domingo, 29 de maio de 2011

Cara de um...



Você era apenas um pequeno filhote. Abandonado com poucas semanas de vida, nem bem os olhos ainda abria. Tinha as patas rosadas, fofinhas. Os pelos eram curtos e macios, branquinhos com machas pretas. Era sim um vira-lata sem raça definida, um 'guaipeca', o filho de uma tal de Chiquinha e de um pai desconhecido. Dei-lhe o nome de Chico. É, amigo, isso foi há oito anos.

Tantas coisas aconteceram nesse tempo. Eu, se me visse de longe, nem me reconheceria. Mas você, ah... você nunca me esquece. Você me encontra, não importa em quem ou em quê eu me torne. Você pinça o melhor de mim. Fiel, sempre me recebe com a mesma alegria, posso ter saído há cinco minutos ou há três meses. E, estranho, não tenho sido uma boa dona. Não tenho retribuído o seu carinho, a sua devoção. Digo, num tom ríspido: sai, Chico! Não pula! Vai sujar a minha roupa! Vai me arranhar! Acho que você não entende o significado dessas palavras, porque não importa o que eu diga ou faça, você está lá. Tenho agora, portanto, a certeza de que quem perde sou eu.

De repente, notei que você ficou velhinho. Anda cansado, não tem mais tanta disposição. Esses dias alguém falou: 'nossa, pra tirar o Chico da cama agora é um trabalho, ele fica com muita preguiça de levantar'. Foi por isso, querido, que hoje eu não tentei espantar você. Quando saí e vi você levantar para me receber, pensei no esforço que você fez para deixar a sua cama quentinha e correr até mim. Pensei, aliás, em todo o esforço que você fez nesses últimos anos e no quanto fui dura com você. Notei que você não pula mais.

Afaguei a sua cabeça, afofei as suas orelhas e você se inclinou como se não quisesse perder nem um mínimo pedaço da minha mão. Abanou com a cauda, olhou-me com doçura. Você, ao contrário de mim, não mudou. Sabe, recentemente, passei para o seu lado. Tornei-me, assim, um ser mais sensível e um tantinho melhor. Foi também por isso que, dessa vez, como nos velhos tempos, eu olhei para você com doçura. Tem certas coisas que acontencem na nossa vida que só passam a fazer sentido quando, em uma cena cotidiana qualquer, exercem um efeito transformador.    

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