minha opinião, muitos dos produtos importados ainda estão mais avançados do que os nossos, o que é uma pena.  
Nos últimos anos tenho descoberto algumas maravilhas que contribuem para a manutenção da imagem de um modo geral. Como a mulherada sempre pergunta, vou dividir as pérolas que têm salvado, literalmente, a minha pele. Segue a lista dos testados e aprovados.

Rosto
- A linha de cremes 'Dr. Perricone' é imbatível. Plástica imediata. Dá firmeza e ilumina instantaneamente a pele, sem deixar oleosa.
- Adoro a limpeza de pele da Anna Pegova. Maravilhosa, a pele do rosto fica uma seda, sem marcas, sem cravos e quase sem dor. Os cremes são muito bons também.
- Em casa, mais econômico, dá pra fazer uma esfoliação com mel de boa qualidade, açúcar e umas gotinhas de limão. Basta aplicar no rosto em movimentos suaves, deixar agir por uns vinte minutos e lavar bem. Pele nova!
- Filtro solar: hidrafil gel (vende em farmácia). Sem perfume, hipoalergênico, rápida absorção, não oleoso e deixa a pele com aspecto 'mate'.

Cabelos
- A linha de shampoo e condicionador John Frieda. Uso há anos e não há custo benefício melhor no mercado. Ainda é um pouco caro, mas vale cada centavo. O cabelo fica macio, brilhante e soltinho.
- SH-RD Protein Cream. Ótimo para proteger os cabelos. Restaura, amacia e é incrível para pentear sem danificar os fios. Faz milagre mesmo se você não usar condicionador.

Corpo
Não tenho o hábito de usar hidratantes todos os dias, mas quando a pele está ressecada uso o Iso-Urea creme da La Roche-Posay. É hipoalergênico, sem perfume, não oleoso, seca rápido e recupera a pele instantaneamente.
Amo o óleo corporal de amêndoas da L´Occitane, que deve ser usado no banho. Não é pegajoso e, principalmente, não gruda no piso do banheiro. Deixa a pele muito macia.
Os sabonetes da L´Occitane e da Natura são ótimos, adoro banho perfumado. 

Mãos e Unhas
Imbatível o cold cream da Àvene para hidratar as mãos. Para as unhas, esmaltes da Revlon. Uso o 161 e todas as mulheres me perguntam qual é a cor. Seca ultra-rápido. Aplico extra-brilho.

Perfume
É uma escolha absolutamente particular, mas adoro o Angel de Thierry Mugler. Os do Jean-Paul também estão entre os meus preferidos.

Maquiagem
No dia a dia uso somente corretivo da Lancôme (excelente), rímel preto que não borre e, eventualmente, blush rosadinho. Odeio batom, uso no máximo um brilho.   

Por fim, o principal entre nós brasileiros: o sorriso!

Nunca me esqueço de uma pessoa que eu detesto e que me detesta mais ainda. Ele me disse, cheio de rancor: "para você os caminhos se abrem, porque você fala sorrindo". 

É verdade.   

Inveja boa



Passava das três da tarde de uma fria tarde de maio. A cadeira dura fazia com que o dia parecesse mais longo do que o natural. Havia uma centena de pessoas naquela sala, mas eu estava sozinha. Foi quando, furtivamente, invadi uma vida alheia. A moça da frente, ao celular, dizia: "Oi, Maria! Nós vamos sair de Porto Alegre às cinco, pode abrir a casa para arejar, arruma as camas, prepara a lareira e deixa a janta pronta. Umas sete estaremos aí em Gramado...". 

