sexta-feira, 22 de julho de 2011

A mulher do fantasma

Dona Maria era uma pessoa de bem. Acordava cedo, cuidava da casa, da família, mantinha tudo organizado, não incomodava os vizinhos, fazia tudo pelo melhor e nunca reclamava de nada. Era muito discreta. Poucos sabiam da sua vida. Na verdade, só uma pessoa sabia de fato o que acontecia na sua vida: a prima Carolina. Era essa prima emprestada, de parentesco muito distante, porém com quem Dona Maria mantinha laços afetivos muito estreitos, que transitava na ponte entre a rua e a casa daquela adorável senhora. É que o marido da Dona Maria não gostava de visitas, mas simpatizava muito com a tal Carolina. Duas vezes por mês, a prima viajava trezentos quilômetros para estar lá. Levava disfarçadamente umas sacolas de compras e pegava as contas a pagar no canto da cristaleira, sem que Dona Maria visse. Sentava-se na sala e as duas aproveitavam a tarde para tomar chá e conversar, já que o Sr. Wilson estava no trabalho e o Guto, filho da Dona Maria, estava na escola.

Todos os dias, desde que eles se casaram (e isso já tinha os seus vinte anos), Dona Maria acordava antes das seis horas, arrumava-se e preparava o café para o Sr. Wilson. Os dois sempre foram muito apaixonados e companheiros. Saíam juntos para o trabalho, ele a deixava no escritório e seguia para a sua oficina. Almoçavam juntos e voltavam juntos no fim do dia. Depois que o Guto nasceu, viviam os três pra lá e pra cá. Era Senhor Wilson quem levava e buscava o filho na escola.

Foi assim até o dia em que o marido e o filho morreram. Depois disso, Dona Maria preferiu sair do trabalho e ficar em casa para ter mais tempo para cuidar da família. Continuava a acordar antes das seis, arrumava-se, preparava o café. Despedia-se do marido, acompanhava-o até a porta. Organizava as coisas, preparava o almoço, acordava o filho e o ajeitava para a aula. Almoçavam juntos e ela os acompanhava até a porta. No final da tarde, esperava por eles arrumada - que a vovó lhe ensinara a esperar o marido sempre perfumada e bem vestida - e juntos aproveitavam o tempo antes de dormir. Dona Maria nunca se preocupou com o fato de eles terem morrido. Para ela, isso não era importante.

Havia oito anos que as janelas daquela casa não se abriam. Dona Maria era vista rapidamente poucas vezes ao dia: bem cedinho - quando estendia as roupas dela, do marido e do filho no varal e abria e fechava a porta; ao meio-dia - quando abria e fechava a porta (em dois momentos, com o intervalo de uma hora e meia entre eles); e no final da tarde - ao recolher as roupas e ao abrir e fechar a porta novamente. Parecia sempre muito tranquila. Era educada e, se acaso alguém a cumprimentasse, sempre tinha uma palavra doce e um sorriso no rosto. Apesar de ser receptiva, os contatos externos eram muito raros. Ninguém, exceto o marido, o filho e a prima Carolina, ultrapassava o limite do portão. Ninguém, pra ser sincera, nem notava que ali havia uma casa e uma mulher tão invisível quanto o marido e o filho.

A prima Carolina gostava mesmo de visitar a Dona Maria, não era um favor não. Eram amigas. Ela também não se importava com aquela história de morte. Claro que ela não via e não ouvia o Sr. Wilson, mas se ela, que era viva, também não era vista nem ouvida pelo próprio marido que era vivo, então parecia não fazer a menor diferença estar vivo ou morto. Carolina tinha um situação financeira favorável, por isso decidira ajudar a prima. Não que ela não preferisse que a Dona Maria saísse um pouco de casa, fizesse outras amizades, voltasse a trabalhar; inclusive insistia muito para isso. Tentou alguns tratamentos psiquiátricos, espirituais, enfim, tentou. Sem sucesso, passou a conviver com as manias da prima, como fazia com as manias de todas as outras pessoas que ela conhecia. Cada um com as suas maluquices, pensava.

Certa manhã, ao abrir a porta como de costume, um gato pulou pra dentro da casa - e sabe como são ágeis os gatos. Dona Maria assustou-se. Ficou com um pouco de medo do bicho, não estava muito acostumada a ter animais. Começou a pensar em um jeito para tirá-lo dali antes que o marido chegasse. Bom, não teria como sair com a casa fechada, foi a ideia mais óbvia e imediata que lhe ocorreu. Temerosa, abriu uma fresta na porta. Tentou tocar o bicho para a cozinha, mas não deu certo.Teve de abrir a porta um pouco mais e um pouco mais e um pouco mais. Escancarou a porta e nada do gato sair.

Dedicou algumas horas a observar o gato. Estava se agradando com aquela presença, mas lembrou-se de que o marido era alérgico a gatos. Decidiu que o melhor seria tirar logo o felino dali. Vendo o apreço do animal pelas cortinas, abriu repentinamente as janelas. As pessoas na rua pararam, surpresas. Começaram a se aglomerar na frente da casa, a espiar aquela mulher falando e gesticulando dentro de casa sozinha. Não viam o gato, mas ele estava mesmo lá. Confirmavam e cochichavam a teoria da loucura, justo no maior ato de sanidade da Dona Maria. 

Quando a Dona Maria viu o agito, discreta que era, fechou tudo bem rápido. Ficou com o gato. Lembrou-se de que o marido havia morrido e teve esperança de que talvez isso o tivesse curado da alergia. E não é que era? Dona Maria voltou à rotina, envergonhada porque todo mundo achou que ela fosse louca. Fechou a janela e até hoje nunca mais abriu. 

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