quarta-feira, 4 de maio de 2011

O lugar do outro



Era tarde da noite quando abriram a última garrafa de champanha. Estavam todos muito alegres. Carlos Eduardo, sua noiva Lili, seu pai orgulhoso, alguns de seus amigos e até a sua sogra. Fartos de um jantar festivo, brindavam o novo emprego do rapaz, que, radiante e um tanto embriagado, fazia discursos e promessas. Fim da comemoração, Carlos tomou um longo banho para curar os efeitos do álcool, tomou um café bem forte e passou algumas horas ainda acordado, pensando no primeiro dia de trabalho como diretor executivo de uma importante empresa multinacional. Estava, de fato, feliz e entusiasmado com a promissora carreira que o aguardava.

O sol ainda não tinha raiado, mas Carlos já estava a postos. Nem sentia o cansaço da noite mal-dormida, tamanha a ansiedade. Queria tomar posse do seu lugar. Tinha planos, estratégias empresariais, não via a hora de começar. Saiu cedo de casa, foi o primeiro a chegar no escritório. Entrou na agora sua sala, sentou-se na imponente cadeira, reclinou-se, sentiu-se o dono do mundo. Fechado ali, no silêncio, pôs-se a observar o entorno, projetando as mudanças necessárias para a adequação do espaço, avaliando os móveis e pensando na nova decoração. Percebeu então as primeiras marcas de alguém que havia habitado aquele local.

Havia pregos na parede, um lascadinho imperceptível no canto esquerdo da mesa, um copo descartável amassado na lata de lixo. Sentiu um leve desconforto. Sabia que o antigo ocupante do cargo era um homem de negócios respeitável, sério e honesto,  mas que estava há muito tempo na empresa e fora demitido porque, após a reestruturação, os acionistas desejavam uma renovação no setor. Balançou a cabeça, como se tentasse afastar qualquer pensamento. 'Vamos ver, vamos ver', dizia para si em voz alta. Movimentou-se pela ampla sala, abrindo e fechando portas e gavetas.

Estava envolvido com alguns balancetes quando acabou por abrir uma última gaveta, no fundo de um armário. Encontrou um porta-retrato, emoldurando uma foto do Sr. Luis Antônio Borba e família. Era um homem por volta dos cinquenta anos, ao lado de uma bela esposa e de três adolescentes, dois rapazes e uma mocinha. Os olhos de Carlos Eduardo cruzaram com os do Sr. Borba, que parecia fitá-lo. Carlos Eduardo imaginou ele próprio naquela foto, com sua Lili e seus futuros filhos, alguns anos mais tarde. Sentiu um profundo mal-estar. Pôs-se a pensar no que teria sido da vida daquele homem, nas pilhas de contas atrasadas a pagar, na demissão da empregada que os ajudara a criar os filhos e que estava há mais de dez anos com a família. Imaginou os dois filhos mais novos mudando de escola e o mais velho preocupado por ter de trancar a faculdade. Pensou na Sr.ª Borba, aflita.

Por um instante, lamentou estar ali. O prazer lhe escapou. Sentiu um nó na garganta, desanimou. Guardou a foto no armário, não teve coragem de se desfazer daquele objeto. Pensou no Sr. Borba tomando o último gole de água naquela sala, amassando e jogando fora o copo na lixeira. Imaginou-o retirando os quadros e os pertences pessoais, encaixotando tudo e saindo pelo corredor, de cabeça baixa, despedindo-se da equipe.
'Bom dia, Dr. Carlos!', disse a secretaria que acabara de chegar, num tom de absoluta neutralidade, demonstrando profissionalismo. 'Seja bem-vindo!', continuou. 'Estou à sua disposição', encerrou, saindo e fechando a porta. Carlos estava perdido. Não tinha mais certeza sobre o que estava a fazer naquele local. Sentiu-se estranho, voltou a sentar na cadeira imponente e seguiu com a leitura dos balancetes. Parou. Fez um telefonema: 'Dona Janete, por favor, peça ao pessoal da manutenção para pintar a sala com urgência. Obrigado'.   

2 comentários:

  1. Feliz do Carlos que conseguiu, pelo menos por um instante, se colocar no lugar do outro.
    "I recognize myself in every stranger´s eyes" (Roger Waters)

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  2. Adorei o texto!! Que escrita, Lia!
    o bom de tudo isso é que nem todos os destinos sao iguais... e nós somos donos dos nossos: cada detalhe de nossa vida pode modificar nosso futuro. A escolha é nossa!
    Adorei a leitura!!!

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