Comecei a imaginar o caminho entre Porto Alegre e Gramado, a estrada sinuosa da serra, com suas inúmeras árvores, o sol se pondo e a temperatura caindo. Veio uma pequena chuva, que trouxe o cheiro do mato molhado e deu um certo brilho ao asfalto. Tocava Chico Buarque no carro e os pés estavam começando a congelar. Quase não era possível mexer os dedos. Dava pra ver lá de longe a fumaça das chaminés nas casinhas pelos campos. Não via a hora de chegar, depois de um exaustivo dia de treinamento. Ahhhh. De vez em quando me espreguiçava. Segui cantarolando em dueto com o Chico até a garagem. Adoro esse cantinho. É uma casa de pedra, antiga, pequena, construída no meio do terreno, cercada pelo jardim. Tem um muro baixo na frente, escondido entre as lavandas. Atrás há um bosque e um gazebo branco, onde gosto de passar as tardes de sol. Abri rápido a porta, porque as chaves ficam especialmente frias nesses dias. Maria tinha saído há pouco. A sala estava quentinha e senti o cheiro amadeirado vindo da lareira. Era noite e a iluminação estava amarelada pela chama. Cheguei bem perto do fogo, para esquentar as mãos. Fiquei ali por alguns minutos, a admirar aquela dança alaranjada e a ouvir os estalinhos da madeira. Uma cigarra cantava no bosque. Acendi as luzes e dei uma olhada em tudo. A mesa estava posta com a minha louça preferida, havia um arranjo de azaléias frescas trazidas do jardim e a sopa estava servida em uma sopeira de porcelada herdada da minha bisavó. É uma preciosidade familiar. Hummm. Sopa de capeletti. Que maravilha! Estava tão quente e eu com tanta fome que cheguei a queimar a língua, apressada. Maria fez um pão caseiro, acabara de sair do forno. Depois do jantar, fui para o banho. Liguei a ducha e esperei um pouco até o banheiro se encher de vapor. Adoro aquele sabonete de leite. Fiquei uns bons mitunos sob a força da água morna, relaxando a cabeça e as costas. Revigorada, enrolei-me correndo na toalha, naquele gelo que dá ao sair do banho. Coloquei o pijama de flanela, escovei os dentes e pulei para baixo das cobertas. Que delícia de cama, aconchegante, estilo provençal, tem a peseira alta, fiquei apaixonada desde a primeira vez em que a vi. Estava mesmo com saudades daquele lugar. Sentei perto da cabeceira, recostada em uma pilha de travesseiros fofos. Deslizava as pernas pelo lençol, pra esquentar. A cama estava perfumada, os lençóis brancos de puro algodão egípcio, com toque acetinado, exibiam um delicado bordado inglês. Fiquei ali encolhida, agarrada ao edredom macio e volumoso. Nossa. Tinha passado a semana toda sonhando com aquele momento. Maria deixou um chá preparado na mesinha. Tenho dúvidas se essa mulher não é um anjo. Servi meu chazinho de cidreira, feito com erva recém-colhida do quintal. A xícara era aquela de porcelana fina portuguesa, comprada anos atrás em um antiquário em Buenos Aires. Tem um motivo floral estampado, com a borda dourada. Entre um gole de chá e outro, folheava um livro de contos. Foi quando, de repente...

'Pedimos a todos que retornem aos seus lugares para que possamos reiniciar as atividades'. Ahn? Ah, tá. A aula. Acho que a moça do celular foi embora. Aiiii, que inveja boa. Inveja pode fazer bem. Deixou para mim um calorzinho no peito e para ela, a invejada, não exerceu nenhum efeito. Não desejei o seu mal, não desejei o que era dela. Eu só queria ter também e do meu jeito. Não fico com raiva de quem me inveja. Espero que as pessoas sejam igualmente solidárias comigo.             

terça-feira, 3 de maio de 2011

Todas as brasileiras são piranhas?


"A maioria das mulheres brasileiras são piranhas e marias-chuteira", disse a célebre e respeitável Sr.ª Adriana Aranguiz, chilena, modelo 'de sucesso', casada com o 'astro' do futebol Valdivia. Bem, se essa senhora mora no Brasil, imagino que ela tenha se referido ao círculo de mulheres com as quais ela convive, porque eu, minha irmã, minha mãe, minha vó, minha sogra e minhas amigas não somos galinhas e muito menos vivemos às custas de jogador de futebol.

Piranha, pra usar a expressão refinada da moça, tem em qualquer lugar, não é exclusividade brasileira. Sinceramente, não estou aqui pra emitir julgamentos, cada uma sabe o que quer da vida. O fato é que ela se referiu à maioria e isso, de certa forma, nos incluiu a todas. Sinto informar, Srª Aranguiz, mas a maioria das mulheres brasileiras é chefe de família. Nossas guerreiras sustentam seus lares com o próprio trabalho (amplie seus horizontes com um jornal). São mulheres que enfretam as dificuldades cotidianas da nossa dura realidade nacional, que não se curvam diante dos desafios da vida, que fazem acontecer e, melhor, não perdem a alegria e a esperança.

Desculpa dizer isso dessa forma, mas, francamente, a maioria das brasileiras, incluindo a mim, nem sabe quem é o seu marido. Só o que resta é desejar uma boa e breve viagem de retorno ao seu país, onde pelo que li você é muito bem vista.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Blogs das amigas



Adoro ler os blogs das amigas. Respiro um frescor, recupero uma parte de mim que é pura leveza, desprendimento, juventude e liberdade. Volto no tempo. Sinto como se nada tivesse mudado, como se tudo tivesse voltado a ser como era há dez anos. 

Tenho andado com uma nuvem carregada sobre a cabeça. Ui, credo. Estou quase um fantasma velho e cansado a arrastar suas pesadas correntes pela casa vazia à noite, sem a capacidade de assustar ninguém. Não posso me render. O fato é que temos certas fases difíceis na vida e o escape mais acessível é a fantasia. Por outro lado, se esse é um recurso para alívio imediato, traz também seus efeitos negativos, como toda poção mágica. Ocorre que a fantasia é tão poderosa e pode ser tão fantástica - por isso mesmo tão distante das possibilidades reais - que um abismo se abre e a gente cai no buraco.

