quarta-feira, 4 de maio de 2011

Inveja boa



Passava das três da tarde de uma fria tarde de maio. A cadeira dura fazia com que o dia parecesse mais longo do que o natural. Havia uma centena de pessoas naquela sala, mas eu estava sozinha. Foi quando, furtivamente, invadi uma vida alheia. A moça da frente, ao celular, dizia: "Oi, Maria! Nós vamos sair de Porto Alegre às cinco, pode abrir a casa para arejar, arruma as camas, prepara a lareira e deixa a janta pronta. Umas sete estaremos aí em Gramado...". 

Comecei a imaginar o caminho entre Porto Alegre e Gramado, a estrada sinuosa da serra, com suas inúmeras árvores, o sol se pondo e a temperatura caindo. Veio uma pequena chuva, que trouxe o cheiro do mato molhado e deu um certo brilho ao asfalto. Tocava Chico Buarque no carro e os pés estavam começando a congelar. Quase não era possível mexer os dedos. Dava pra ver lá de longe a fumaça das chaminés nas casinhas pelos campos. Não via a hora de chegar, depois de um exaustivo dia de treinamento. Ahhhh. De vez em quando me espreguiçava. Segui cantarolando em dueto com o Chico até a garagem. Adoro esse cantinho. É uma casa de pedra, antiga, pequena, construída no meio do terreno, cercada pelo jardim. Tem um muro baixo na frente, escondido entre as lavandas. Atrás há um bosque e um gazebo branco, onde gosto de passar as tardes de sol. Abri rápido a porta, porque as chaves ficam especialmente frias nesses dias. Maria tinha saído há pouco. A sala estava quentinha e senti o cheiro amadeirado vindo da lareira. Era noite e a iluminação estava amarelada pela chama. Cheguei bem perto do fogo, para esquentar as mãos. Fiquei ali por alguns minutos, a admirar aquela dança alaranjada e a ouvir os estalinhos da madeira. Uma cigarra cantava no bosque. Acendi as luzes e dei uma olhada em tudo. A mesa estava posta com a minha louça preferida, havia um arranjo de azaléias frescas trazidas do jardim e a sopa estava servida em uma sopeira de porcelada herdada da minha bisavó. É uma preciosidade familiar. Hummm. Sopa de capeletti. Que maravilha! Estava tão quente e eu com tanta fome que cheguei a queimar a língua, apressada. Maria fez um pão caseiro, acabara de sair do forno. Depois do jantar, fui para o banho. Liguei a ducha e esperei um pouco até o banheiro se encher de vapor. Adoro aquele sabonete de leite. Fiquei uns bons mitunos sob a força da água morna, relaxando a cabeça e as costas. Revigorada, enrolei-me correndo na toalha, naquele gelo que dá ao sair do banho. Coloquei o pijama de flanela, escovei os dentes e pulei para baixo das cobertas. Que delícia de cama, aconchegante, estilo provençal, tem a peseira alta, fiquei apaixonada desde a primeira vez em que a vi. Estava mesmo com saudades daquele lugar. Sentei perto da cabeceira, recostada em uma pilha de travesseiros fofos. Deslizava as pernas pelo lençol, pra esquentar. A cama estava perfumada, os lençóis brancos de puro algodão egípcio, com toque acetinado, exibiam um delicado bordado inglês. Fiquei ali encolhida, agarrada ao edredom macio e volumoso. Nossa. Tinha passado a semana toda sonhando com aquele momento. Maria deixou um chá preparado na mesinha. Tenho dúvidas se essa mulher não é um anjo. Servi meu chazinho de cidreira, feito com erva recém-colhida do quintal. A xícara era aquela de porcelana fina portuguesa, comprada anos atrás em um antiquário em Buenos Aires. Tem um motivo floral estampado, com a borda dourada. Entre um gole de chá e outro, folheava um livro de contos. Foi quando, de repente...

'Pedimos a todos que retornem aos seus lugares para que possamos reiniciar as atividades'. Ahn? Ah, tá. A aula. Acho que a moça do celular foi embora. Aiiii, que inveja boa. Inveja pode fazer bem. Deixou para mim um calorzinho no peito e para ela, a invejada, não exerceu nenhum efeito. Não desejei o seu mal, não desejei o que era dela. Eu só queria ter também e do meu jeito. Não fico com raiva de quem me inveja. Espero que as pessoas sejam igualmente solidárias comigo.             

3 comentários:

  1. Na... desculpa cortar o teu barato, mas este sonho está utópico demais.
    Não... não é pela casa e tudo mais, pois tudo isso é possível de se ter.
    Falo da Maria... ela é utópica! Num sonho mais próximo do real a lareira estaria com o fogo apagando, pois a Maria "pé-de-leque" teria ido embora antes do horário. Além disso, ao invés de pão e sopa, haveria poeira mal tirada e vidro para lavar...
    Hehehehe... beijão!

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  2. Olha namo, se quiser ficar de Maria, com função gratificada, estou contratando. =p

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  3. Se você assinar a carteira, blz... trabalho 15 dias e pego atestado... depois fico "encostada" no INSS em face dos problemas na coluna, hehehehe

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