segunda-feira, 2 de maio de 2011

Complicações


Por que complico a vida? Tenho me debatido com essa pergunta. Participei ativamente de cada mínima parcela da construção do que sou, mas não me reconheço. Nada de essencial falta-me, exceto os sonhos infantis que aos poucos fui deixando pra trás. Fiz as minhas escolhas e não me arrependo, mas gostaria de viver paralelamente muitas outras coisas que são por natureza excludentes. O luto pelas vidas que não tive e que não posso ter é angustiante. Tento pensar no futuro, na possibilidade de vir a fazer algum dia, em alguma circunstância mais favorável, alguns dos tantos momentos que me escaparam, mas é claro que o consolo dura pouco porque logo começo a pensar, o meu grande Mal. Despejo rapidamente um caminhão de areia sobre o meu pequeno mar de ilusões. Afogo todos os peixinhos sem dó.

Que decepção. Sinto-me horrivelmente frustrada. A ambição é um veneno de ação lenta e dolorosa para quem não a sabe usar. Sinto-me fracassada, perdida e depois culpada por não dar o devido valor à vida que tenho. A pressa me consome, como se o tempo estivesse contra mim. Parece que toda decisão deve ser imediata, ainda que a única opção válida às 3h da madrugada seja apenas deitar e dormir. Preciso aceitar que certos desejos simplesmente não se realizam. Quer dizer, preciso é não sofrer tanto por isso. Não sou tão importante como gostaria. Não tenho um grande feito e acho muito piegas contar vantagem em cima de filho. Eu, por mim, não me orgulho. Vejo-me pequena nos olhos dos outros. Penso que eu deveria odiar mais a alguns outros do que a mim.

Percebo-me repetitiva. Isso me irrita. Queria ter o desprendimento de me reinventar. Reduzo há meses as minhas preocupações aos detalhes da decoração da festinha de aniversário das crianças. Que criatura minúscula eu me tornei. Olho em volta e vejo que as pessoas que me são caras estão a envelhecer. Penso que talvez em dez anos eu já não tenha mais algumas delas por perto. Sinto-me profundamente sozinha no mundo. É difícil perceber que ninguém, a não ser eu, deve ser responsável por mim. E é sofrível saber que muitas vezes o meu melhor não será suficiente.

Não guardo mágoas, mas tristezas. De vez em quando o baú de dores abre-se subitamente. Lança as piores cartas. É um jogo desleal. Aprendi a lidar com isso. Reconheço os pensamentos, reciclo e guardo. Depois eles se adaptam e voltam em outras ocasiões pra infernizar. É um esforço constante. Uma dialética interna. Promovo intensos debates mentais. No fim dou risada e faço logo o que deve ser feito. Tento ao menos ser prática.
      

Um comentário:

  1. Se o baú vem com as piores cartas para o jogo, passa um "facão" bem dado nele que tá tudo certo!
    Beijão!

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