Saber que o mundo é um lugar incrível e pensar que não posso desfrutar de muitas de suas ofertas, especialmente as que mais me interessam, é absolutamente desconfortante. Sou daquelas pessoas com espírito livre. Preciso de espaço. Preciso navegar. Quando estou presa, por qualquer razão, meus pulmões não inflam. Manter âncoras é sacrificante demais. Gosto de renovação. Troco os móveis de lugar, mudo de casa, de trabalho, de ambientes sociais. 

Nessa fase da vida, estou presa ao universo acadêmico. Não tenho a disposição que gostaria, nem pra seguir e nem pra interromper o curso. Já pelo final, não posso desistir. Tenho filhos pequenos, que dependem inteiramente de mim e de meu marido. É um imenso e gratificante prazer estar com eles, mas preciso admitir que exige a renúncia de ser, ainda que temporariamente, a prioridade da minha própria vida. Afastada do trabalho formal, fico isolada em minhas pesquisas. Quase não vejo amigos, não saio para festas, não faço mais faxina com som alto, cantando, dançando e tomando cerveja sozinha.

Vivo viajando. Não sei onde estão meus pertences, não posso carregar tudo pra todo lugar. Sinto como se eu estivesse 'rolando', meio jogada. De vez em quando encontro pessoas ótimas, acordo de ótimo humor, vou à praia, curto o meu dia. Outras vezes, principalmente quando os prazos estão no limite e começo a ficar sob pressão, fico irritada, cansada, um tédio só. Juro que se a mente não fosse presa ao corpo eu já teria abandonado a minha carcaça e saído por aí. Penso que é só uma fase. Que vai passar. Que valerá a pena. Mas aí penso que se a felicidade tem de estar no caminho, então está tudo errado.

A gente se cobra demais. Lembro-me de um tempo em que a minha filosofia de vida resumia-se a uma frase: 'Permita-se'. Infelizmente, hoje não posso me permitir muita coisa. É a desvantagem de se ter algo a perder.

Agradeço o carinho e as experiências de minhas colegas e amigas que (re)encontrei pelo blog. Mulheres de verdade, que transformam suas vidas e lutam por aquilo que querem, movimentando a vida de muitas outras pessoas, inclusive a minha.

Andréa! Fabi! Vocês são uma inspiração e um ombro amigo que conforta e mostra o lado humano, diverso e engraçado da nossa existência. Grande abraço para vocês!  

O que será de mim?


'Meus heróis fracassaram. O que será de mim?', pensava a menina, de mãos espalmadas, a olhar para o céu.

Complicações


Por que complico a vida? Tenho me debatido com essa pergunta. Participei ativamente de cada mínima parcela da construção do que sou, mas não me reconheço. Nada de essencial falta-me, exceto os sonhos infantis que aos poucos fui deixando pra trás. Fiz as minhas escolhas e não me arrependo, mas gostaria de viver paralelamente muitas outras coisas que são por natureza excludentes. O luto pelas vidas que não tive e que não posso ter é angustiante. Tento pensar no futuro, na possibilidade de vir a fazer algum dia, em alguma circunstância mais favorável, alguns dos tantos momentos que me escaparam, mas é claro que o consolo dura pouco porque logo começo a pensar, o meu grande Mal. Despejo rapidamente um caminhão de areia sobre o meu pequeno mar de ilusões. Afogo todos os peixinhos sem dó.

Que decepção. Sinto-me horrivelmente frustrada. A ambição é um veneno de ação lenta e dolorosa para quem não a sabe usar. Sinto-me fracassada, perdida e depois culpada por não dar o devido valor à vida que tenho. A pressa me consome, como se o tempo estivesse contra mim. Parece que toda decisão deve ser imediata, ainda que a única opção válida às 3h da madrugada seja apenas deitar e dormir. Preciso aceitar que certos desejos simplesmente não se realizam. Quer dizer, preciso é não sofrer tanto por isso. Não sou tão importante como gostaria. Não tenho um grande feito e acho muito piegas contar vantagem em cima de filho. Eu, por mim, não me orgulho. Vejo-me pequena nos olhos dos outros. Penso que eu deveria odiar mais a alguns outros do que a mim.

Percebo-me repetitiva. Isso me irrita. Queria ter o desprendimento de me reinventar. Reduzo há meses as minhas preocupações aos detalhes da decoração da festinha de aniversário das crianças. Que criatura minúscula eu me tornei. Olho em volta e vejo que as pessoas que me são caras estão a envelhecer. Penso que talvez em dez anos eu já não tenha mais algumas delas por perto. Sinto-me profundamente sozinha no mundo. É difícil perceber que ninguém, a não ser eu, deve ser responsável por mim. E é sofrível saber que muitas vezes o meu melhor não será suficiente.

Não guardo mágoas, mas tristezas. De vez em quando o baú de dores abre-se subitamente. Lança as piores cartas. É um jogo desleal. Aprendi a lidar com isso. Reconheço os pensamentos, reciclo e guardo. Depois eles se adaptam e voltam em outras ocasiões pra infernizar. É um esforço constante. Uma dialética interna. Promovo intensos debates mentais. No fim dou risada e faço logo o que deve ser feito. Tento ao menos ser prática.