quinta-feira, 21 de julho de 2011

Maldito galo

Três da manhã. Pedro virava-se de um lado para o outro, atravessado na cama. O corpo não se ajsutava ao colchão macio.

- Maldito galo! Repetia.

Embora possa parecer estranho o cantar de um galo na madrugada da cidade, Pedro já havia se acostumado com as excentricidades do vizinho bigodudo da casa amarela. O Sr. Rotterford era um homem forte, por volta dos cinquenta anos. Gostava de fingir que viva no campo. Morava sozinho, era viúvo e tinha uma única filha que nunca vinha visitá-lo. Ele sempre estava a esperar por ela, acordava e preparava o café para recebê-la. Fazia bolos, geléia de morango - a preferida dela - pães caseiros. Comia quase tudo sozinho, às vezes dava um pouco para um menino que vendia picolés na rua. Ocupava-se com os reparos da casa. Ele queria estar pronto para a hora em que ela chegasse.

Na verdade, o canto do galo nunca incomodara propriamente Pedro. Nunca até aquela noite.

- Maldito galo! Não me deixa dormir! Perturbou-me o sono! Desgraçado! Que morra o galo! E também o Sr. Rotterford. Por que diabos esse vizinho tem de ter um galo?

Era de fato uma madrugada difícil. Pedro precisava tomar uma decisão, não havia mais tempo. Se tudo não fosse resolvido ali e naquele instante, então nada mais faria sentido - nem o que havia passado, nem o que estaria por vir. Todo o desenrolar de uma vida parecia misteriosamente restrito a uma única decisão a ser tomada de rompante em uma noite mal-dormida. 

Em três dias, Pedro estaria casado com Letícia. E é preciso reconhecer que Letícia era uma mulher de muitas virtudes: zelosa, honesta, educada, fiel, obediente, casta e cozinheira de mão cheia. Aos olhos de Pedro - e aos olhos da cidade inteira - a noiva era uma mulher para casar.

- Maldito galo! Se pego, mato! Arranco-lhe todas as penas! Quebro-lhe o bico! Continuava ele a esbravejar enquanto socava o travesseiro e o apertava sobre a cabeça até não suportar a falta de ar.

Pedro fora apaixonado por Letícia desde a adolescência. Como era bela e encantadora aquela jovem! As famílias aprovavam o compromisso. Tanto que, logo após o noivado, Pedro passou a assumir os negócios do sogro. Além disso, sua mãe e sua sogra haviam dedicado as tardes do último ano para bordar e crochetar o enxoval junto com a noiva. Estava envolvido dos pés à cabeça e isso sempre lhe havia sido motivo de felicidade.

Foi assim, de repente, às véspera do grande dia, que Pedro viu-se dominado pela cólera. Não havia um motivo, o que tornava tudo ainda mais desesperador. Ele era um homem sério, trabalhador, não era dado a vícios ou a noitadas. Definitivamente, não era um cafajeste ordináro. Ela era adorável, amável, desejável. Não havia um problema, nem por lá e nem por cá. 

A questão é que ele não queria mais se casar - e esse também não era o problema, visto que estava resolvido. O que o perturbava era como dizer isso. Como arruinar a vida daquela tão venerável mulher? Como despachar todos os convidados? Como devolver todos os presentes e explicar para as tias já cheias de rolos na cabeça que não haveria casamento? Como dormir com esses pensamentos todos se aquele maldito galo não parava de cantar e essas situações todas precisavam ser decididas até o amanhecer?

Irritado, Pedro levantou-se. Andou de cueca pela sala, de um lado para o outro. Abriu uma garrafa de whisky, encheu o copo e virou num só gole. Repetiu a sequência algumas vezes. Depois, por sorte, o galo silenciou. Pedro deitou e dormiu tão profundamente que se levantou quando já passava das seis da tarde. Não havia como dizer mais nada. Não havia, portanto, mais problema algum. Bebeu de novo. Dormiu.

O telefone tocou uma centena de vezes, mas Pedro decidira abdicar das palavras. Não atendeu. Como morava sozinho, ficou à vontade. Por culpa do galo que o Sr Rotterford criava para ter ovos frescos no galinheiro e fazer delícias caseiras para a filha que nunca vinha, Pedro tornou-se um canalha. E uma vez convertido, não havia volta.

Na hora do casamento, o sino da igreja tocou. Pedro saiu arrumado, deu algumas voltas e sentou-se tranquilamente num boteco. Pediu uma dose e bebeu em paz. Passou um tempo entre mulheres e bares, depois foi para casa e dormiu. Acordou-se às três da manhã, de ressaca.

- Maldito galo! Repetia, a revirar-se pela cama.   

Um comentário:

  1. Os galos e as galinhas foram/são o centro das atenções? Lá nas ervilhas, também. Malditos. :)

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